ABEU Reflete de 17 de junho de 2020 - Percival Tirapeli

As consequências da pandemia da Covid-19 continuam a gerar ponderações e conjecturas em todos os setores. Na coluna ABEU Reflete desta semana, Percival Tirapeli, curador e professor de História da Arte na Unesp, desloca o debate para a realidade das artes plásticas, buscando entender como as experiências de museus e exposições podem ser reinventadas para um contexto de distanciamento social. 

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Arte e Isolamento

Entusiasmado por estar em um projeto de implantação de um museu de arte sacra e literalmente em meio a mil e uma obras, jamais imaginaria que a pandemia nos rondava. Foram anos de espera pela abertura desse museu na museológica Minas Gerais. A programação de seis meses de palestras com convidados internacionais parou ali mesmo, no aeroporto de Belo Horizonte, e quando cheguei a Congonhas no dia 13 de março já havia quem usasse as máscaras. Até quando? A interrupção de qualquer projeto foi seguida de como aliviar a frustração, em especial daqueles artistas plásticos que sequer puderam inaugurar suas exposições. Contratos, patrocínios, montagens, cronogramas a serem cumpridos, impressão de catálogos e o tempo, talvez anos de preparo – para tudo ficar na escuridão.

As exposições de artes plásticas têm vida breve. Quinze dias, no máximo três semanas, e segue o ritual do monta e desmonta, empacota, e as paredes ficam imaculadas para o próximo artista a exibir-se. Requer público. Os vernissages são congratulações. Fica o catálogo, referencial para a venda, prova do evento, análise da crítica – nunca para a fruição diante do original. Em meio ao caos da produção artística contemporânea não se sabe qual obra “ficará para a eternidade”, aureolada pelos conceitos de Walter Benjamin. A reprodutibilidade técnica teria triunfado? A pandemia nos leva agora à obra da virtualidade, da fruição daquele que reinterpreta a obra por meio da tecnologia. Criação da criação.

Manter-se ocupado com a arte é quase terapia no vácuo temporal da pandemia. O que se viu foram os meios de comunicação se abrirem a um público trancafiado em apartamentos, sem atingir os menos favorecidos digitalmente. A reprodutibilidade técnica da obra teria chegado às favelas? A música, por sua especificidade sonora, individualizada ou coletiva – orquestras –, encontrou rapidamente seu nicho nos meios de comunicação, no canto a capela nas sacadas de apartamentos ou ainda na comoção do vazio da catedral de Milão com Andrea Bocelli. Quem não se comoveu com o olhar dos drones na Champs-Élysées vazia. Não era o projeto de Haussmann e sequer o olhar dos impressionistas. Roma apenas edificada e não apreciada. A pandemia nos obrigou à inacessibilidade às obras. Até mesmo aquelas públicas, urbanas. Estaríamos satisfeitos apenas com as visitas virtuais das obras que estão em museus consagrados? Qual o montante para se organizar a exposição Raffaello 1540–1485, com duzentas obras do mestre em Roma? Quantas bienais pelo mundo todo foram adiadas? Há espaço para a criatividade: grande exposição de Van Gogh em Toronto foi transformada em experimento virtual pelo sistema drive-thru, sem sair de seu carro. Ingressos esgotados. A reinvenção nas artes é a força motriz. Assim como o monetário. O niilismo que tomou conta da arte a partir da Fonte (urinol) de Marcel Duchamp chegou ao clímax, quase um século depois, em obra do artista italiano Maurizio Cattelan, exposta no Museu Guggenheim de Nova York, que consistia na experiência de usar um banheiro com um vaso sanitário de ouro maciço.

Que a pausa forçada pela pandemia se converta em reflexão. Em meio ao bombardeio imagético, frenético, do exibicionismo das selfies que apontam para o grande olhar do controle do Big Brother, lembram-se das profecias de McLuhan? A imagem superou a escrita? A aldeia global infectada pelas imagens, e as mais brutais nesta pandemia não são aquelas apocalípticas, a exemplo de Bergman com a morte, em O Sétimo Selo. Foram elas elaboradas pela perfectibilidade matérica dos recursos cinematográficos. A morte foi vulgarizada por cenas de enterros em valas comuns. Como serão os filmes sobre a pandemia? Algum poderá superar aquele olhar nervoso do celular a denunciar ao vivo como um homem policial branco mata um homem negro asfixiando-o calmamente? Imagens estarrecedoras, sem o menor senso de artisticidade, testemunhas oculares/tecnológicas de uma sociedade hipócrita. As imagens captadas pela adolescente incendiaram multidões! Usar o banheiro cujo vaso é de ouro, dentro do Guggenheim, ainda valerá a pena para termos nossos desejos saciados pela solitária performance artística? Como será a arte pós-pandemia se já na pós-pós-modernidade a arte promoveu a inacessibilidade aos mortais? Neste angustiante isolamento do aqui e agora, refletiremos como serão as novas formas de pertencimento ao mundo? A obra Golden Toilet, de Cattelan, foi roubada, pois os 105 quilos de ouro talvez valessem mais que o espírito ou até mesmo a aura da ironia e irreverência impregnada na obra. A arte, seja ela literária, sonora ou imagética, é prerrogativa da mente humana. Reinventar a existência, o élan vital, é o impulso da arte, sem a qual não se vive.

Percival Tirapeli 

Professor titular em História da Arte no Instituto de Artes da UNESP
Artista plástico e curador 
Autor de mais de 20 livros sobre história da arte

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