A Voz da Nossa História

Ex-presidente da ABEU, João Carlos Canossa avalia a evolução da Associação nos últimos 30 anos

Em 24/07/2017 17:24
Atualizado em 24/07/2017 18:39

Notícia por ABEU

A Voz da Nossa História

Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, com especialização em Comunicação e Saúde e no segmento editorial técnico-científico, acadêmico, João Carlos Canossa é o entrevistado dessa semana na coluna A Voz da Nossa História. Apesar de fazer parte da história recente da nossa Associação, atuando como presidente da ABEU no biênio 2013-2015, Canossa já possui uma sólida trajetória no segmento editorial universitário, sendo tecnologista da Fundação Oswaldo Cruz, onde exerce, desde 1996, as funções de Editor Executivo da Editora Fiocruz. Foi também vice-presidente para a Região do Atlântico da Associação de Editoras Universitárias da América Latina e Caribe - EULAC (2014-2015, 2009-2011 e 2007-2009).

Suas qualificações e a recente passagem pela ABEU ajudam a colocar em evidência as principais demandas do meio livreiro universitário. Ainda estão frescas na memória as ações em prol das editoras e os desafios constantes que envolvem a difusão dos livros no Brasil e em outros países. Por isso, em nossa conversa, Canossa avalia a evolução da Associação nos últimos 30 anos, comenta sobre a continuidade de projetos tocados por diferentes diretorias e reflete sobre o que a ABEU ainda pode construir coletivamente para o futuro.

1) Como alguém que já ocupou a presidência da ABEU, quais você acha que são os principais desafios, hoje, da Associação, após 30 anos de evoluções no apoio às editoras e ao livro universitário? Quais os temas mais urgentes para o mercado editorial universitário atualmente?

Particularmente, me parece que os desafios e temas seguem sendo os de sempre, ainda que alguns com renovados ares: formar leitores plenos; sensibilizar e suscitar mais e melhores autores, livros e leitores; fazer o livro chegar até onde e quem precisa; abrir renovadas frentes de diálogo e cooperação com o governo e a sociedade civil no sentido de incrementar políticas e apoios para o livro e, nestas, contemplar o livro acadêmico; cooptar, no melhor sentido da palavra, agências de avaliação e de fomento acadêmicos; incrementar as bases estruturais do fazer editorial universitário; incitar que o mercado – e a academia – nos perceba(m) crescentemente como parceiros, partícipes “co-operantes” da cadeia produtiva e distributiva do livro; compreender como oportunidade os novos suportes e, sobretudo, as novas linguagens para o livro acadêmico (especialmente quando se pensa em ampliar, diversificar até “desfronteirizar” os públicos-alvo das editoras universitárias); e uma série de outros renovados “feitos e por fazer”. Estou absolutamente convencido dos notáveis e importantes avanços da edição universitária, técnico-científica, brasileira; contudo, de igual modo, penso que certamente há “mais leões na cova” e é fundamental dar conta destes com tenacidade e a dose de sabedoria possível.

2) A ABEU, por seu próprio caráter de associação, parte de um ideal colaborativo, que deve ser compartilhado pelas diretorias que assumem a entidade. Neste sentido, como você avalia a continuidade nos projetos das gestões da ABEU? Você percebe um ideal comum por parte dos presidentes que levaram a Associação ao patamar em que esta se encontra hoje?

Nesse aspecto, dúvida zero! Cito como um de muitos exemplos um projeto que teve continuidade com inovações ao longo de diferentes diretorias: a política de incentivo à participação coletiva em eventos nacionais e internacionais. Isso pra dizer que o ponto é justamente o da continuidade, não do continuísmo. Seguir tocando o que de bom já havia e começar a rodar novos pratos e manter todos girando em sua própria haste com equilíbrio: é a melhor imagem que me ocorre. Os que me precederam me ensinaram a assim fazer, e sinceramente espero ter inspirado quem que me sucedeu ao mesmo. Quero dizer: há espaço para ser pessoal, sem necessariamente ser personalista. O bom da ABEU é ser um ente coletivo e, nesse sentido, o plural é o que faz sentido, é o que deve dar o tom. A ABEU torna-se a cada dia um referencial político, um fórum de representação de uma categoria que tem a missão de difundir o que de melhor em ciência, educação, cultura e inovação se produz neste solo. Se não nos continuarmos e, ao mesmo tempo, não nos reinventarmos, corremos o risco de, um pouco além, não reconhecermos a imagem refletida no espelho. E uma entidade sem identidade é uma entidade finda.

3) A ABEU atua em um segmento bem específico do mercado editorial, voltado para as publicações científicas e a produção acadêmica. Como responsável por reforçar os canais de comunicação da Associação, durante sua diretoria, como você acha que é possível realizar uma divulgação que vá além da "bolha" das universidades? E, por outro lado, você acredita que haveria pautas de interesse do grande público, relacionadas ao livro universitário?

Sim para ambas questões! Pegando carona na pergunta anterior, me parece que só tratei de buscar a concretude a um projeto de comunicação para a ABEU que já vinha sendo gestado e desejado desde muito. As tecnologias estavam mais acessíveis e, por outro lado, havíamos realmente que profissionalizar a comunicação da ABEU, o fazer comunicacional da Associação. Porque, sim, a divulgação tem que sair da “bolha” da universidade, mas seria um equívoco sair dessa bolha pra entrar em outra, a “bolha” da imprensa, ou da "grande imprensa", como se diz por aí. Uma pauta, um tema, pode ser de interesse para o grande público sem, contudo, incitar a imprensa – acontece com frequência, como bem sabemos. Por isso é fundamental a compreensão de que nossas assessorias devam ser de comunicação antes de ser de imprensa. Pensar estratégias de divulgação em sentido ampliado, indo além da assessoria de imprensa stricto sensu, o que pressupõe comunicação em mídias sociais (Facebook e quetais), rodas de bate-papo, ferramentas de Fale Conosco e quaisquer outros canais de comunicação direta com os nossos públicos. E tudo isso, na prática, se faz com profissionais, não com um diretor (que tem sua “própria” editora para dar conta). Se o que fazemos não impacta – e, por conseguinte, não interessa – o grande público, talvez então estejamos fazendo mal. Uma coisa é não interessar, outra é não dar a conhecer. A gente só se interessa por aquilo que tem oportunidade de apreciar, não é mesmo?

4) Por fim, o que você espera para o futuro da ABEU?

Que a nossa ABEU siga no crescente de tornar-se uma entidade de referência, fortemente ativa na formulação e implantação de Políticas – para o livro em geral, e o livro acadêmico em particular. E que venham mais trintas, no plural. Pois, como já tive oportunidade de ‘dizer’ aqui, em se tratando de ABEU o plural é o que faz sentido... é, portanto, o que deve dar o tom!

   


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