ABEU Reflete: edição de 13 de maio de 2020

Alex Niche Teixeira, Diretor da Editora UFRGS, pondera se a normalidade em que vivíamos antes da pandemia era ideal e igualitária no contexto de produção capitalista

Em 13/05/2020 11:05

Opinião por ABEU

ABEU Reflete: edição de 13 de maio de 2020

A coluna ABEU Reflete retorna esta semana parte do atual contexto da pandemia para avaliar nossas noções de "normalidade" e de "crise". Alex Niche Teixeira, Diretor da Editora UFRGS e Diretor de Eventos da ABEU, se questiona em seu texto se o mercado editorial em geral, e o universitário especificamente, já não viviam uma crise crônica antes mesmo do isolamento social. O que, consequentemente, leva a outra pergunta: é para essa normalidade que queremos retornar?

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Crise? Que crise?

O mercado editorial brasileiro está sendo profundamente impactado pela situação provocada pela pandemia da SARS-COVID19. Em verdade, está sendo afetado, a exemplo de outros setores da atividade econômica e cultural, pela tentativa de impor uma atitude de enfrentamento e proteção por parte das pessoas. Enquanto tentativa terapêutica para um mal pouco conhecido, o tal “isolamento social” traz consigo efeitos colaterais. A ação inicialmente espontânea daqueles que já vinham assistindo preocupados o que ocorria na China desde o final de 2019, e depois na Europa, instaurou uma disposição para circular menos e isolar-se mesmo quando as autoridades centrais brasileiras titubeavam sobre a conduta a ser adotada. Não há como negar que o impedimento autoimpingido ou forçado à circulação vai de encontro àquilo que em grande medida sustenta a moderna sociedade burguesa: o mercado, a circulação de mercadorias.

Mas a exemplo de muitos outros setores de atividade, a crise do setor livreiro do modo, como se apresenta no Brasil, não é exatamente um cenário sem precedentes. Ao contrário das noções que percebiam o país “decolando em 2019” após ter ultrapassado a “ponte para o futuro” de 2016 a 2018, a situação de estagnação econômica e retrocesso em direitos de trabalhadores, com perdas do poder aquisitivo por expressiva parcela da população e a consequente redução do consumo em geral, especialmente de bens culturais, com lastimável destaque negativo para os livros, já configurava uma outra trágica curva ascendente, cujos sinais de “achatamento” não eram percebíveis no horizonte. Daí não ser adequado semanticamente falarmos em crise, posto que o quadro já era, há muito, crônico.

Mas, então, para além da óbvia constatação quanto ao alto número de mortos, que novidade trouxe a COVID19, a ponto de suscitar a nova polarização na terra brasilis entre os que defendem a economia e os que defendem a vida? A catástrofe sanitária que vivemos apresenta-se como a cereja do bolo de um arranjo econômico de concentração de renda e recursos que nos esfrega na cara a face mais cruel da fase de desenvolvimento econômico capitalista da forma como experimentamos globalmente. É sintomático que os Estados Unidos e a Inglaterra – apesar do bem estabelecido sistema de saúde público deste último – tenham os maiores números de mortes desde o início da pandemia. Em ambos, mas também em vários outros países desenvolvidos, os níveis de desigualdade cresceram muito nas últimas décadas. Isto, associado a doses iniciais de negacionismo de seus mandatários principais – o mesmo que desdenha da ciência, da imprensa e do pensamento crítico – contribuíram para a alta letalidade lá observada.

Neste sentido, a novidade imposta pela COVID19 diz respeito à intensidade. As doenças causadas pelo vírus e a escala dos estragos em curto espaço de tempo impõem, sem mais postergações, a necessidade de repensarmos os esquemas para e pelos quais produzimos nossas condições de vida. E isto inclui todos os setores de atividade produtiva: ou alguém aguenta, com ou sem vírus, viver sem música ou filmes? O problema é que, partindo de uma base muito desigual do ponto de vista social e econômico, esta reflexão soa privilegiada. Na disputa ideológica que cerca as “saídas desta crise”, este argumento certamente é e será mobilizado. Porém, tão privilegiado, ou até mais, é o desejo de voltarmos o quanto antes ao “normal”. Como se o cotidiano e as perspectivas experimentadas até fevereiro de 2020 fossem auspiciosos.

Para quem atua na produção editorial universitária tudo que não se pode desejar é voltar ao normal. Talvez as grandes mudanças não possam ser as primeiras a serem perseguidas. Mas, apenas a título de exemplo, aqueles que têm forçosamente experimentado o trabalho remoto nas diversas etapas da produção de um livro podem aproveitar a atual situação para aprimorar estas práticas e trabalhar para mantê-las em suas instituições quando a circulação de pessoas em maior volume deixar de ser insegura. Precisamos mesmo ficar 8 horas por dia em um mesmo local para diagramar, revisar, criar capas? A distribuição física, que já era desafiadora, merece uma reflexão à parte. Mas a distribuição de conteúdo em formato digital certamente ganhou novo impulso, o qual, por sua vez, nos pressiona a refletir: minha editora tem estabelecida uma política de acesso aberto? Tem condições sustentáveis e adequadas, políticas e financeiras, de trabalhar orientada por esta lógica de distribuição?

As definições que o momento exige são muitas e de várias ordens. Se no curto prazo o objetivo é sobreviver, no médio prazo não pode ser voltar ao normal. Ou, no mínimo, indagar: normal? Que normal?

Alex  Niche Teixeira

Diretor da Editora da UFRGS

Diretor de Eventos da ABEU

 


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