ABEU Reflete de 15 de abril de 2020 - Jézio Hernani Bomfim Gutierre

ABEU Reflete desta semana traz mais um olhar sobre os momentos de incerteza em que vivemos diante da pandemia de coronavírus. Retornar a este assunto é inevitável, afinal, a atual crise ocupa as preocupações de qualquer um em todos os setores da economia. Por isso, trouxemos agora um texto de Jézio Hernani Bomfim Gutierre, diretor-presidente da Fundação Editora Unesp e diretor de difusão editorial da ABEU, que fala justamente de como os desafios são ainda maiores para um mercado que já vive constantemente em dificuldades, como é o editorial. Confira:

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Falando de cisnes negros

 

Bons tempos aqueles em que podíamos reclamar da crise brasileira, da crise estrutural da indústria editorial, da crise da universidade, da crise do livro como bem cultural. Isso sem contar as lágrimas derramadas, justificáveis e sempre presentes, sobre os males endêmicos: o analfabetismo funcional no Brasil e os pífios índices de leitura no país. Bons tempos... É nesse meio que surge a epidemia do coronavírus e que se instala o aparente Armagedon editorial e a nostalgia pelo caos anterior.

Jared Shurin, em texto recentemente publicado em The Bookseller [“Black swans and pink flamingos”], um dos periódicos mais tradicionais do setor, usa o conceito de “cisne negro”, que atribui ao ensaísta Nassin Taleb, para designar fatos inesperados, “desconhecidos não sabidos” [“unknown unknowns“], mas fundamentais para o curso dos eventos. Para Taleb, “cisnes negros” são tão imprevisíveis quanto frequentes na história e têm efeito amplo e definidor onde ocorrem. De acordo com Shurin, a epidemia atual teria justamente esse papel sobre a dinâmica futura do mundo editorial.

Difícil não concordar com Shurin sobre o impacto extensivo e duradouro da pandemia, atestado ubiquamente por alguns elementos que nos dão imagem segura (ao menos nisso...) da destruição do atual mercado do livro. De um lado, as grandes exposições livreiras nacionais e internacionais (e.g., Feira de Bolonha, Feira de Guadalajara) estão canceladas ou correm risco crescente disso. De outro, todos os canais regulares de venda física, em todo o mundo, foram profundamente atingidos, impondo eliminação muitas vezes definitiva de livreiros e distribuidores – e, por extensão, editoras. Isso nos faz ver que mesmo após (e se) vencermos a tragédia sanitária, não se deve esperar o ressurgimento do mesmo mundo em que as editoras sobreviventes costumavam atuar.

O “cisne negro” que se abateu sobre nós subtrai um dos elementos essenciais de que normalmente necessitaríamos para dar conta de toda a constelação de problemas tradicionais do setor: tempo. Quaisquer das crises citadas acima demandam processos normalmente complexos, envolvendo adaptação de legislação ou de metodologia empresarial. Todos os resultados de médio e longo prazos demandam agora respostas emergenciais que imediatamente preservem as editoras e canais de disseminação livreira. Tudo é urgente.

O mundo tem dado exemplos cada vez mais numerosos de reação rápida e com efeitos provavelmente permanentes. Em todos os lugares, a brutal intensificação de uso dos meios de comunicação digitais preservou parcela significativa da operação administrativa das editoras, bem como abriu possibilidades inexploradas na prática de negociação de direitos e divulgação de lançamentos. Emblemático é o caso da Feira de Bolonha que, a rigor, só foi fisicamente cancelada, adquirindo a forma de “feira digital”, caminho seguido por outras iniciativas semelhantes. E, no âmbito mais específico da comercialização de varejo, como seria de se esperar, o livro digital e a presença das livrarias on-line adquiriram impulso novo e certamente duradouro.

Editores e livreiros permanecem buscando incessantemente os meios que lhes permitam continuar desempenhando seu papel. No entanto, a superação desse desafio sem precedentes demanda esforço adicional e medidas emergenciais que ultrapassam a alçada das editoras. É nesse sentido que, no Brasil, a sociedade civil e o governo devem finalmente expor o nível de seu apreço pelo livro. Para além da retórica simpática, o presumido valor cultural do livro para a sociedade e, no caso da edição universitária, o valor real do livro para a academia devem ser coroados com medidas objetivas que assegurem a continuidade da edição livreira e a diversidade da produção e distribuição de conteúdos. Modelos de financiamento e subvenção setoriais devem ser imediatamente instaurados e bases orçamentárias estáveis devem ser garantidas para isso.

Editoras universitárias evidenciam há muito tempo seu relevo para a dinâmica do mundo acadêmico, relevo distraidamente admitido pelos administradores das universidades brasileiras. Agora chegamos a um ponto crítico em que os órgãos de fomento e as universidades, mesmo nesse momento de crise do ensino superior, devem ir além do discurso e, com ações, dar lastro ao reconhecimento (e custeio) devido à atividade editorial. É, por assim dizer, a hora em que “a onça bebe água” na relação entre editoras e a academia. Quem sabe, o cisne negro seja afinal responsável por desentocar aquela onça e nos leve a definições muito esperadas nessa relação.

Jézio Hernani Bomfim Gutierre

Diretor-presidente da Fundação Editora Unesp

Diretor de difusão editorial da ABEU