A Voz do Profissional

Entrevista com Carla Fernanda Fontana, capista de "Romantismo Tropical", ganhador do Prêmio ABEU 2018 na categoria "Capa"

Cadastrado em 20/01/2019 20:09
Atualizado em 21/01/2019 14:51

Entrevista por ABEU

A Voz do Profissional

Esta semana estamos dando continuidade à nossa série de entrevistas com os ganhadores do Prêmio ABEU 2018, agora na coluna A Voz do Profissional. Dessa vez conversamos com Carla Fernanda Fontana, que venceu a categoria Capa, com o livro “Romantismo tropical: um pintor francês no Brasil”, publicado pela Edusp. Graduada em Comunicação Social com Habilitação em Editoração pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Carla é ainda mestre em Literatura Brasileira pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e doutoranda em Design pela mesma universidade. Atualmente é editora-assistente da Edusp.

Na entrevista, ela expõe seu ponto de vista sobre o processo criativo por traz da concepção da capa de um livro e comenta sobre os fatores que podem influenciar na confecção da capa, como o assunto do livro, as sugestões do autor, a disponibilidade de imagens relacionadas ao tema da obra, entre outros. Além disso, Carla avalia ainda o atual apuro técnico das editoras brasileiras para a confecção de projetos gráficos mais arrojados.

1) Ao compor a capa de um livro, onde você busca inspirações e como foi o processo criativo específico para criar a capa de "Romantismo tropical˜?

O projeto da capa vem do próprio conteúdo da obra, no sentido de que o layout da capa é pensado para, de alguma maneira, representar ou traduzir aquele conteúdo, apresentando-o graficamente para o leitor. Mas há vários caminhos para se tentar chegar a isso. Quando o livro tem imagens, como é o caso do "Romantismo Tropical", que trata da obra de um pintor, o início do processo pode ser mais simples, pois se trata de selecionar a imagem que sirva melhor ao propósito mencionado. Mas uma imagem pode ser utilizada, trabalhada e/ou transformada de inúmeras formas até se tornar uma capa, e o resultado final depende em grande parte do trabalho de design que é feito a partir dela. Em outras palavras, uma mesma imagem pode resultar em inúmeras e diferentes capas. Então dispor de imagens no miolo do livro é apenas um ponto de partida. E, como não são todos os livros que reproduzem imagens, é importante também saber "se virar" na ausência delas. No meu caso, como na maior parte das vezes projeto capas para os livros dos quais também acompanhei o processo de edição desde o início, quando chega a hora da capa já tenho uma boa ideia do que é o conteúdo para que eu possa partir dele. No "Romantismo Tropical", a imagem da capa, que é muito divertida, além de visualmente impactante, foi selecionada por ilustrar as agruras do pintor em suas viagens pelo Brasil. A textura da imagem, com as linhas da gravura, no entanto, dificultava o posicionamento dos elementos textuais de modo que ficassem legíveis e por isso optei pela inserção de uma cor no fundo e pela utilização do verniz high print no texto, assim o título e o nome da autora "saltam" da imagem, sem a necessidade de se colocar um "box" por baixo do texto, o que esconderia parte da gravura.

2) Você estabelece uma relação com o autor para que o seu desejo e ideias estejam transmitidos na capa? Como se dá esse processo?

O ideal é que todos fiquem satisfeitos no final: o autor, que de alguma maneira precisa se reconhecer na própria obra; o capista, que, idealmente, não precisa abrir mão daquilo que considera uma boa solução gráfica para a capa; os livreiros, que precisam expor o livro nas prateleiras, físicas ou virtuais; e os leitores, cuja atenção precisa ser captada pela capa. Mas o processo se dá de muitas formas diferentes. O autor pode ter uma ideia que talvez não seja exequível, e aí compete ao capista ouvir e, se for o caso, justificar o fato de não acatar as sugestões. Ou o autor pode ter boas ideias ou sugestões com as quais o capista consegue trabalhar, ou não ter ideia nenhuma e deixar o capista totalmente livre para fazer aquilo que ache adequado. Todas as situações são possíveis e podem resultar em capas boas ou ruins.

3) Muitas editoras universitárias sofreram, por anos, com a falta de profissionais que se dedicassem exclusivamente à capa e projeto gráfico dos livros. Anteriormente, apenas as editoras do Sudeste ofereciam maior apuro estético em seus produtos. Como você avalia as capas criadas hoje pelas editoras universitárias? É perceptível uma evolução e diferentes influências no trabalho de outros designers?

Acredito que no mercado editorial brasileiro ainda há uma disparidade muito grande de qualidade gráfico-visual. Mas isso não é exclusividade das editoras universitárias, e o mesmo ocorre nas editoras comerciais. Vejo capas que considero interessantes sendo publicadas por editoras universitárias de diferentes portes e regiões, mas o contrário também acontece. Com todas as dificuldades enfrentadas pelas editoras universitárias para editar e distribuir suas obras, às vezes a parte gráfica pode ficar um pouco de lado, mas o que talvez nem todas as editoras tenham se dado conta ainda é que uma capa visualmente interessante não necessariamente custa mais caro, e mesmo com poucos recursos (gráficos e orçamentários) é possível fazer ótimas capas, pois o mais importante é que o projeto aproveite bem os recursos disponíveis: uma capa impressa em duas ou mesmo em uma cor sobre um cartão simples pode ser "melhor" que uma capa que utilize recursos mais sofisticados e caros. Acredito que a qualidade do projeto é sempre mais importante que o valor gasto. E, para quem está projetando capas – e também encomendando e aprovando –, é imprescindível olhar o que está nas livrarias atualmente, mas também o que foi feito antes, e muito antes. Só assim é possível ter parâmetros para se avaliar a qualidade do próprio trabalho e do catálogo da editora, de forma mais geral.

 

4) Por fim, gostaríamos de saber qual a importância de ganhar o Prêmio ABEU, que também prestigia o trabalho dos designers que produzem livros universitários.

É uma satisfação ter ganhado o prêmio. A maior parte do trabalho realizado por nós nas editoras é anônimo e muitas vezes invisível, então o prêmio é um reconhecimento muito bem-vindo. Eu, como nunca consegui decidir o que preferia fazer, acabei fazendo sempre um pouco de tudo e, entre as tarefas que desempenho na Edusp, fazer capas é uma das favoritas, então é bom saber que pelo menos estou fazendo isso razoavelmente bem.

 


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