A Voz da Nossa História — Entrevista com Leilah Santiago Bufrem

Leilah já foi Conselheira Fiscal da ABEU e ajudou a criar a Associação

Cadastrado em 20/03/2017 08:21
Atualizado em 20/03/2017 16:35

Notícia por ABEU

A Voz da Nossa História — Entrevista com Leilah Santiago Bufrem

Esta semana abrimos mais um capítulo da trajetória da ABEU na coluna especial A Voz da Nossa História. Para mostrar um pouco mais sobre como a Associação Brasileira das Editoras Universitárias se estabeleceu, conversamos com Leilah Santiago Bufrem, que esteve presente nos momentos cruciais de formação da ABEU e acabou por ocupar seu Conselho Fiscal nas duas primeiras gestões, nos biênios de 1987-1989 e 1989-1991. Com duas graduações, em Filosofia e Biblioteconomia e Documentação, Leilah sempre foi uma ávida pesquisadora do livro, sendo ainda Mestre em Educação e doutora em Ciências da Comunicação. É Membro do Conselho Assessor da Revista Brasileira de Biblioteconomia, da Revista Educação Temática Digital – ETD e da IRIS – Revista de Informação, Memória e Tecnologia. Coordenadora de vários grupos de pesquisa, é ainda avaliadora de instituições de educação superior e de cursos de graduação do Ministério de Educação. Exemplo de sua dedicação ao livro universitário, a obra “Editoras universitárias no Brasil: uma crítica para a reformulação da prática” é a única a trazer uma análise sobre a importância destas instituições. Na entrevista, Leilah fala sobre os Seminários das Editoras Universitárias, que fomentaram o início da ABEU, e a respeito do lugar do livro universitário no mercado editorial hoje. 

1) Professora Leilah, você fez parte do Conselho Fiscal das duas primeiras diretorias da ABEU. Quais foram os principais desafios, naquela época, para erguer uma associação voltada para as editoras universitárias, levando em conta que o país havia acabado de se redemocratizar e o Ensino Superior no Brasil se reconfigurava?

A ideia de criação da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU) foi lançada quando, em 1986, participei do III Seminário das Editoras Universitárias, realizado em Campinas. Nessa ocasião, como presidente da Comissão instituída para analisar a possibilidade de criação de uma editora na Universidade Federal do Paraná (UFPR), percebi a disposição dos jovens diretores das editoras universitárias, no sentido de criar uma associação que representasse os esforços para divulgar, aperfeiçoar e promover suas publicações. Foi um desafio, devido principalmente à dispersão regional dos grupos acadêmicos e à diversidade das editoras neste país de imensa extensão territorial. Em fase de consolidação de suas estruturas e de suas práticas, essas editoras compunham um cenário de contradições inerentes aos valores e ideologias presentes na conjuntura brasileira a partir do final da década de 1970. Por outro lado, a análise dessa conjuntura permite observar, no país, uma mobilização expressiva, iniciada com a organização de movimentos comunitários, manifestações e movimentos reivindicatórios, ganhando força a partir de 1980, no ABC e em outras cidades paulistas, que chegaram a reunir mais de 300 mil metalúrgicos em greve. O período de 1974 a 1988, caracterizado pelo início da redemocratização do país e pelo aumento da população em áreas urbanas, viveu essa conjuntura, marcada por processos de contestação da ditadura e de reação ao regime imposto que tinham como propósito a defesa dos valores do Estado democrático e se pautavam na crítica a toda forma de autoritarismo estatal. Com o fim do AI-5 e o movimento pelas Diretas Já, que reuniu milhões de pessoas nas ruas, os mecanismos de exceção foram sendo gradualmente extintos e a sociedade foi reencontrando espaços de participação multivariada, institucionalizada ou não, na vida política do país. Movimentos associativos e grupos de base, com os mais diferentes perfis e objetivos, foram se fortalecendo, proporcionalmente ao arrefecimento dos mecanismos de coerção de uma ditadura já com sinais de esgotamento. 

Dessa conjuntura favorável, foram caudatários também os movimentos editoriais acadêmicos e, ao assumir a direção da Editora da UFPR, quando da sua criação em 1987, continuei participando desse processo em prol de uma política de editoração nas instituições do Ensino Superior, cujos principais marcos foram a criação do Programa Interuniversitário para Distribuição do Livro (PIDL), o Projeto de Estímulo à Editoração do Trabalho Intelectual na Instituição de Ensino Superior (PROED) e o pioneiro Seminário Nacional das Editoras Universitárias (SNEU), em Niterói. A criação de conselhos editoriais e o estabelecimento de políticas pautadas por critérios e princípios democráticos eram um contraponto às experiências fortuitas anteriores, sujeitas a fortes críticas devido à ausência de linhas definidas ou de conselhos editoriais legitimadores de sua produção. Aos poucos, a situação foi se modificando e, como diretores de editoras, tentamos fortalecer esse movimento acadêmico, que fora iniciado com o I Seminário das Editoras Universitárias, realizado no Rio de Janeiro, cujo caráter reflexivo e crítico originou o repensar da prática e a criação de estruturas e projetos de alcance científico, pedagógico e cultural, tais como o já mencionado PIDL, programa que contribuía para a distribuição do livro entre as próprias universidades. Estilos e estratégias originavam-se e eram regidos por uma estrutura de relações que incluía agentes intelectuais, tais como instituições, projetos e obras, determinados pela própria dinâmica da qual participávamos, mas também determinantes para as transformações desejadas. Percebemos a oportunidade do intercâmbio de programas de publicações para aperfeiçoar as práticas editoriais e evitar duplicidades em projetos e pensamos na concretização do catálogo geral das editoras universitárias para iniciar a comunicação desejada. Os seminários nacionais das editoras universitárias continuaram, e sua quarta edição ocorreu em Goiânia, quando mais de quarenta editoras universitárias se reuniram, de 31 de agosto a 5 de setembro de 1987. Foi, então, criada a Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu) nesta ocasião, órgão sem fins lucrativos, com a proposta de congregar, além de editoras universitárias, todas as pessoas físicas e jurídicas ligadas à editoração universitária ou por ela interessadas. A Associação teve seu regimento aprovado e sua primeira diretoria eleita e empossada, tendo como Presidente Edison Rodrigues de Lima, da UFPE; Vice-Presidente, Maria do Carmo Guedes, da PUC-SP; Secretária Geral, Ceres Marques de Moraes, da UFF; 1ª secretária, Ligia Vassalo, da UFRJ; Tesoureiro, Péricles Antonio Fagundes Gonçalves, da URG, e 1º Tesoureiro, Mauro Rocha Pereira, da UFC. Tive o privilégio de fazer parte do Conselho Fiscal das duas primeiras diretorias da Abeu. Com a intenção de vincular a Associação às atividades de distribuição das obras, o PIDL passou a fazer parte da Abeu como uma das suas coordenadorias. Foram então instituídas subcoordenadorias para representarem as regiões Sul, Centro-Oeste, Norte, Nordeste, e Sudeste e na ocasião foi promovida a 1ª Feira Nacional das Editoras Universitárias, inaugurando-se uma nova prática para o aprimoramento do processo editorial universitário no Brasil, com lançamentos, exposição e venda da produção editorial. 

2) Sua atuação no setor editorial universitário sempre foi marcante, tendo sido diretora da Editora da Universidade Federal do Paraná e sendo autora do único livro de que se tem registro que trata das editoras universitárias diretamente. Então, para você, qual a importância das editoras universitárias para o setor livreiro no Brasil?

A prática editorial universitária apresenta aspectos peculiares que, conforme discuto na obra por você mencionada, “Editoras universitárias no Brasil: uma crítica para a reformulação da prática”, adquirem um valor específico no mercado dos bens simbólicos. Distinguindo-se entre as demais editoras no setor livreiro, as editoras universitárias caracterizam-se pela especificidade do seu trabalho, contribuindo para o que se denomina de “bibliodiversidade”, o que nos leva a argumentar favoravelmente à sua criação e à divulgação de sua produção para além dos muros da academia. A elas cabe divulgar o que se pesquisa e se inova nas instituições de Ensino Superior, mas também o que se deve preservar como contribuição à memória e à história local; as produções de valor universal, mas também aquelas relativas aos valores locais e regionais; os conteúdos significativos para a ciência e a tecnologia, mas também para as humanidades e as artes; a produção de autores consagrados, mas também aquelas obras de autores novos ou pesquisadores nem sempre reconhecidos ou consagrados a ponto de se tornarem atrativos para as empresas editoriais. Assim, graças à sua peculiar atuação, as editoras universitárias têm hoje lugar assegurado no competitivo mercado editorial brasileiro, contribuindo significativamente como divulgadoras de inovações, críticas e análises que problematizam conteúdos de interesse público ou social, como promotoras de estudos originais e traduções que dificilmente seriam publicados por editoras do mercado, assim como de obras complexas cujo esforço editorial e financeiro para sua publicação nem sempre permitem um retorno do investimento de modo rápido.

3) Ainda em relação a este cenário, como você avalia a participação da ABEU na divulgação da produção acadêmica universitária no Brasil?

A marca de distinção da Abeu é a especificidade do trabalho que congrega suas associadas, no caso as editoras universitárias, como consequência de uma participação mais ampla, não apenas no mundo do livro brasileiro e ibero-americano, mas em âmbito internacional, com a divulgação do que se investiga e produz nas universidades. Como consequência de suas ações concretas, estimuladas pelas discussões, ponderações e relatos de experiências, tanto em reuniões e seminários quanto em eventos e feiras que promove, a produção das editoras universitárias tem sido reconhecida e valorizada, inclusive em sistemas de avaliação e fomento no país, o que se discute em diversos âmbitos, tanto internamente, nos encontros que vêm sendo realizados, quanto em instituições que dela usufruem ou para ela colaboram. A possibilidade de reunir a produção editorial universitária em catálogo único, por exemplo, constituiu-se num marco histórico, cuja concepção talvez tenha sido de Barbosa Lima Sobrinho, em 1971, ao se referir aos sucessos das chamadas instituições “pioneiras” da editoração universitária, cujos esforços convergiriam, segundo ele, para a ideia da publicação de um catálogo. Esse ideal se concretizou com a publicação, em 1989, do primeiro catálogo das editoras universitárias brasileiras, organizado por Geraldo Huff, Salim Miguel e eu. Hoje, o Catálogo Abeu, com acesso on-line, apresenta as produções das editoras associadas no site pelo qual são acessadas as editoras e os seus respectivos catálogos. Outras realizações sucessivas da Abeu ampliaram a visão de conjunto dessa produção e, como associação, ela tem participado ativamente do mercado do livro, facilitando a atuação das editoras universitárias para além da instituição de onde se originam, promovendo-as e divulgando sua produção. 

4) Por fim, o que você espera para o futuro da ABEU? 

Espero que a continuidade e preservação de práticas em prol do desenvolvimento da cultura editorial universitária ocorram de modo intencional e ético, a fim de que se apresentem soluções, produtos e serviços adequados às necessidades dos associados, das instituições parceiras, dos leitores e da sociedade. Também torço para que a Abeu continue contribuindo para as políticas do livro e da leitura no Brasil, aperfeiçoando a edição de catálogos e índices da produção editorial e persistindo na divulgação de projetos e distribuição de livros, de modo a favorecer a presença das editoras no mercado e preservar seus princípios e re¬gras éticas. Isso tudo sem esquecer que esse processo evolutivo é fruto de um dinamismo que deve aliar a edição, concebida como ação cultural, à inserção nos domínios do mercado de leitores. Mesmo considerando que tudo isso tenha sido construído de modo consistente nesses 30 anos de existência, creio que a Abeu tem potencial para ampliar essa atuação, tanto do ponto de vista da extensão de suas práticas pela construção de uma estrutura para difundir o melhor conhe¬cimento universitário, tornando¬-o acessível a um número muito grande de leitores, quanto com o objetivo de intensificar a comunicação entre o que é produzido e a sociedade. Reconheço, entretanto, que a preocupação com o fator financeiro, dentro de uma ordem social excessivamente competitiva, tem-se traduzido em iniciativas e estratégias que definem um cenário no qual, adotando princípios éticos nas trocas, os editores universitários procuram a sobrevivência de seu campo de atuação.


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A Voz da Nossa História ABEU Nível de Informação Nível de Comunicação Leila Santiago Bufrem

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