07/04/2009 - Entrevista com Aníbal Bragança
O professor Aníbal Bragança atua na área de História e Teoria da Comunicação, na Universidade Federal Fluminense, mais especificamente no campo voltado para os estudos das relações entre a formação cultural letrada e suas relações com as culturais orais e midiáticas, em seus contextos sociotécnicos específicos. Seu nome está também diretamente associado ao importante evento "II Seminário Brasileiro Livro e História Editorial - II LIHED", a ser realizado entre 11 e 15 de maio, no Rio de Janeiro e em Niterói.
"Meu foco principal de interesse é o estudo histórico das práticas culturais letradas no Brasil e, nesse contexto, a história do livro, da leitura e da indústria editorial. Para isso tenho contado com o apoio do CNPq", afirma Aníbal Bragança. "Este II Seminário Lihed pretende firmar uma tradição de encontros acadêmicos e também promover maior aproximação com os profissionais que atuam na área, buscando inclusive conscientizar o "mercado" da dimensão cultural de suas atividades na sociedade brasileira e também da necessidade da preservação da documentação das editoras e livrarias para a construção da memória editorial e da história da vida literária brasileiras", considera o professor da UFF.
Acompanhe, a seguir, a entrevista que Aníbal Bragança concedeu ao Portal da ABEU. Outras informações sobre o II LIHED podem ser obtidas em www.uff.br/lihed, pelo e-mail seminario.lihed@gmail.com e tel. (21) 2629.2783.
Como está estruturado o II Lihed?
O II Lihed irá acontecer nos dias 11 a 15 de maio de 2009, na Fundação Biblioteca Nacional, na Academia Brasileira de Letras (ambas no Rio de Janeiro) e na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Está dividido em três partes: a primeira é um colóquio "Diálogo Brasil-França: Livros e Leituras, teorias e práticas", no qual 6 pesquisadores franceses e 6 brasileiros apresentarão o "estado atual da arte" nos dois países, com focos e enfoques particulares, visando maior conhecimento recíproco.
Este encontro é resultado das relações institucionais entre a UFF e a Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines – UVSQ e insere-se no calendário oficial das atividades do Ano da França no Brasil. A segunda parte é o Colóquio Internacional "Arquivos, memória editorial e história da vida literária", que pretende confrontar experiências desenvolvidas da França, na América Latina (especialmente o Brasil) e Portugal, visando dar maior relevo à preservação dos arquivos editoriais e literários. A terceira parte será propriamente o II Lihed, com a participação de cerca de três centenas de pesquisadores brasileiros, desde os mais experientes e consagrados – com destaque para os que contribuíram para a obra Impresso no Brasil – 200 anos de livros brasileiros, que organizei com Márcia Abreu (da Unicamp) e que será coeditada pela Edunesp com a Fundação Biblioteca Nacional – até jovens pesquisadores que fazem da área um campo para sua iniciação científica. E que contará também com a participação, como conferencistas, dos pesquisadores estrangeiros presentes nos colóquios anteriores, que chamamos de Pré-Seminário.
O II Lihed é um evento que envolve muitas pessoas e instituições de grande tradição de serviços prestados à cultura letrada no país, como a FBN e a ABL, e só assim se tornou possível. Além disso conta com o apoio da Faperj, Capes, CNPq e patrocínio do Programa Petrobras Cultural, através da Lei Rouanet, e das editoras Edusp, Edunesp e Senac Nacional, além de várias parcerias da UFF com outras universidades, como a Usp, Uerj e UFMG, além da UVSQ.
O senhor admite que o ambiente do livro e da leitura, no Brasil, é amplamente desconhecido pela população em geral?
Desgraçadamente a maior parte da população está excluída do acesso direto aos bens simbólicos da cultura letrada, especialmente pela concentração de renda e exclusão social que caracterizam historicamente a sociedade brasileira, acrescida - na intensidade de seus efeitos - pelas deficiências e insuficiências do sistema público de ensino, que, apenas como exceção, consegue formar leitores. Por outro lado, as classes mais favorecidas são, muitas vezes, atraídas pelo fascínio das novas tecnologias de informação e comunicação e não têm mais tempo e interesse para cultivar as práticas da cultura letrada, especialmente a leitura de livros. Este é um processo complexo de transformações na configuração cultural moderna para um viés chamado de pós-moderno, que vem ocorrendo de forma mais intensa de meados do século XX para cá.
De que modo uma iniciativa com o Lihed pode ajudar a reverter o quadro mencionado acima?
A maior contribuição que o Lihed pode oferecer é, usando metáforas usadas por Marshall McLuhan, por um lado facilitar nosso salto para fora do aquário em que estamos mergulhados para ver a realidade com olhos críticos e percucientes, visando mais conscientemente preparamos socialmente nosso futuro, e por outro lado deixarmos de olhar esse futuro pelo retrovisor, presos ao passado. É necessário ter consciência das transformações nas práticas culturais decorrentes das transformações sociotécnicas para construir, em parceria com os novos e maravilhosos recursos da ciência contemporânea, um mundo mais justo, fraterno, solidário, multicultural, tolerante com as diferenças, e um país onde o acervo de bens materiais e simbólicos seja enriquecido e seu acesso seja democratizado, inclusivo, e para isso o fortalecimento de instituições públicas e privadas, como editoras, livrarias, bibliotecas, escolas, universidades e centros de pesquisa é fundamental. Embora não baste, pode ajudar muito para mudar o quadro atual para outros níveis, quer em amplitude quer em profundidade no âmbito da cultura letrada no país.
Qual sua expectativa em relação a esta 2ª edição?
Temos grandes expectativas. Uma é que consigamos fortalecer o campo de estudos do livro, da leitura e da história editorial, criando uma tradição de encontros e trocas entre os pesquisadores nacionais e estrangeiros, além de favorecer o despertar de vocações em jovens pesquisadores. Outra é aproximar os pesquisadores acadêmicos e os profissionais do mercado, o que só pode enriquecer a ambos os campos, mas de forma especial na compreensão da dimensão cultural da atividade de editores e livreiros e da importância de sua documentação para a construção da história do país. Outra, ainda, é oferecer à sociedade que financia nossas atividades os produtos de nossas pesquisas, visando criar novas possibilidades de compreensão da cultura contemporânea e assim contribuir para que as políticas públicas e privadas na área da cultura sejam mais eficazes e especialmente sejam voltadas para o bem comum.
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