A Voz do Profissional

Entrevista com Gustavo Piqueira, designer de "A Erótica Japonesa na Pintura & na Escrita...", ganhador do Prêmio ABEU 2018 na categoria "Projeto Gráfico"

Em 17/03/2019 17:03

Entrevista por ABEU

A Voz do Profissional

Após a pausa do Carnaval, a coluna A Voz do Profissional está de volta, trazendo mais uma entrevista com um ganhador do Prêmio ABEU 2018. Esta semana conversamos com Gustavo Piqueira, designer proprietário do estúdio Casa Rex, que venceu a categoria “Projeto Gráfico” pelo livro “A Erótica Japonesa na Pintura & na Escritura dos Séculos XVII a XIX”, da Editora da USP. Com uma vasta experiência, Piqueira já recebeu mais de 460 prêmios internacionais de design gráfico. Sua versatilidade também permitiu que expandisse sua atuação para além do design de livros, apresentando um currículo permeado por ilustrações, objetos, tipografias e culminando nos 20 livros de sua autoria já publicados, todos marcados pela livre mistura entre design, história, arte e literatura.

Na entrevista, Piqueira dá sua opinião sobre o atual estado de apuro técnico das editoras universitárias na concepção de projetos gráficos e fala a respeito de como transmitir a ideia do autor em termos visuais. 

Quais os principais desafios na concepção do projeto gráfico de um livro de arte, principalmente um tão robusto como "A erótica japonesa na pintura e na escritura..."? Ao lidar com tantas gravuras e ilustrações, o que deve ser levando em conta para que o projeto fique harmônico?

O projeto gráfico de um livro com vasto material iconográfico — caso de "A erótica japonesa na pintura e na escritura..." — deve, sem sombra de dúvida, definir sua estrutura a partir de um olhar sobre esse conjunto de imagens. E, por “estrutura”, entendo tanto a estrutura material do livro — o formato, por exemplo, é fruto quase imediato das características do material visual — quanto a estrutura mais subjetiva, o “espírito geral” que deve ajudar as gravuras e ilustrações a se destacarem, a “contarem suas histórias”. Creio ser esse um cuidado fundamental: evitar a adição de novos elementos visuais que, exagerados ou mal colocados, possam vir a prejudicar a visualização do material iconográfico original. 


Que influências você busca no momento da concepção do projeto gráfico de um livro? Como ocorreu o processo criativo de "A erótica japonesa..." e o contato com a autora, que, neste caso, é também uma estudiosa das artes, ao contrário de outros escritores que muitas vezes não têm um olhar mais apurado para a estética? Como se dá essa relação para transmitir no livro a visão do autor?

A meu ver o conteúdo do livro — verbal e visual — já traz implícita a visão do autor. Mais do que isso: não a visão que o autor quis transmitir, mas a que de fato transmitiu (ao menos a mim como leitor). Logo, o livro em si já é um apontamento suficiente para as direções a serem tomadas sempre que executo um projeto gráfico. Claro, ouvir o autor sempre é saudável, principalmente quando ele tem claro algum ponto que gostaria de ressaltar (ou evitar) em termos de concepção gráfica da obra.

Você é familiarizado com o trabalho de design gráfico realizado dentro das editoras universitárias? Acredita que estas se atualizaram na confecção dos seus livros, buscando referências mais de acordo com o que é feito no mercado editorial mainstream? E, nesse sentido, que formas designers encontram para criar um produto visualmente palatável quando se trata de um conteúdo muitas vezes "duro", acadêmico e voltado para um nicho?

Creio ser difícil uma resposta que englobe todas as editoras universitárias. Há casos e casos — enquanto algumas têm produzido livros com grande qualidade gráfica, outras ainda imprimem volumes que mais se assemelham a apostilas. Penso, no entanto, que não seja o caso de adotar um design mais “mainstream” ou “palatável”. Para mim, é muito mais questão de qualidade mesmo, de capricho. De valorizar a experiência de leitura. O apuro gráfico — projeto, materiais e impressão — serve para isso: é bem melhor ler uma mancha de texto bem diagramada num papel agradável aos sentidos do que um xerox num papel sulfite. “Caprichar no design” não é sinônimo de “fetichizar o objeto” ou encarecer o produto final. Essa visão é um grande equívoco. (E capricho independe do tipo de conteúdo. Vale para livros acadêmicos, populares, clássicos, infanto-juvenis…)

Por fim, gostaríamos de saber qual a importância de ganhar o Prêmio ABEU, que também prestigia o trabalho dos designers que produzem livros universitários?

É sempre bom ganhar prêmios, são uma bela forma de reconhecimento do nosso trabalho.
   


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