A Voz do Autor

Entrevista com Marisa Folgato e Alessandro Jacinto, autores de "Alzheimer: a doença e seus cuidados", ganhador do 1º lugar na categoria Ciências da Vida no Prêmio ABEU 2018

Em 14/05/2019 09:26

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

A coluna A Voz do Autor retorna esta semana resgatando mais uma entrevista com ganhadores do Prêmio ABEU 2018, que ocorreu em novembro do ano passado. Agora, tivemos uma conversa dupla, com Marisa Folgato e Alessandro Ferrari Jacinto, responsáveis pelo livro “Alzheimer, a doença e seus cuidados”, publicado pela Editora Unesp. A obra recebeu o 1º lugar na categoria Ciências da Vida.

Os dois autores usaram seus conhecimentos de áreas divergentes e experiências complementares para poder compor o título, que ajuda cuidadores e familiares de portadores da doença de Alzheimer a dar amparo aos pacientes. Marisa Folgato é jornalista e cuidou durante oito anos da mãe, Antonieta, que teve Alzheimer. Com 33 anos de experiência profissional, trabalhou vinte anos como repórter no jornal O Estado S. Paulo e editou o caderno do Curso Intensivo de Jornalismo do mesmo periódico. Já Alessandro Jacinto é graduado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, fez residência médica em Geriatria e Gerontologia na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, doutorado no Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado no Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Na entrevista, elas esclarecem os avanços no tratamento da doença e mostram como é possível cuidar dos pacientes portadores de Alzheimer.

O Alzheimer é uma daquelas doenças, como o câncer, que todos temem o diagnóstico, devido ao fato de ser uma patologia ainda sem cura. O livro pretende desmistificar certos receios desses pacientes e dos familiares que eventualmente deverão cuidar deles? O que se buscou com sua publicação? Que tipo de conteúdo o leitor pode encontrar?

 

Marisa Folgato – A doença de Alzheimer não tem cura. Ainda. Portanto, não adianta fazer de conta que ela não existe, negar que seu parente ou amigo está doente. Por mais que doa, é preciso lutar, trabalhar, e muito, para que esse período tão difícil seja também de empenho em dar à vida daquela pessoa a melhor qualidade possível. Sem esquecer do apoio àquele que cuida. Então, nosso livro – “Alzheimer, a Doença e Seus Cuidados” – ajuda a entender cada etapa da doença e aponta como agir. Traz as informações técnicas e vai além, ao dividir com o leitor as experiências de outras famílias, dos mais diferentes níveis sociais, causando uma empatia benéfica. Foram entrevistadas 17 pessoas de 15 famílias (todos os nomes foram preservados) e esse material resultou num livro cheio de histórias, às vezes dolorosas, mas que serão muito úteis. Nos fiamos à linha “você não está sozinho, muita gente está passando por isso”.

 

São 15 capítulos que abordam temas como o histórico da doença de Alzheimer, como reconhecer os sintomas, qual é o tratamento, qual o melhor especialista procurar, como devem ser os cuidados em casa, como escolher o cuidador ou a casa de repouso, a organização e decoração para tornar a casa segura, a alimentação, o dormir ou não, as questões jurídicas envolvidas, o idoso que cuida do idoso, e mais, até quando chega o fim. Muitas pessoas se identificam e encontram alguma luz. Trazemos ainda uma lista de filmes, sites e livros sobre o tema bem interessante e, de novo, útil.

 

Alessandro Jacinto – Como muito bem detalhado pela Marisa, a ideia do livro foi fazer com que os cuidadores de quem é acometido pelo Alzheimer fossem, além de orientados quanto aos cuidados, levados a não se sentirem sós nessa jornada tão dura. 

 

Temos dois autores com formações distintas e com contatos convergentes com o Alzheimer: um médico e uma jornalista; um geriatra e uma filha de mãe portadora da doença. Como as experiências dos dois se complementaram para compor o livro? Como ocorreu essa autoria colaborativa?

 

MF – Foi uma parceria de grande sintonia. Cada um contribuiu na sua especialidade, com respeito e muita troca. O dr. Alessandro entrou com seu vasto conhecimento técnico, mas com um viés bastante humano, afetivo também. E eu com meus 34 anos de jornalismo, 20 deles como repórter do Estadão, com a expertise de gostar de ouvir e contar histórias, aliados à experiência da filha que cuidou da mãe. Como aceitar que, aquela pessoa ativa, inteligente, alegre, participativa, líder da família toda, está se perdendo? Foi uma luta constante para mim, assim como é para cada uma das famílias entrevistadas. E nós tivemos muito cuidado para aliar nossas experiências profissionais e extrair o melhor para compartilhar com os leitores.

 

AJ – Houve sintonia total! Como geriatra que fui da mãe da Marisa, não haveria como essa sintonia não acontecer. Acho que ambos contribuíram de formas distintas e absolutamente complementares. O resultado foi bom. Eu fiquei muito satisfeito. Eu não queria colocar no mercado mais um livro técnico. 

 

O Alzheimer representa 65% dos cerca de 47,5 milhões de casos de demência no mundo e afeta 13% das pessoas com mais de 65 anos e 45% da população acima de 85 anos. Mesmo diante desses dados, podemos dizer que a ciência tem encontrado avanços no trato da doença, nos últimos anos?

 

MF – Sem dúvida. Os medicamentos disponíveis no mercado são relativamente recentes. Não há cura, mas eles ajudam a retardar o avanço da doença. E constantemente aparecem experimentos com novas drogas, cirurgias, exames, opções de intervenções não invasivas que apontam resultados positivos, mas que ainda demandam muitos estudos. As esperanças são muitas e a torcida é grande para que a cura seja alcançada e fique acessível a todos. No livro, por orientação do dr. Alessandro, informamos apenas o que estava disponível e com resultados comprovados.

 

AJ – É claro que o ideal seria estarmos mais próximos à cura. Não estamos! O avanço da ciência não deve ser somente atrelado à questão farmacológica. Os fármacos ajudam, mas o tratamento não farmacológico ajuda ainda mais. Há ciência envolvida neste tratamento não farmacológico.

 

Por fim, gostaríamos de saber qual a importância de ganhar o Prêmio ABEU, que se dedica exclusivamente a livros universitários e acadêmicos.

 

MF – Foi uma honra essa premiação. É um reconhecimento da contribuição do nosso livro para a informação acessível sobre essa doença complexa e terrível que é o Alzheimer. Um mal que atinge milhões de pessoas, afeta o doente, a família, o cuidador, e que vai se tornando mais evidente a cada ano com o envelhecimento da população. 

AJ – Foi mais do que um honra! Foi uma alegria absoluta! Foi um dos momentos mais importantes e felizes da minha carreira! 

 


Tags da postagem

A voz do autor alzheimer entrevista medicina Nível de Informação Nível de Comunicação geriatria