Letras Vivas - ‘Asco’ por Eduardo Rosa

Em 09/05/2016 14:13
Atualizado em 09/05/2016 15:11

Notícia por ABEU

 Letras Vivas - ‘Asco’ por Eduardo Rosa

Tirar os sapatos. Deixá-los à porta. Desabotoar a camisa. Estendê-la na cadeira. Tirar do bolso a carteira. Tirar do bolso o celular. Colocá-los sobre a mesa. Despir as calças. Estirá-la na cadeira. Calçar as sandálias. Caminhar até o banheiro. Lavar as mãos. Uma, duas, até três vezes seguidas. Não tocar em nada. Entrar no chuveiro... E tudo estava bem.

Este é o ritual ao qual se submetia sempre que chegava em casa. Todo o processo deveria ser feito logo em frente à porta, antes mesmo de adentrar o primeiro cômodo. A rua não podia acompanhá-lo para dentro do lar. Uns chamariam de mania. Outros de esquisitice. Alguns de obsessão. Sua sorte é que ninguém conhecia sua peculiaridade.

Era uma necessidade. Imagine você: sair às sete da manhã, andar pela calçada, passar próximo ao lixo que se acumula ao redor dos postes, entrar num ônibus, segurar as hastes de ferro que se entrecruzam ao longo do veículo até chegar ao destino, e depois fazer todo o percurso de volta após quase dez horas sob os ares da cidade. Claro, esse era o percurso já definido, pré-determinado. Neste périplo diário comumente havia agravantes. Outro dia mesmo, no metrô, um senhor, rosto murcho, pontas dos dedos enegrecidas, levou a mão à boca e tossiu. Uma tosse gorgolejante, com secreção, um pigarro que umedece a parte interna das bochechas, que gruda na garganta e arranha. E aquela mão, aquela mesma mão que acabara de receber inúmeros perdigotos viscosos, voltava para se segurar nas barras de ferro do vagão. A cena aconteceu cerca de vinte passos de distância. Mas somente ver, contemplar, era pretexto para que imaginasse quantos não haviam cuspido, espirrado, babado, urinado, golfado, tocado em dinheiro antes de se segurarem naquelas hastes.

O período do trajeto era definitivamente o pior do dia. Muitos admiravam sua dedicação e pontualidade. Afinal, era um dos poucos que tinha verdadeira urgência de chegar ao trabalho. Só o que queria era correr até o banheiro, girar a torneira, sentir a água passar em suas palmas, ensaboá-las, esfregá-las com força, arrancar a superfície da epiderme com o atrito. Mas no escritório era mais comedido. As ameaças eram um tanto reduzidas. Já internalizara que não havia muito para onde fugir. Na verdade, o grande problema eram as pessoas. Sempre as pessoas. Lá fora, cá dentro, nunca se podia confiar. Onde suas mãos haviam passado? Que ar os envolvia? Todos vinham do exterior, mas poucos se importavam. De qualquer modo, um toque indesejado poderia ser facilmente resolvido com sucessivas idas ao banheiro. Média de lavada de mãos: trinta e seis. Ao menos isso era contornável.

Pois sim, as pessoas. Novamente elas. Era preciso sair para almoçar. Ir para além do seu hermético escritório mais uma vez. Onde estavam outros desconhecidos. E o pior: trabalhava no centro. Não que guardasse algum tipo de rancor do lugar. Mas a região concentrava, além dos demais anônimos, muitos mendigos e indigentes. Não leve a mal. Não tinha preconceitos. Mas aqueles pobres moribundos deveriam ser banidos dali. Sério, não o julgue. Pense bem: não viam um banho há meses. Arrastavam-se pela rua, o pretume das sarjetas se impregnava em sua pele, as feridas visíveis pelo corpo. Imagine aqueles cancros se despregando enquanto andavam, colando no chão cascões e pus. O mundo pisava onde estes escarravam, vomitavam, dormiam, levando marcado em suas solas aquele suco primordial. Primordial para uma epidemia. Todos os pisos, em qualquer lugar, estavam marcados pelas pegadas da imundície, carimbando o solo com o lodo que vinha das entranhas daquela multidão. Como se não bastasse, eles falavam e respiravam, lançavam no ar seu hálito abjeto, isso quando não fumavam aqueles parcos cigarros conseguidos como esmola. A fumaça vinha como uma onda que queria engolfá-lo. Era preciso estar sempre correndo para evitar os percalços que o ranço das ruas trazia. Ele não podia ser parte daquilo. Um elo entre a podridão. Entenda, por favor, respeite. Queria tão somente preservar a si próprio. Era uma questão de princípios, oras.

Àquela altura do dia já precisava ser purificado. Não devia tocar, não devia compartilhar espaços com mais ninguém. Queria a salvação do seu apartamento. Mas lógico, ainda era necessário fazer todo o caminho inverso. Ainda assim, logo que chegasse poderia se despir das camadas que o mundo lhe conferia. E então era só tirar os sapatos. Deixá-los à porta. Desabotoar a camisa. Estendê-la na cadeira. E o resto você já sabe.

A ducha esterilizadora, enfim, veio. Saiu do banho e colocou a pijama. Agora era só sentar ao computador. Ali estava mais uma vez para o seu momento. Era o instante em que orava para a limpeza do corpo entrar na alma. Era quando não havia mais como contaminar. Era quando se via refletido na tela. Era quando olhava aqueles jovens corpos nus que aparentavam não mais que treze anos.

Eduardo Rosa é jornalista e Assessor de Imprensa da ABEU.


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