ABEU Reflete de 29 de abril de 2020 - Maria Luiza Santos

Em mais uma semana da nossa nova coluna, ABEU Reflete, a pandemia mundial do coronavírus provoca mais conjecturas e ponderações. No texto de hoje, Maria Luiza Santos, pesquisadora e professora titular de Sociologia da Universidade Estadual de Santa Cruz e Líder do Observatório das Migrações do estado da Bahia, parte da análise da trama de um filme para refletir sobre como lidamos com o outro e como vamos encarar as migrações após este período de isolamento social. Autora da Editus - Editora da UESC, Maria Luiza já publicou livros como O quibe no tabuleiro da baiana (2006), Fluxos Contemporâneos (2014) e Tarfi na estrada: ficção e realidade na trajetória de refugiados (2018).

 

_____________________________________________________________________________________________________

Quando a vida imita a arte, mas nem sempre dá o mesmo resultado

Ao atualizar a lista de livros e filmes propostos para a quarentena, que, diga-se de passagem, todos os dias tem sido aumentada, me deparei com o título Nunca Visto. Sim, esse é o título do filme: NUNCA VISTO. Trata-se de uma comédia da diretora argentina radicada na Espanha Marina Seresesy, produzido por Pablo Bossi e lançado em 2019, o qual descobri posteriormente tratar-se de um remake. Classificaria como bom. Não muito bom, nem excelente, porém me chamou atenção pela temática.

Apesar de a sinopse o descrever como “comédia emaranhada que, para o bem ou para o mal, usa piadas simples pra fazer as pessoas rirem com resultados mistos”; ou “uma cidade isolada e em apuros recebe um grupo de estrangeiros bem diferentes, então, prepare-se para o choque cultural”, é bem mais que isso. Um olhar crítico, estabelecendo relações com as discussões sobre os estudos migratórios, consegue perceber a gama de estereótipos, preconceitos, alteridade, medo, xenofobia, etnocentrismo, assimilação e oportunismo por que passam os diálogos e imagens nos 93 minutos de filme.

Evocando a semiótica e a importância das representações, reflito sobre a inferência de Abdelmalek Sayad, em seu livro Imigração ou os paradoxos da alteridade (1998), quando chama atenção para as duas faces de uma mesma moeda ao tratar da condição migrante – do olhar do outro sobre nós e nosso sobre o outro –, tão comum no cotidiano e tão debatido por aqueles que trazem nas suas pautas o tema da identidade, do respeito ao diferente e do acolhimento à diversidade. Bonitas palavras, porém de uma distância hercúlea em traduzir-se em ações mesmo no século XXI. Uma rápida leitura dos jornais e uma atenção específica nas fotos e reportagens sobre a situação de migrantes refugiados ao redor do mundo tentando ultrapassar fronteiras, conviver com a falta de dignidade humana e lutar pela sobrevivência comprovam tal afirmação.

No filme Nunca Visto enxerguei, de forma alegórica, um microcosmo dessa realidade contemporânea. Um vilarejo denominado de Fuentejuela de Arriba, com apenas 16 habitantes, que resiste a ser integrado ao vilarejo maior, caso o número de habitantes decresça. A resistência é alicerçada na pureza e tradição dos seus moradores que não ousam se misturar. Trazem como palavra de ordem: “Abaixo à integração”. A solução seria aumentar seu número de habitantes, porém, a procriação não é uma possibilidade, pois já passaram da idade de fazê-lo. A oportunidade surge então com a chegada de quatro migrantes africanos. O tensionamento é instalado, uma vez que tal possibilidade se choca com os pilares mais sagrados do pequeno grupo que resiste a interagir com migrantes e, ainda mais “grave”, migrantes negros.

O que se percebe a partir do fato em questão é o surgimento dos vários perfis e dilemas que os que acompanham os debates migratórios estão familiarizados: aqueles que tomam pra si o convencimento frente aos demais; aqueles que têm medo da tomada do seu espaço; aqueles que têm medo do fenótipo do outro que é estranho a mim; aqueles que querem adestrar com seus costumes, e aí são retratadas a gastronomia, festas, danças típicas, religiosidade e indumentárias; aqueles que não escutam; aqueles que absorvem a cultura do outro; aqueles que querem cuidar dos outros como objetos exóticos; aqueles que querem aprender; aqueles que criminalizam; aqueles que adotam. Talvez a maior dificuldade apresentada nessas variáveis e também na realidade contemporânea é a de dar voz a quem não é dada a voz. É de deixar o protagonismo social e dar também espaço ao outro.

O filme traz um final feliz com a realidade da integração, da mobilidade humana respeitada e da alteração no quadro de vulnerabilidade social no pequeno vilarejo e seus parcos habitantes. Decididamente, esse microcosmo reflete pouco os atores sociais fora da tela no que tange aos movimentos migratórios mundiais. Se essa observação pode ser constatada no mundo pró-globalização/mundialização, o que dizer no momento onde reina a pandemia da covid-19, onde o mote é o isolamento social e a cada dia é mais recorrente o discurso da transferência de culpas?

Para grande parte do globo a condição de isolamento vai passar. Como no filme, a integração reinará. Mas existe uma gama de pessoas que já estava isolada antes da pandemia e que se hoje sofre, como nós pela angústia da doença, vive com o agravante da invisibilidade da sua condição, que só se torna uma referência quando associada à causadora de uma crise e à invasão de territórios, como se sair do local em que viviam tivesse sido uma opção. “[...] não é pelo surgimento da pandemia que as hierarquizações e iniquidades já existentes deixam de atuar, por vezes são até reforçadas”, nos lembra o editorial do Museu da Imigração de São Paulo de 27 de março. Outra grande batalha a ser vencida em nível mundial, que, penso, terá duração mais extensa que a pandemia, pois não trata do interesse de várias agendas políticas de um grande número de nações.

Maria Luiza Santos

Pesquisadora e professora titular de Sociologia na Universidade Estadual de Santa Cruz

Líder do Observatório das Migrações do Estado da Bahia

Autora da Editus - Editora da UESC