A Voz do Autor

André Lemos, autor da Edufba, comenta sobre os temas ligados à cibercultura e à sociedade da informação propostos pelo seriado Black Mirror

Em 12/08/2018 13:29

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Esta semana, trouxemos para a coluna A Voz do Autor uma entrevista que a Edufba realizou com o professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, André Lemos. O autor é engenheiro mecânico formado pela UFBA, mestre em Política de Ciência e Tecnologia pela COPPE/UFRJ e doutor em Sociologia pela Université René Descartes, Paris V, Sorbonne. Foi Visiting Scholar nas Universidades McGill e Alberta, ambas no Canadá com bolsa de pós-doutorado pelo CNPq e é membro fundador da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCIBER). 

Com uma formação multidisciplinar, Lemos discute na entrevista seu livro mais recente, muito ligado aos temas da cibercultura, principal foco de suas pesquisas. A obra, intitulada “Isso (não) é muito Black Mirror”, trata do seriado de ficção científica de sucesso, trazendo uma análise episódio a episódio dos temas propostos pelo programa, enquanto desconstrói a imagem de que ele trata de tópicos ligados ao nosso futuro. Na entrevista o autor fala sobre seu livro e as discussões suscitadas por ele. Abaixo você confere algumas perguntas, enquanto a entrevista completa pode ser encontrada no site da Edufba.

Como surgiu o interesse pela série Black Mirror? Do que se trata?

Black Mirror é um sucesso de audiência mundial e trata justamente de uma sociedade na qual as tecnologias de informação e comunicação têm um papel determinante no destino das personagens. Em discussões em sala de aula, ou na rua, todos falam da série e da sua visão distopica de futuro. Em um curso de comunicação, nada mais natural do que investigar um produto cultural. No meu caso, o interesse é evidente pois BM permite discutir, através da crítica cultural, o tema central da minha disciplina: sou professor titular de comunicação e tecnologia. Assim, ofereci uma primeira disciplina optativa sobre a série em 2017.1 e estou repetindo a oferta agora em 2018.1

No livro, você defende que ao contrário do que se tem como consenso, Black Mirror não fala sobre o futuro, mas sobre passado. Poderia explicar?

Justamente por comparar essas duas dimensões – o futuro apresentado na série e o nosso presente, percebi que embora a série aponte para tecnologias ainda inexistentes, a forma de abordagem da cultura tecnológica ainda está presa ao imaginário e ao arcabouço crítico-teórico do século XX. Muito da série é problematizado a partir de uma crítica da sociedade de massa e da cultura do espetáculo, ou de uma sociedade de vigilância movida pelo audiovisual. Embora pareça falar do futuro, Black Mirror fala da cultura do século XX com tecnologias futurísticas, seduzindo a audiência. É uma ótima série. Isso não é uma crítica ao produto. Gosto e recomendo. Mas os nossos problemas, colocados pelas tecnologias de comunicação e informação hoje, são muito mais agudos dos que os apontados pela série nas suas quatro temporadas.

O que lhe preocupa em relação à tecnologia na atualidade?

A série trata de problemas atuais, mas com roupagem velha. As questões são as mesmas (memória, vigilância, relações sociais, corpo, mente, poder, morte…). Mas essas questões hoje estão revestidas de uma performatividade algorítmica e de agencias extremas de objetos digitais que a série não consegue alcançar (com exceção de alguns episódios). Assim sendo, argumento no livro que o jargão utilizado nas ruas para dizer que estamos quase em um futuro, como o apontado por Black Mirror (“isso é muito Black Mirror”) é uma ilusão de ótica. Nossa sociedade do presente “não é muito Black Mirror”, não porque essa realidade ainda vai chegar, mas justamente por ela já ter ido além. Os desafios e problemas que as TIC nos apresentam hoje são bem maiores dos que os que a série consegue vislumbrar.


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