A Voz do Profissional

Andrea Ciacchi, diretor da EDUNILA, fala do caráter plurilíngue de uma editora que visa a publicação de obras de diversos países da América Latina e sobre os desafios da distribuição de livros no continente

Em 20/08/2018 00:11

Entrevista por ABEU

A Voz do Profissional

Andrea Ciacchi tem a responsabilidade de gerir uma editora plurilíngue e com aspirações internacionalistas. Diretor da Editora da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), ele busca meios de tornar possíveis os principais objetivos da instituição de difundir o conhecimento produzido em variados países da América Latina.  Formado em Antropologia na Universidade de Roma "La Sapienza", com mestrado em Letras na UFPB, doutorado em Estudos Ibéricos na Universidade de Bolonha e pós-doutorado no Departamento de Antropologia da UNICAMP, Ciacchi ainda mantém uma carreira como professor, com passagens pela UFPB, UFPA e na própria UNILA.

Na entrevista, ele comenta sobre os desafios de uma editora universitária iniciante, que ainda busca uma forma de distribuir da melhor maneira seus livros, e sobre o potencial latinoamericanista da EDUNILA. 


A Edunila está inserida em uma instituição que preza, como expressado em seu nome, pela integração do conhecimento produzido nos países latino-americanos. De que modo a editora contribui para trazer o que é produzido em diferentes países para o seu público leitor? A editora publica tanto em português como em espanhol?

Este é o primeiro desafio da nossa editora. Um desafio da mesma ordem do que estamos enfrentando desde que a UNILA foi criada, em 2010. A nossa universidade, por exemplo, é perfeitamente bilíngue: cada uma das pessoas que aqui está (fora eu, acho...) fala e escreve a nossa língua materna, em sala de aula, nos trabalhos das disciplinas, nos TCCs e nas dissertações de mestrado – além, é claro, nos vários aspectos da sociabilidade do dia a dia. Temos algumas situações particulares, como os estudantes haitianos, que falam entre si kreyòl, ou estudantes de outros países da América "latina" que falam línguas originárias, como guarani, quechua, aymara etc. Na editora, precisamos não só compreender isso, mas, sobretudo, fazer com que isso seja compreendido por quem está à nossa volta: pareceristas, conselho editorial, mercado, público. Ainda este ano publicaremos pelo menos duas obras em espanhol ou escritas partes em espanhol e partes em português. E acabamos de planejar, entre as nossas novas coleções, pelo menos duas que poderemos publicar em línguas não coloniais. Já estamos em busca de pareceristas que dominem esses outros idiomas. O segundo desafio está ligado à necessidade de sermos mais conhecidos fora do Brasil, para atrairmos propostas de autoras e autores que não sejam necessariamente residentes no nosso país. Há duas dimensões, para nós, pelas quais é impossível sermos uma editora "endógena": não publicar apenas obras produzidas pela nossa comunidade nem livros escritos apenas por pessoas que escrevem em português, no Brasil. Finalmente, acho que precisamos estar atentos às linhas temáticas dos nossos livros. É claro que não publicamos apenas obras que tenham a "América Latina" como "assunto". Mas é necessário que todos compreendamos, digamos assim, onde começa e onde termina essa América "latina". Os dilemas da região não se abordam apenas a partir das ciências sociais, mas, também, em todas as áreas do conhecimento – inclusive a arte, a literatura, a estética. Ou, por que não, nas e pelas ciências da vida e da natureza, engenharias etc.

Recentemente, em maio, a editora reuniu seu Conselho Editorial para determinar diretrizes de atuação em diversas frentes. Quais, então, são os principais pontos do Plano de Ação estabelecido para o biênio 2018-2019 e da Política Editorial da Edunila? O que a editora buscou com isso?

A EDUNILA, pelos motivos que acabei de expor – mas não só por eles – precisava ter uma definição explícita da sua política editorial para que, interna e externamente, fosse explicitada a nossa "diversidade". Por isso, o Conselho Editorial (do qual participam pessoas de cinco nacionalidades diferentes, pertencentes a cinco instituições de Ensino Superior da América Latina) aprovou um texto que se apoia em quatro eixos principais: a integração latino-americana, a abrangência temática e disciplinar, o plurilinguismo e a democracia. Creio que caberia falar um pouco deste último, tendo já feito alguns comentários sobre os três primeiros. Entendemos a democracia como princípio norteador da política, mas, também, como exigência que se faz às obras a serem publicadas. A UNILA é um produto histórico, com todas as consequências (positivas e negativas) disso. Como se sabe, ela não foi criada para ser apenas mais uma universidade pública brasileira. O seu fôlego latino-americanista e caribeanista, na mesma linha, não é apenas de natureza geográfica. A partir dessa realidade, a UNILA tem tido, desde a sua criação, um compromisso com as instâncias democráticas e progressistas da região, cabendo-lhe, por coincidência também histórica, atuar em anos de crise e de dilemas políticos, econômicos e sociais de imenso e ainda incerto alcance. Da mesma forma, a Editora da UNILA também é um produto histórico, no sentido de que a sua atuação não se respalda em princípios abstratos e atemporais, mas, pelo contrário, lida e lidará com as dialéticas determinações da realidade. Essa realidade, nos seus mais diversos aspectos – ao mesmo tempo distintos e articulados em planos como o social, o econômico, o político, o jurídico, o étnico, o de gênero, o cultural, o artístico – é o pano de fundo para essa exigência democrática na atuação da Editora. Mesmo em áreas (e, portanto, em obras) mais técnicas, é fácil distinguir e verificar a presença do pressuposto democrático.



Para finalizar, gostaria que falasse um pouco quais os principais desafios que você encontra na gestão de uma editora universitária, ainda mais de uma que lida com pesquisas realizadas também fora do Brasil.

Eu já tinha uma pequena experiência, como editor, mas muito distante, no tempo e no espaço: na Itália, no começo dos anos 1990. Confesso que me sinto muito mais feliz agora, num âmbito público, numa editora de uma universidade pública. Mas isso, é claro, comporta vários "problemas". Estamos, juntos com o setor administrativo da nossa equipe, buscando conhecer e nos inspirar nas experiências exitosas de outras editoras universitária para contornarmos a questão mais grave: as dificuldades para distribuirmos e comercializarmos os nossos livros. A UNILA ainda não tem uma fundação de apoio. Temos CNPJ, mas ainda não conseguimos registro na Receita Estadual e, portanto, não podemos emitir nota fiscal. Também, por outro lado, o nosso catálogo é ainda reduzido, de forma que até participar de feiras (mesmo com apoio da ABEU) é complicado. Mas contamos terminar este ano de 2018 com um aumento de livros impressos publicados e um bom encaminhamento das questões administrativas. Uma outra questão relevante é, claro, de natureza orçamentária. Os recursos para os serviços de impressão vêm sendo garantidos, mas temos uma grande dificuldade para custear traduções. Em alguns casos, apesar de tudo o que dissemos, elas são necessárias. Não é raro, por exemplo, encontrarmos textos escritos por intelectuais latino-americanos que escreveram nas línguas dos países onde estiveram exilados, no século XX (francês ou inglês). Mas, para isso, tentamos coedições e colaborações com outras editoras universitárias. Vale lembrar, também, que a atual administração superior da UNILA tem dado todo apoio ao nosso trabalho, mas, mesmo assim (e imaginando que o nosso Reitor leia esta entrevista), ficaríamos muito felizes se pudesse receber a notícia de novas aquisições para aumentar o tamanho da nossa equipe, sobretudo a que está diretamente ligada aos processos de produção editorial. O panorama nacional, infelizmente, não nos deixa muito otimistas. Finalmente, creio que se possa dizer que, no médio prazo, os desafios da EDUNILA (sobretudo os que se relacionam à nossa "internacionalização) determinarão um círculo virtuoso, que deverá permitir um rápido crescimento da editora. Um crescimento, como dizem por aí, "sustentado", que, no meu entendimento, significa ousado, ambicioso e atrevido. Não cabe a mim fazer previsões, então digamos que é apenas um palpite: em até cinco anos teremos a EDUNILA como uma editora reconhecida e procurada (por autores e leitores) em toda a América Latina.
      


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