Voz do Autor – Entrevista com a Lidiane Santos de Lima Pinheiro

A Profª. Lidiane Pinheiro fala sobre o tratamento dado pelo jornal O Estado de S. Paulo sobre a Guerra de Canudos nos últimos anos do século XIX.

Em 29/03/2016 11:50

Entrevista por ABEU

Voz do Autor – Entrevista com a Lidiane Santos de Lima Pinheiro

Na coluna A Voz do Autor desta semana, trazemos uma entrevista que a Editora da UFBA realizou com um dos seus autores: a professora Lidiane Pinheiro. Seu mais recente livro, “A construção do acontecimento histórico: o discurso do Jornal O Estado de S. Paulo sobre a Guerra de Canudos e sobre as comemorações do seu centenário”, lançado pela Edufba durante o V Festival de Livros e Autores da UFBA, em dezembro do ano passado, foi o principal tema da conversa. A professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) aborda o tratamento que o jornal O Estado de S. Paulo conferiu à Guerra de Canudos, conflito ocorrido no norte da Bahia, nos últimos anos do século XIX. Confiram abaixo a entrevista completa.

1 - Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional e acadêmica. De onde surgiu o seu interesse pela Comunicação e pela análise do discurso jornalístico?

Meu interesse pela Comunicação Social, coincidentemente, surgiu junto com uma curiosidade sobre a Guerra de Canudos, justamente no ano do seu centenário (1997), quando prestei vestibular. No terceiro semestre do curso, larguei um estágio para adentrar na pesquisa acadêmica (Iniciação Científica). Estudávamos a representação da comunicação nas obras literárias sobre Canudos. Em 1999, pela primeira vez, pisei em Canudos, enquanto me deliciava com a leitura de Os sertões. Apaixonada pelo tema, não foi difícil defender uma monografia e uma dissertação de mestrado sobre a obra euclidiana e sua relação com as reportagens de Euclides da Cunha. Em 2004, com a pós-graduação concluída, comecei a lecionar em faculdades particulares e foi nas leituras para a preparação das aulas que me embrenhei na Análise dos discursos (AD). Quando passei no concurso para professora efetiva da UNEB, comecei a levar para a sala alguns conceitos básicos da AD e a sonhar com o meu projeto de doutorado nesta linha. Ao se aproximar o fim do meu período probatório, fui aluna ouvinte de uma disciplina do Mestrado em Estudos de Linguagem (UNEB) que focava na AD e, a partir daí, escrevi o projeto que submeti na seleção do Doutorado em Comunicação e Culturas Contemporâneas da UFBA. Orientada pelo prof. Giovandro M. Ferreira e com o acompanhamento do seu grupo de pesquisa em AD midiáticos (CEPAD-UFBA), defendi minha tese no ano de 2012. Para minhas pesquisas sobre a AD, foi também muito importante o período que passei estudando na França (doutorado sanduíche – bolsa CAPES). Meu livro, portanto, é fruto de todo esse percurso, iniciado antes mesmo da graduação, e de uma grande paixão pelo tema.

2 - Seu livro A construção do acontecimento histórico é um estudo de caso, quer dizer, a senhora realizou um estudo a partir de um recorte específico. O que te levou a escolher a escrever sobre a perspectiva do jornal O Estado de S. Paulo sobre a Guerra de Canudos?

O que me levou a escolher O Estado de S. Paulo foi o fato de ter sido este jornal o responsável pelo envio de Euclides da Cunha à guerra e por ele estar ainda em funcionamento nos dias de hoje – diferentemente de muitos outros jornais que enviaram correspondentes em 1897 e que atualmente não existem mais.

3 - Quais foram as diferenças mais notáveis que a senhora observou haver ao longo dos anos entre os discursos definidos pelo jornal sobre o tema?

A primeira coisa que me surpreendeu foi o silêncio do jornal durante quase um século. Depois de ter defendido arduamente a guerra por mais de um ano, o jornal só volta a falar dela (ainda que resumidamente) nos aniversários da morte de Euclides ou da publicação de Os sertões. Nos centenários (da fundação do arraial, do início e do fim da guerra etc.), porém, houve uma enxurrada de matérias no jornal sobre o tema. Aí o Antônio Conselheiro não era mais o gnóstico bronco que precisava ser destruído, mas, sim, um profeta bom e ajudador do povo sertanejo. A guerra passou a ser vista como uma injustiça, os sertanejos agora eram irmãos distantes e não mais inimigos, e assim por diante. Mas é interessante também observar o que não mudou, como a forma, distanciada e com estranhamentos, de tratar o sertanejo e o sertão; o jornal também fala do tempo dessa região como se fosse outro, mais lento do que o paulista, onde nada acontece e quase nada mudou.

4 - A senhora é professora de Comunicação Social/ Relações Públicas na Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e participa do Centro de Estudos e Pesquisa e Análise do Discurso (CEPAD) na UFBA. Frequentando essas diferentes instituições de ensino superior, como a senhora avalia a posição da mulher dentro do ambiente acadêmico nos dias de hoje?

A mulher tem invadido esses espaços. Claro que há cursos, como as engenharias, mais tomados por homens, mas nas Humanas e nas Ciências Sociais é muito comum encontrar salas cuja maioria é formada por mulheres. Nosso grupo de pesquisa e o quadro de professores de Comunicação da UNEB são outros dois exemplos de grupos com mais representantes femininas.

5 - Nos últimos anos o número de livros escritos por mulheres tem crescido. A senhora acredita que escritoras exercem, de alguma maneira, um papel social de afirmação de gênero? Mulheres autoras inspiram outras mulheres e provocam a sociedade em relação ao machismo?

Não saberia falar muito sobre isso, pois nunca pesquisei questões de gênero; mas acredito, sim, que a autoria feminina possa ser uma influência direta (quando esse é o tema; e muitos estudos têm enveredado por tal problemática) ou indireta (quando os leitores precisam corrigir-se, ao dizer “o autor…”, e logo em seguida, quase como uma surpresa, precisam admitir “aliás, a autora…”). Enfim, não saberia afirmar com precisão se as autoras inspiram outras mulheres e provocam a sociedade em relação ao machismo, mas espero sinceramente que sim.


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