A Voz da Nossa História

Alcides Buss, Diretor entre 1993 e 1995, conta sobre os desafios à frente da ABEU

Cadastrado em 11/06/2017 23:35
Atualizado em 12/06/2017 15:59

Notícia por ABEU

A Voz da Nossa História

Hoje apresentamos mais alguns capítulos da trajetória da ABEU através das percepções de mais um dos nossos entrevistados na coluna A Voz da Nossa História. Conversamos essa semana com Alcides Buss, que já ocupou uma série de cargos em nossa Associação, inclusive como Diretor durante o biênio de 1993-1995. Professor de Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina desde 1980, tendo se aposentado em 2008, foi também diretor da Editora da UFSC no período de 1991 a 2008. Sua graduação em Letras pela UNISUL, além do Mestrado e Doutorado em Literatura pela UFSC, evidencia sua clara paixão pelas palavras e pelo livro, além das inúmeras publicações como poeta e ações que liderou ao longo da carreira em prol da leitura.

Nesta rica entrevista, Alcides Buss relata dificuldades que enfrentou à frente da ABEU, mas também conquistas e o legado que deixou para as editoras universitárias. Ao fim, revela sua esperança sobre a constante evolução da Associação, que a cada ano se fortalece através do trabalho em equipe. Confira a entrevista completa abaixo.

1) O senhor passou a integrar efetivamente a ABEU em 1991, quando fez parte do Conselho Fiscal da Diretoria de Eduardo Magalhães Junior. Desde então, esteve presente em diversas outras gestões da Associação, ocupando cargos diversos, como Diretor de Comunicação e de Difusão Editorial, chegando até a ser Diretor durante o biênio de 1993-1995. Você conseguira fazer um resgate de diferentes desafios e momentos que presenciou na ABEU ao longo desta longa trajetória na Associação? O que mais te marcou?

Fui eleito por aclamação para presidir a ABEU no período 1993/95. Havia assumido há algum tempo a Editora da UFSC, que vinha de uma importante gestão pelo escritor Salim Miguel e que, de alguma maneira, firmava-se como referência na área universitária. Eu era um empolgado. A ABEU, por sua vez, vivia um período de dificuldades financeiras e de um desânimo que ameaçava se alastrar. Encarei o desafio. Contei com a sorte de poder montar uma equipe valiosa: Sônia Queiroz, da UFMG, na secretaria; Carlos Alberto Gianotti, da UNISINOS, na tesouraria; Luís Cavalini, da UFJF, na assessoria de comunicação; e Gustavo Falcón, da UFBA, na coordenação do Programa Interuniversitário de Distribuição de Livro (PIDL). Criamos o Jornal da ABEU. Revitalizamos o PIDL. Recuperamos a confiança. Em dois anos, dobramos o número de associados. Pela primeira vez, na história da ABEU, participamos coletivamente da Feira do Livro de Frankfurt.

As dificuldades, apesar de tudo, eram muitas. As editoras menores e as mais novas não dispunham de verba para incrementar um programa editorial, mesmo que modesto. Fomos então ao Ministério da Educação e conseguimos, através da Secretaria de Educação Superior, a criação de um programa de estímulo às editoras através da transferência de recursos financeiros. Por outro lado, havia forte questionamento por parte das entidades do livro, em especial da CBL, sobre o papel das editoras universitárias. Estas eram vistas por algumas pessoas como concorrentes desleais, pois se valiam dos impostos para concorrer com as publicações privadas. Foi longo o trabalho de desconstrução desse preconceito, trabalho, aliás, continuado nas gestões posteriores, principalmente por José Castilho Marques Neto e Valter Kuchenbecker. Conseguimos mostrar que nossas editoras apenas complementavam o trabalho das editoras ditas comerciais. Aos poucos arrefeceu a desconfiança, resultando posteriormente em importante cooperação entre os vários segmentos.

Em 1995, abri mão de candidatar-me a um segundo mandato, para levar a presidência da ABEU para Brasília. A ideia era montar um escritório na capital, que facilitasse a captação de recursos e promovesse mais intensamente a política editorial nas universidades. Elegemos então Alexandre Lima, que dirigia a Editora da UnB. Infelizmente, as perspectivas de sucesso não se confirmaram. Decorreu daí um tempo relativamente perdido. Mas não de tudo.

2) Neste período, o senhor também integrou a Editora da Universidade Federal de Santa Catarina e, portanto, conhece de perto a necessidade das editoras universitárias se apoiarem para viabilizar a difusão da produção acadêmica. Desta forma, como fazer parte da ABEU abriu seus horizontes para entender a questão do livro universitário no Brasil? Você encontrou realidades muito divergentes da que você conhecia na EdUFSC?

3) Que elementos positivos você acha que a ABEU trouxe para sua vida, profissionalmente e pessoalmente?

Durante dezessete anos dirigi da Editora da UFSC. Ali publicávamos em média um livro por semana e tínhamos autossuficiência financeira. Com o apoio dos reitores, sob cujas gestões colaborei, mantive sempre meu compromisso de colaboração na ABEU. Na diretoria de difusão editorial, com o apoio competente da empresa Equipe Digital, de Florianópolis, consegui implementar o site da ABEU, que era uma antiga aspiração. E mais adiante foi possível implementar o catálogo unificado, outra grande aspiração. Junto com o catálogo unificado havia o projeto de uma livraria virtual que atendesse todo o território nacional. O projeto esbarrou em dificuldades de legislação, mas nunca morreu. Na diretoria de comunicação, orgulho-me de ter criado o boletim semanal ABEU em Rede, e também a revista VERBO, que tinha a pretensão de ser uma publicação de vanguarda focada na proposta editorial universitária. Tudo isto foi possível, preciso dizer, porque tinha o apoio de minha equipe na Editora da UFSC.

Tudo ia muito bem. Em 2007, porém, algumas editoras paulistas, descontentes com a perda prolongada da hegemonia para outras regiões do País, promoveram uma dissidência lastimável, comprometendo o avanço unificado das conquistas no setor. Uma pena! Em 2008, ao aposentar-me, inacreditavelmente também a editora que dirigi por longos anos aderiu ao pequeno grupo dissidente. Tem explicação? Tem. Neste caso, havia a preocupação em desfazer a herança de sucesso recebida. E o que mais? O tempo dirá. Assim é o mundo, feito de pessoas que de uma maneira ou de outra se encaixam nas personagens do grande sertão retratado na obra maior de Guimarães Rosa. Há sempre quem esteja disposto a vender sua alma ao diabo. Felizmente, no entanto, o tempo tudo corrige. Vemos hoje a ABEU fortalecida, retomando os velhos sonhos, comprometida com sua missão.

4) Por fim, o que você espera para o futuro da ABEU?

Espero e torço para que a ABEU seja sempre maior do que as diferenças naturalmente presentes em qualquer associação. A ABEU já tem uma história, e não é uma história qualquer. No imenso Brasil, diverso em muitos aspectos, aglutinou competências e vontades para fazer do livro universitário um fator, inquestionável, de desenvolvimento da educação, da ciência e da cultura. E isso precisa continuar. No conjunto, ninguém é melhor do que ninguém. O que importa é o Todo feito de muitas partes, momentos e cores. Leia-se: integração e confiança no futuro. As universidades serão melhores com boas editoras. O Brasil, por sua vez, será melhor com boas universidades. Mas não basta o olhar interno. É preciso que haja cooperação e integração com outros países, de preferência com todos, sem esquecer as nações pobres. Sempre vi e quero ver a ABEU como um portal para o exercício da esperança e da grandeza humana.


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