A Voz do Profissional

Entrevista com Mariana Silveira Bueno, coordenadora da pesquisa “Produção e vendas do setor editorial brasileiro”

Cadastrado em 27/05/2019 14:34

Entrevista por ABEU

A Voz do Profissional

Esta semana damos continuidade à série de entrevistas com os palestrantes do 2º Seminário Brasileiro de Edição Universitária e Acadêmica, na coluna A Voz do Profissional. Desta vez, conversamos com Mariana Silveira Bueno, economista que coordena a pesquisa “Produção e vendas do setor editorial brasileiro”, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) em parceria com a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL). Durante o Seminário, ocorrido em Porto Alegre até o dia 17 de maio, Mariana participou da mesa "Publicação acadêmica e científica em um cenário mundial de crise".

Graduada em Economia pela PUC-SP, possui MBA em Inteligência Estratégica, Competitiva e Econômica pela FIPE-USP. Participou ainda da pesquisa “How big is global publishing?” em parceria com Rüdiger Wischenbart e publicada pela BookMap. Há dois anos conduziu a execução do Censo do Livro Digital e nos últimos anos vem se dedicando a estudar o desempenho do mercado editorial brasileiro e de outros países. Na entrevista, Mariana fala justamente dos resultados mostrados na última pesquisa "Produção e vendas no setor editorial brasileiro", trazendo alguns diagnósticos para a atual crise no setor, que passa pela falência do modelo de negócios das duas maiores livrarias do país e pelo decréscimo nas vendas acarretado pela recessão econômica no Brasil.

Como é de conhecimento geral, o mercado editorial brasileiro tem passado por profundas mudanças no seu modelo de negócio. Os problemas com as livrarias têm afetado até mesmo gráficas e comprometido a distribuição de livros. Como responsável pela pesquisa "Produção e vendas no setor editorial brasileiro", quais as principais questões que agravaram esse cenário?

O mercado fez uma aposta quando procurou ganhos de escala com a redução média do preço do livro. O número de exemplares vendidos subiu mas esse aumento não foi suficiente para que a indústria crescesse em termos reais.

O modelo megastore de livraria tem muita dificuldade para se sustentar, tanto aqui quanto em outros países. Os dispositivos móveis passam a ocupar lugar central na vida das pessoas, fazendo com que os livros percam espaço e o livro digital, apesar de apresentar crescimento, não parece ser suficiente para recuperar essa perda. Obviamente a crise econômica é também um fator determinante. Lembrando que foco da pesquisa FIPE é a indústria do livro e não o varejo.

Você arriscaria apontar alguns caminhos para minimizar os danos ou para redirecionar uma retomada no crescimento do setor? Embora saibamos que o agravamento da crise no nosso mercado editorial também tem fortes vínculos com o quadro de recessão econômica do país nos últimos anos, que possibilidades você enxerga?

É importante dizer que o mercado editorial vem se retraindo no mundo todo. A difusão dos dispositivos móveis e os diversos serviços de streaming são apontados como fatores preponderantes para que isso ocorra. Outra informação importante é que o mercado brasileiro não acompanhou os anos de crescimento econômico. Se compararmos a evolução do PIB e a evolução do mercado durante esse período, observaremos duas curvas bem distintas, ou seja, o país cresceu, mas o mercado editorial não. Nesse sentido, a crise econômica e a crise envolvendo as duas maiores redes de livrarias aprofundam um problema que já existia. Portanto, não vejo uma retomada no curto prazo, o que não significa que seja o fim do mercado editorial. O mercado do livro não acabou, nem dá sinais de que irá acabar, mas é um mercado que vem sofrendo mudanças profundas. Sob o ponto de vista micro, qualquer retomada passará obrigatoriamente por uma profunda adaptação de todos os agentes desse mercado (editoras, gráficas, livrarias, etc). Sob o ponto de vista macro, é muito difícil pensar numa retomada sem levar em consideração o debate sobre a precificação do livro, um cenário de crescimento econômico e políticas públicas de acesso ao livro e incentivo à leitura.

Diante desse cenário, como você avalia os reflexos para as publicações acadêmicas e científicas? Por atenderem a um público de nicho, acredita que as editoras universitárias enfrentam desafios maiores para superar as limitações?

As editoras de CTP foram as que mais sentiram o impacto da crise econômica, um encolhimento de 31% entre 2014 e 2017. É um subsetor que depende fundamentalmente do número de alunos nas universidades. Os cortes em programas do governo, como PROUNI, FIES e cortes em programas de incentivo à pesquisa são apontados como elementos determinantes para a redução desse mercado. Alunos que eram atendidos por esses programas passaram a não ter condição de se manter nas universidades e parte daqueles que conseguiram permanecer acabaram arrumando meios alternativos para obter a bibliografia necessária. Ouso dizer que aqui há um problema de demanda. A demanda por esse tipo de livro caiu drasticamente nos últimos anos. Dito isso, não acho que os desafios são maiores, acho que são diferentes. O mercado de Obras Gerais, por exemplo, encolheu 32% entre 2006 e 2014, anos pré-crise econômica. É um mercado que também enfrenta grandes desafios, porém diferentes. 


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