A Voz do Profissional

Em nossa conversa, o designer gráfico Josias Almeida Jr. fala das estratégias editoriais para a publicação de livros eletrônicos

Em 26/02/2018 17:20
Atualizado em 26/02/2018 18:32

Notícia por ABEU

A Voz do Profissional

O livro digital como principal ferramenta de difusão do conhecimento. É o que pensa Josias Almeida Jr., nosso entrevistado dessa semana na coluna A Voz do Profissional. Formado em desenho industrial pela Universidade Federal da Bahia, ele atua como designer na Edufba no setor de editoração, tendo se especializado na elaboração de livros eletrônicos.

Em uma editora universitária, a publicação de eBooks muitas vezes é a forma mais econômica e garantida de difundir o conhecimento produzido nas instituições que representam. Josias Almeida compartilha dessa ideia e nos ajuda a compreender que decisões editoriais estão envolvidas no momento de escolher se um livro deverá sair em formato impresso, digital ou ambos. Em uma conversa elucidativa, o designer mostra ainda como o lançamento de eBooks reflete uma série de outras decisões estratégicas por parte da editora, além de reforçar que o modelo eletrônico não irá liquidar o  livro impresso. 

1) O que leva um livro a ser publicado apenas em formato eletrônico? Praticidade para o leitor? Agilidade na confecção da publicação? Acessibilidade?

Creio que a verdadeira praticidade, que interessaria ao leitor, seria poder ler seu livro nos mais variados suportes e condições, de acordo com sua conveniência, e isso inclui, claro, o livro impresso. Dito isso, penso que quando se opta por lançar um livro, série ou coleção exclusivamente no formato digital, temos questões de outra ordem, que acabam pesando na decisão. Questões de política editorial, de custos, de viabilidade. Acessibilidade é um ponto importante quando vislumbramos os recursos de leitura em voz alta e audiodescrição que os dispositivos leitores podem proporcionar a pessoas com deficiência visual. Temos de avaliar se o livro em questão pode se tornar mais interessante com o uso de recursos multimídia. Se queremos aumentar o alcance imediato de nossas publicações, então a logística é um elemento crucial, pois riscamos dessa equação armazenamento e distribuição. Além, claro, do marketing positivo para qualquer editora, que é ser vista no mercado como uma empresa moderna, que está atenta às novas tecnologias e caminha ao lado delas, buscando trazer ao seu público uma experiência de leitura enriquecida.

2) Em relação à produção propriamente dita dos livros eletrônicos: quais as principais diferenças na elaboração da publicação em diferentes formatos, como PDF, ou epub? O que muda na confecção da obra?

No caso da Edufba, para o PDF, a rigor, não há mudanças. Porém, quando falamos do epub, com o qual resolvemos trabalhar por ser um formato aberto, em evolução constante e o mais difundido no mundo, tivemos de fazer alguns ajustes no nosso fluxo de produção. O ideal é definir de antemão se o livro sairá apenas na versão impressa, na digital ou em ambas. Certos parâmetros precisam ser respeitados na editoração e fazer esses ajustes durante o processo acarreta perda de tempo e pode resultar em erros que demandarão mais tempo para serem corrigidos (digital) ou mais custos (impresso). Com isso em mente, podemos trabalhar com um arquivo único na maior parte do tempo, dividindo-o em dois na finalização, onde um seguirá para a impressão e outro para a saída digital. O epub precisa ser finalizado em um programa à parte e passar por vários testes, inclusive em dispositivos de leitura, antes de ser liberado para distribuição.

3) As editoras universitárias têm uma missão de dar um retorno a sociedade, difundindo as produções acadêmicas e pesquisas realizadas nos mais diversos institutos. Diante disso, como você avalia a produção de livros digitais por essas editoras: eles deveriam ser comercializados ou apenas disponibilizados em acesso aberto para o público? E você acredita que o público leitor tem aderido aos livros digitais?

Acredito que sim, de forma geral, embora o mercado nacional tenha ainda um longo caminho a evoluir em relação aos Estados Unidos e Europa, onde os mercados já estão mais estabelecidos e onde o hábito de leitura é bastante enraizado na vida das pessoas. Isso facilitou em muito a aceitação de novas tecnologias e possibilidades de leitura para esses povos. Aí entramos em questões nacionais que vão além do mercado editorial, englobando educação, saúde, emprego, renda e até segurança. São questões maiores, que precisamos enfrentar como nação se queremos um futuro melhor pro nosso povo.

As vendas de eBooks no Brasil representam cerca de 1% do mercado editorial, de acordo com o Censo do Livro Digital, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, publicado no segundo semestre do ano passado. Num universo de 794 editoras pesquisadas, apenas 37% produzem e comercializam livros digitais. Ora, um segmento que ocupa 1% do mercado tem muito a crescer. As editoras ainda estão buscando modelos de negócio que possam incrementar suas vendas e, assim, serem estimuladas a lançar mais títulos de seus catálogos nesse formato e ainda investir em novos lançamentos. Penso que é um caminho natural, embora longo, como eu disse.

É preciso tirar da cabeça das pessoas a ideia de que o livro digital veio para acabar com o impresso. Isso não vai acontecer e nem creio que é essa a intenção. O livro digital veio para complementar o impresso, enriquecendo a experiência da leitura com os recursos tecnológicos que conquistamos através dos avanços da ciência moderna. 

Acho que as universitárias têm papel fundamental nesse cenário. Nos workshops e cursos de que participei nos últimos anos, vi pessoas bastante preocupadas com questões mercadológicas como, por exemplo, a melhor forma de comercializar eBooks, ou as melhores ferramentas para proteger suas publicações contra cópias indevidas e assegurar direitos. São questões pertinentes, porém, eu, por fazer parte de uma universitária, me sentia livre dessas amarras, numa posição até confortável, porque o objetivo primordial de uma editora universitária não é o lucro, mas, sim, como você disse, a difusão do conhecimento, através da publicação da sua produção científica e acadêmica. E que melhor ferramenta para auxiliar nesse fim do que um livro digital? A logística é um aspecto crucial no funcionamento de qualquer editora e tem peso ainda maior se estamos falando de uma universitária, que conta, em sua maioria, com recursos reduzidos. Então, se podemos baixar os custos de produção e também de transporte, postagem, armazenamento, distribuição, etc., economizamos preciosos valores que são reinvestidos em novas publicações. Colocamos nossos eBooks no ar e eles podem ser baixados de qualquer ponto do planeta. Basta uma conexão com a internet. Dessa forma, o livro vai até o leitor onde ele estiver.

Veja o caso da Edufba como exemplo. Uma parte significativa de nosso catálogo está disponível no Repositório da UFBA para download gratuito e, periodicamente, novos títulos são disponibilizados. Uma busca rápida nos retorna 436 entradas. Isso não resulta em impacto negativo nas vendas de impressos. Um dado interessante: temos uma coleção exclusiva no formato epub, com 27 títulos gratuitos lançados. Houve casos de livros que apresentaram uma procura tão grande que isso motivou a publicação da versão impressa. E ela vende. Isso mostra que um modelo não necessariamente canibaliza o outro.

Assim, penso que unindo essas duas formas de produzir livros as editoras universitárias terão muito mais condições de cumprir sua função principal, que é espalhar o conhecimento, sem fronteiras.


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