A Voz do Profissional

Carla Luzzatto, artista gráfica da Editora UFRGS, conta sobre as decisões de um designer ao conceber o projeto de um livro

Cadastrado em 09/07/2018 23:28

Entrevista por ABEU

A Voz do Profissional

Como um livro pode ser confeccionado em função do leitor? É o que tenta explicar Carla Luzzatto, a entrevistada dessa semana na coluna “A Voz do Profissional”. Seu conhecimento como designer no mercado editorial é vasto e propício para entendermos a evolução do design gráfico dos livros das editoras universitárias. Graduada em Artes Plásticas com habilitação em Desenho pela UFRGS, Luzzatto possui ainda um MBA em Gestão de Projetos e três prêmios Açorianos de Literatura, sendo dois em “planejamento gráfico” e um em “capa”. Além disso, atua como artista gráfica da Editora UFRGS há 32 anos.

Na entrevista, Carla avalia as decisões que devem ser tomadas pelo artista gráfico ao conceber o projeto de um livro e dá dicas para os designers que querem se enveredar neste ramo.

Em sua trajetória como artista gráfica, como você avalia a evolução do design nos livros das editoras universitárias, levando em conta o fato de trabalhar ao lado da Editora UFRGS, que já chegou, inclusive, a ser premiada pelo projeto gráfico de suas publicações? Você acredita que as editoras têm conseguido mudar a perspectiva comum de que seus livros não têm o mesmo apuro estético daqueles das editoras de apelo comercial?

Na década de 1980 as editoras universitárias careciam dos recursos necessários para fazer frente às editoras comerciais, ao passo que aquelas também estavam passando por um processo de atualização dos conceitos de design aplicado ao livro. A concepção tradicional do livro como objeto estanque dava lugar à ideia do livro como objeto de consumo e, portanto, de atenção por parte do design.

Relevante contextualizar, as editoras universitárias não têm o mesmo propósito de lucro das editoras privadas. Para uma editora universitária, o foco principal é a difusão do conhecimento construído dentro do ambiente acadêmico, de modo que se faz mais significativo publicar a obra do que tratar esteticamente seu invólucro.

Na medida em que processos de produção se tornaram mais acessíveis ao longo das décadas subsequentes, preocupações outras passaram a envolver o livro além da publicação da obra: que fosse também visualmente interessante, apresentando acabamentos atraentes e de qualidade, e ainda guardasse a identidade característica de cada instituição.

Atualmente as publicações das editoras universitárias têm tanto apelo comercial quanto aquelas das editoras privadas.

Para você, qual a principal função do projeto gráfico de um livro? Uma publicação deve apenas ser esteticamente bela, ou deve oferecer ao leitor um outro tipo de experiência além da leitura?

A expressão “a forma segue a função” (Louis Sullivan), relacionada à estética da Bauhaus, é especialmente verdadeira com relação ao livro, por isso a legibilidade é o foco da publicação. O propósito do projeto gráfico não é especificamente a beleza – conceito que por si só é subjetivo –, mas a adequação ao conteúdo. Transmitir através da forma esse conteúdo deve ser a intenção do designer gráfico.

Através da escolha da tipologia, espaçamentos, tratamentos gráficos que sinalizem hierarquias e marquem ritmos, pela utilização de elementos gráficos pertinentes, o designer busca criar um espaço de leitura que deve acontecer como uma experiência fluida, sem sobressaltos ou obstáculos, que permitam ao leitor o foco necessário para compreensão da obra.

No caso do livro acadêmico, menos é mais. Toda interferência deve atender ao apelo da obra, de sua significação e tradução, evitando excessos. Compreender o trajeto que a obra percorre até o leitor, desde a revisão do texto até a disposição à venda, faz parte do conhecimento do designer que busca, então, através dos recursos de que dispõe, não apenas facilitar o acesso ao conteúdo, mas transformá-lo em uma experiência agradável e envolvente.

Que dicas e conselhos você daria para profissionais do design que aspiram trabalhar no mercado editorial?

É preciso ter em mente que, no caso do livro, o cliente é o leitor e é a esse leitor que o trabalho é dirigido. Portanto se faz necessário colocar-se no lugar do leitor, disponibilizar-se à experiência do livro que, com relação ao livro físico, vai além da leitura. Abrir o livro e folhear as páginas, perceber textura e peso, observar ritmo e espaço, envolver-se na atmosfera gerada pelo contato com o objeto e, por meio dessa vivência, identificar os elementos que podem contribuir com a leitura.
Importante também entender que todo objeto produzido interfere no ambiente, seja na sua origem, produção ou descarte. Dessa forma, o designer é responsável pelo impacto ambiental de sua criação devendo, portanto, estar atento aos aspectos relativos à sustentabilidade. Suportes, tinta, processos de produção, são conhecimentos que devem fazer parte das escolhas de um designer.
         


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