A Voz do Autor

Antônio Hohlfeldt, autor da EdiPUCRS, fala de como a arte e a literatura se contrapõem ao autoritarismo

Cadastrado em 10/09/2018 00:34
Atualizado em 10/09/2018 00:38

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Ambientes totalitários influenciam a arte? Esta parece uma conclusão óbvia, uma vez que toda manifestação artística é fruto do seu espaço e do seu tempo. Mas nosso entrevistado dessa semana na coluna A Voz do Autor, Antônio Carlos Hohlfeldt, tenta ir além nessa reflexão. Graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e doutor em Letras pela mesma instituição, Hohlfeldt contribuiu mais recentemente para o livro “Utopia, resistência, perda do centro: a literatura brasileira de 1960 a 1990”, de Giovanni Ricciardi, publicado pela EdiPUCRS.

Durante dezessete anos, Hohlfeldt foi jornalista do Correio do Povo, e integrou a equipe do Diário do Sul, sempre na área de jornalismo cultural. Ainda na área cultural foi assessor da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre (1972), assessor da Secretaria de Estado da Cultura, Desporto e Turismo do Rio Grande do Sul (1978-1981) e assessor de imprensa da Fundação Sinfônica de Porto Alegre e do Instituto Goethe (1976). Em 2007, foi eleito patrono da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Em nossa entrevista, o autor busca traçar paralelos entre a obra para a qual acabou de colaborar e o momento político atual do Brasil, em que exposições são censuradas e há um crescimento preocupante do reacionarismo no país.

Como alguém que sempre atuou como jornalista cultural, além de ter ocupado cargos de importância em instituições que promovem as artes e ainda levando em conta o teor do último livro com sua colaboração, "Utopia, resistência, perda do centro", que lida com a literatura produzida no Brasil como reflexo da ditadura militar, como você avalia o crescente reacionarismo no país, em que exposições são censuradas e artistas são repreendidos por suas posições políticas? Para você, o que motivaria essas reações?

 
Na verdade, este processo não está ocorrendo apenas no Brasil, mas sim em toda a América Latina e, de certo modo, no mundo. Reflexo de frustrações pelo muito que esperamos dos chamados “novos tempos”? Talvez.  No nosso caso, a frustração é bem clara: saídos da ditadura, elegemos um presidente cassado. Depois, elegemos um presidente acusado de roubalheiras. E elegemos uma presidente também cassada. Agora, temos um candidato de extrema direita e outros que não alcançam a mínima credibilidade ou confiança do eleitorado. Onde está o novo? Pior, o novo tem se mostrado incompetente. O que fazer? Esta é a pergunta para a qual ainda não se tem resposta. Eu vivi todo este período, sei que estamos num momento de passagem, mas para um jovem, isso tudo é decepcionante. Acho que o livro do Ricciardi também ajuda nisto. Mostrar claramente o que foi a ditadura, para a gente não ter tanto jovem querendo votar no Bolsonaro ou anular o voto.

Falando mais especificamente de "Utopia, resistência, perda de centro", ao analisarmos a seleção de textos e entrevistas para a obra, é possível produzir um retrato da literatura brasileira produzida como reação a um regime de exceção. É possível dizer que o autoritarismo aguça a criatividade e produção dos escritores? Você acredita que a arte é mais provocativa diante em períodos políticos conturbados?

Tenho medo de dizer que o autoritarismo aguça criatividade, porque senão é capaz de ter alguém dizendo que então uma ditadura faz bem para as artes. Mas, de certo modo, ao termos nossa liberdade tolhida, apelamos à arte para nos expressar. Quando temos liberdade, parece que ficamos mais preocupados em viver, apenas. E, claro, o surgimento da internet e das redes sociais atingiu fortemente toda esta produção. A arte talvez apareça mais nestes momentos porque a ditadura é provocadora, e a gente tende a reagir, então, as pessoas mais sensíveis acabam se expressando mais claramente e criativamente.

Por fim, como você avalia a transição do teor da produção literária brasileira deste período da ditadura e pós-ditadura para o momento atual? Naquele momento havia uma preocupação mais social nos temas propostos pelos autores, enquanto agora vivemos uma literatura mais voltada para analisar a posição do indivíduo no mundo? Existe de fato essa distinção entre antes e agora?


Sim, há um estudo que mostra que boa parte dos jovens escritores estão olhado muito pro seu umbigo, falando de si mesmos, etc. Isso é ruim ou é bom? Não dá para dizer agora, porque estamos em cima de todo o processo. Vamos poder dizer algo daqui a uma década. Mas é certo que a literatura e a arte mudaram muito. É menos social, sim, salvo raras exceções. Mas cuidado: nos anos 1960-1970 alguns escritores mais engajados, como o João Antonio, diziam o mesmo. Que os escritores estavam muito voltados para si mesmos. No fundo, há que ter espaço para tudo, sem qualquer controle, tipo realismo socialista, que deu no que deu.

  


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