A Voz da Nossa História

Lucília Helena do Carmo Garcez conta como um bom programa governamental pode mudar a realidade

Cadastrado em 07/08/2017 13:17
Atualizado em 08/08/2017 18:35

Notícia por ABEU

A Voz da Nossa História

Muitos foram os fatos que contribuíram para viabilizar a criação da ABEU. E nós continuamos a coluna “A Voz da Nossa História” para justamente revelar como diversos personagens e profissionais foram responsáveis por lançar as bases da nossa Associação. Por isso, esta semana conversamos com Lucília Helena do Carmo Garcez. Mestre em Teoria da Literatura pela UnB e doutora em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Lucília é professora aposentada do Departamento de Linguística, Línguas Clássicas e Vernácula da Universidade de Brasília.

Autora de diversos livros, incluindo a biografia do autor inglês Lewis Carroll, sua atuação em prol da educação no Brasil foi também marcante: coordenou o Programa de Ensino a Distância semipresencial para formação continuada de professores em início de escolarização, em 2003. Elaborou o material didático de língua portuguesa do Programa PROJOVEM, da Presidência da República, e atualmente é consultora do CEBRASPE/CESPE para avaliação das redações do ENEM. Também foi assessora no Ministério da Educação durante a década de 1980, sendo responsável por aplicar o Programa de Estímulo ao Trabalho Intelectual nas Instituições de Ensino Superior (Proed), que deu fôlego para a integração e profissionalização das editoras universitárias, permitindo seu fortalecimento com a eventual criação da ABEU. Portanto, em nossa entrevista, Lucília Garcez mostra como “um programa governamental com boas ideias, mais que recursos financeiros, pode mudar a realidade”. Confira:

1) Quando foi assessora no Ministério da Cultura, você foi responsável pela aplicação do Programa de Estímulo ao Trabalho Intelectual nas Instituições de Ensino Superior (Proed). Qual era a proposta inicial desse programa? Em que contexto ele foi criado?

Ele foi uma ideia da Nubia David, que era coordenadora na SESU (Secretaria de Educação Superior). Foram convidados alguns professores de universidades federais para elaborar o projeto. A ideia inicial era proporcionar aos professores um canal de divulgação dos seus trabalhos acadêmicos e profissionalizar as gráficas universitárias, que eram subutilizadas e precárias, por meio de cursos para transformá-las em editoras, com conselhos editoriais que selecionariam as publicações e privilegiariam os trabalhos dos professores, disponibilizando-os, numa segunda etapa, para editoras comerciais. Um pequeno aporte financeiro foi inicialmente distribuído conforme um programa editorial elaborado pelas próprias instituições.

2) Ainda em relação ao Proed, originalmente havia a pretensão de contribuir com as editoras universitárias e promover o seu crescimento? Para você, qual o principal legado do programa para essas editoras e para a eventual viabilização da ABEU?

Apesar da limitação de recursos investidos, o programa foi tão bem sucedido que muitas editoras se profissionalizaram efetivamente. Deixaram de publicar sem critérios de qualidade e se esforçaram para promover a divulgação de seus professores. Passaram a ser mais visíveis e importantes no mercado acadêmico. A distribuição dos livros entre as próprias instituições de ensino superior foi outro ganho. O que prova que um programa governamental com boas ideias, mais que recursos financeiros, pode mudar a realidade. O surgimento da ABEU foi uma consequência natural da interação entre os diretores e funcionários das diversas editoras durante o desenvolvimento do programa e da qualificação técnica alcançada com os seminários, encontros e cursos de capacitação.  A troca de experiências foi importantíssima nessa fase inicial.

3) É fato que o mercado editorial, no Brasil, tanto comercial quanto universitário, se desenvolveu muito desde a década de 1980. Mas hoje outras demandas se apresentam e algumas antigas permanecem. Atualmente, algumas editoras universitárias ainda vivem sob o jugo dos reitorados das Instituições de Ensino Superior e ainda dependem de feiras e grandes eventos para distribuir seus livros, por exemplo. Você acredita que há outras formas de nos livrarmos dessas amarras que ainda persistem?

Naturalmente a influência dos dirigentes das universidades é inevitável. O fortalecimento e independência das editoras depende diretamente de sua produtividade. Editora forte não é abalada pela mudança nos níveis de poder da instituição universitária. A distribuição pode ser estimulada fortalecendo as articulações entre as diversas instituições. O que atinge as editoras universitárias são os mesmos obstáculos que atingem a produção editorial como um todo no Brasil. Os baixos níveis de leitura e a limitação no poder aquisitivo das pessoas são os maiores entraves.

4) Por fim, o que você espera para o futuro da ABEU?

Espero que a ABEU continue se fortalecendo para assegurar o espaço que conquistou em todos esses anos. Na década de 80 apenas duas ou três editoras universitárias tinham visibilidade. Hoje, muitas vezes o maior estande nas bienais e feiras é da ABEU. A qualidade dos livros é admirável e o público tem prestigiado adquirindo exemplares provenientes de várias regiões do país.

    


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