Voz do Autor – Entrevista com o antropólogo Sérgio Carrara

Sérgio Carrara comenta sua participação na edição de Meu Encontro com os Outros

Em 09/05/2016 14:11

Entrevista por ABEU

Voz do Autor – Entrevista com o antropólogo Sérgio Carrara

Para a coluna A Voz do Autor desta semana, pegamos emprestada uma entrevista que a Editora Fiocruz realizou com o antropólogo Sérgio Carrara. Ele contribuiu na edição de “Meu Encontro com os Outros”, que faz parte da coleção História e Saúde, selo Clássicos e Fontes, e que é uma autobiografia do autoproclamado sexólogo e andrologista José de Albuquerque. A publicação é fruto de encontros: Pedro, filho de Albuquerque, encontrou os originais da autobiografia após a morte do pai e, depois de muito tempo, resolveu então buscar referências sobre ele na internet. Foi então que encontrou um estudo sobre a Campanha de Educação Sexual de José de Albuquerque realizado pelo antropólogo Sérgio Carrara. Abaixo você confere a conversa com Carrara sobre o processo de confecção do livro.

1. Na condição de pesquisador, como descreveria a surpresa do encontro com Pedro de Albuquerque, que lhe apresentou a autobiografia do pai?

Meu encontro com o dr. Pedro foi surpreendente em vários sentidos, alguns bastante pessoais. Quando, na década de 1990, desenvolvi meu trabalho sobre a ‘luta antivenérea’ no Brasil, tomei conhecimento, através do acervo da Biblioteca Nacional, das campanhas de José de Albuquerque em prol da educação sexual e da institucionalização da andrologia. Poderíamos dizer, nos termos atuais, que ele foi um incansável e corajoso ativista, dadas as brigas que ‘comprava’ no desenvolvimento de suas ações. Nunca imaginaria, 20 anos depois de ter feito minhas pesquisas sobre ele, encontrar-me com seu filho, Pedro, que guardava relíquias impressionantes sobre a atuação do pai, como as Memórias ou as partituras originais do Hino à Educação Sexual e da Ode ao Sexo. Minha surpresa aumentou muito mais quando descobri que a minha história pessoal se enredava de modo quase inacreditável com a história do próprio José de Albuquerque. Na primeira conversa que tive com dr. Pedro, soube que sua mãe, esposa de José de Albuquerque, a paulista Antonieta Morábito, vinha a ser tia-avó de um grande amigo meu dos tempos da faculdade, cursada entre 1979 e 1982 na Unicamp. Fiquei sabendo que Antonieta Morábito era irmã do avô desse meu amigo e que tal avô, por sua vez, havia se casado com a única irmã de José de Albuquerque. Ou seja, meu amigo dos tempos da faculdade era, ele mesmo, por parte de sua avó paterna, um Albuquerque...

2. Por que uma clínica andrológica nunca chegou a ser legitimada e consolidada?

Hoje em dia, como Marcos Carvalho e eu apontamos na apresentação do livro, a andrologia aparece como especialidade da urologia. Configuração bastante diferente daquela proposta por Albuquerque, que a via, juntamente com a ginecologia, como especialidade da sexologia. Como ele argumentava, então, o ‘sistema reprodutivo’ masculino apenas se situava corporalmente próximo do ‘sistema urinário’ e, dadas sua especificidade e importância, merecia ser objeto de um campo de estudos separado. Obviamente que a institucionalização da andrologia nos quadros de uma sexologia entrava em choque com convenções de gênero poderosas, segundo as quais os homens não têm ‘problemas sexuais’. Por muito tempo tais problemas foram considerados vergonhosos por colocarem em questão a potência masculina, atributo definidor da própria masculinidade. Dito de outro modo, procurar um urologista não levantava suspeitas sobre a potência sexual dos homens e, portanto, sobre sua masculinidade. Se algum médico resolvesse abrir uma clínica publicamente voltada a homens com problemas sexuais, não teria muitos clientes... É claro que tais convenções de gênero estão há algumas décadas em profunda transformação e tal transformação tem permitido que a saúde e a sexualidade dos homens entrem em debate, do mesmo modo que a saúde e a sexualidade das mulheres. Disso tratamos um pouco na apresentação das Memórias.

3. Como as ideias de José de Albuquerque conseguiram espaço em meios de divulgação popular, como rádios e jornais?

Essa é uma questão interessante e deve ser compreendida à luz do clima intelectual do período de entreguerras, momento em que também a psicanálise começa a se difundir entre nós mais amplamente, como estudado pela antropóloga Jane Russo. É realmente fabuloso imaginar que nossos avós e bisavós puderam um dia se reunir no Theatro Municipal do Rio de Janeiro para ouvir a execução da Ode ao Sexo ou do Hino à Educação Sexual. Ou que, ainda escolares, tenham visitado o Museu do Círculo Brasileiro de Educação Sexual. Ao que parece, dentro do projeto mais amplo de modernização das sociedades ocidentais, que se consolida nos anos 1930, a questão da sexualidade passa mais explicitamente a frequentar os espaços públicos, seja em nome de um projeto de liberação individual, o que seria aprofundado com a eclosão da contracultura, nos anos 1960, seja em nome da preservação da raça e da nação, através de políticas higienistas e eugênicas. Essa questão parecia ser particularmente importante no Brasil, cuja sociedade era vista por muitos como vítima de um ardor sexual particularmente problemático. Lembremos que a sexualidade no Brasil ou a sexualidade dos brasileiros é um dos grandes temas de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, obra publicada bem no início da década de 1930.

Para conferir outras perguntas da entrevista, acesse: http://goo.gl/6d4zq0.


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