ABEU Reflete de 22 de abril de 2020 - Carlos Alberto Gianotti

A pandemia da covid-19 continua a provocar inquietações, conjecturas e permanece ocupando todos os espaços do debate público. Por isso, é inevitável que, mais uma vez, este tema permeie o artigo desta semana do ABEU Reflete. Carlos Alberto Gianotti, editor executivo da Editora Unisinos, no entanto, pondera sobre outras consequências do coronavírus, comentando sobre sensações de desconfiança trazidas pela atual conjuntura. Mas seu texto não fala da desconfiança no sentido de perder confiança, de se deixar abater, mas sim na acepção de gerar dúvidas e questionamentos. Confira abaixo:

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Das desconfianças

 

O que for,

quando for,

é que será o que é.

[F. Pessoa > Caeiro]

 

Foi há muito, não consigo precisar quando aconteceu, mas um dia, como que se abateu sobre mim um abissal sentimento de desconfiança, um desconfiar na acepção de duvidar, e não de perder a confiança. A partir de então, desde aquele momento, passei a viver meus dias a questionar onde radica a verdade, ou seja, nas contingências da vida, em que ponto estará o que mais se aproxima do veraz. Não a verdade dogmática ou a sectária, mas o esboço de uma possível verdade contrastante com as contrafações. Esse exercício de busca é o do discernimento em meio às circunstâncias, às conjunções.

Certas circunstâncias ou determinados eventos não se consegue expressar com palavras, sobre eles pouco ou nada de categórico há a dizer, melhor a circunspecção; 11 de setembro – NY, Tsunami no Japão – 2011, Mariana, Brumadinho foram o que foram. Palavras abundaram a respeito desses eventos, mas apenas tergiversações ou especulações midiáticas.

Agora, vemo-nos às voltas com essa estupefaciente pandemia. Na verdade, se bem pensado, nada de consistente e efetivamente insuspeito há a comentar a respeito dela: é o que é, e se sabe que está a causar dezenas de milhares de vítimas fatais. Falar a respeito é como, no elevador com o vizinho do andar de cima, trocar palavras banais sobre o tempo: palavras vazias para preencher não sei quê, entremeadas por aquele manjado sorriso nervoso.

As ciências da saúde, diante do surto viral, operam como conseguem para atenuar sofrimentos pessoais dos atacados pelo vírus. De outro lado, veem-se mídias a se ocupar quase que exclusivamente do assunto, repetindo, ad nauseam, torrentes de informações de notória inutilidade. Particularmente as TVs apresentam enjoativamente dados numéricos sobre a crise, que apenas causam preocupações desnecessárias, e veiculam o discurso de diferentes profissionais da saúde que ficam a se repetir uns aos outros, quando não a se contradizerem, concluindo unanimemente por enfatizar com ar de rigor científico: “Lavem bem as mãos com sabão ou apliquem nelas álcool em gel!” Cheguei a ouvir de um deles a esquisita prescrição para autoproteção psíquica no isolamento caseiro, que o isolado não fique de pijama o tempo todo, isto é, o indivíduo deve, já ao levantar-se pela manhã, vestir roupas de sair, mas permaneça em casa; de outro escutei, boquiaberto, o preceito de manter unhas curtas, porque, se longas, sob elas o vírus poderá se homiziar. Enfim, manifestações ociosas que têm a serventia de escancarar que nada de efetivo há a dizer, embora os turbilhões de palavras. Espelha-se, assim, com clareza de sol de meio-dia, que num mundo em que se desaprendeu a ouvir, todos têm alguma genialidade a apregoar.

Foi desse mundo do indivíduo que desaprendeu a ouvir e viciou-se em narrar o banal – vide as infanto-juvenis redes sociais – que emergiu a desconfiança generalizada, não na acepção notada ao início, a do discernimento diante das circunstâncias, mas a desconfiança no sentido de não confiar em ninguém, em nada, induzida essencialmente pela ânsia incontrolável de poder no âmbito sociolaboral de cada um: para ascender, vale qualquer coisa e, por isso, devo me manter com um pé sempre atrás em relação ao outro, e também de prontidão para a oportuna rasteira em outrem visando à minha vantagem ou dos meus. Enfim, vivemos a época da desconfiança incrustrada na sociedade – seu éthos.

Pois, com a pandemia, estendeu-se ainda mais essa desconfiança entre nós; mas ela tem uma origem própria. Trata-se desconfiança diante das informações e dos esclarecimentos obsequiados pelas mídias, origem do desnorteio geral sobre o como agir, a que e a quem dar crédito diante de tanto que se nos oferecem “conhecer”.

Seria bom, quem sabe, buscar consolação no Fernando Pessoa, que vaticinou nestes versos: “O que for, / quando for, / é que será o que é.

Carlos Alberto Gianotti

Editor executivo da Editora Unisinos