ABEU Reflete: edição de junho de 2021

Egídio Dórea, coordenador do programa Universidade Aberta à Terceira Idade, da USP, fala sobre como o ganho de longevidade aumenta a busca por propósitos nas pessoas

Em 27/06/2021 20:53
Atualizado em 01/07/2021 14:50

Opinião por ABEU

ABEU Reflete: edição de junho de 2021

O que você vai deixar para este mundo? Parece uma pergunta pesada e profunda, que pode até causar uma certa ansiedade nas pessoas. Mas é a reflexão proposta pelo Dr. Egídio Dórea na coluna ABEU Reflete deste mês. Doutor em nefrologia pela Universidade de São Paulo, ele também é coordenador do programa Universidade Aberta à Terceira Idade, da USP. Em seu artigo, Dórea traz uma série de questionamento sobre os impactos do aumento na expectativa de vida na busca individual por um legado. 

_______________________________________________________________________________________

 

A importância dos propósitos

 Friedrich Nietzsche disse que “Quem tem porque viver, suporta quase qualquer como”. A importância dos propósitos em nossas vidas pode ser verificada em situações do nosso dia a dia ou mesmo em ocasiões onde imagina-se que o indivíduo não tem mais motivos para continuar vivendo. Essa é uma das razões que nos levam a creditar o envelhecimento saudável a quatro capitais: saúde, financeiro, social, aprendizado continuado, mas, sobretudo, ao propósito. Ter propósitos é essencial para o nosso viver.  E eles podem estar relacionados a conquistas ou bens materiais; ao sentimento por alguém ou mesmo ao renascimento por ter encontrado esse propósito em um momento de dor e sofrimento. Eles se alteram ao longo do nosso curso de vida e são diferentes de pessoa para pessoa. Mas o que importa é que eles nos alimentam e nos dão significado.

Desde os tempos gregos antigos, questiona-se qual o real sentido da vida. O que seria o viver. Entretanto, segundo Viktor Frankl, psiquiatra, sobrevivente do campo de concentração nazista e um dos fundadores da logoterapia, o essencial não seria este conceito abstrato da vida, e sim qual o nosso papel concreto nela. Qual o significado que damos para ela. O que estamos fazendo com esse tempo transitório que nos é dado. O que estamos construindo, amando e aprendendo em momentos de sofrimento, que podem ser muitas vezes inevitáveis. Esses deveriam ser os nossos reais norteadores. Todos os dias deveríamos acordar e encarar o presente como uma nova chance de estabelecer novos propósitos, de consertar o que não deu certo. Encarar os momentos na sua efemeridade e tentar não procrastinar. Ao analisarmos o nosso cotidiano, percebemos que adiamos essas decisões, em maior ou menor grau, baseados em alguma certeza de que teremos um futuro para fazê-lo. Com que garantias?

Mas o maior motivador não seriam os propósitos individuais, e sim aqueles que beneficiassem o próximo e as gerações que nos sucederão. E a isso, segundo o psicólogo Erik Erikson, dá-se o nome de generatividade. Essa necessidade de nutrir e guiar as próximas gerações. Quais serão os nossos legados? Quando eu partir, que é inevitável, qual terá sido a minha contribuição e do que se lembrarão da minha passagem na terra. Terei eu contribuído para o bem estar da minha família, dos meus amigos, da minha comunidade? Utilizei parte do meu tempo para melhorar a sociedade? Certamente não se lembrarão dos carros que possuí, das casas que eu tive ou dos vinhos que consumi, que fazem parte da nossa vida, mas que não devem ser os nossos maiores valores.

O ganho de longevidade, no século XX, deve nos levar a repensar as nossas trajetórias de vida. Foram adicionados trinta anos às nossas vidas. Segundo a gerontóloga e professora Laura Carstensen, do Stanford Center on Longevity, os primeiros cinquenta anos de nossas vidas deveriam ser aqueles em que estaríamos explorando o mundo, desenvolvendo as nossas habilidades, construindo as nossas carreiras profissionais, forjando laços e criando famílias. Os próximos trinta a cinquenta anos seriam aqueles nos quais usaríamos as nossas competências para ajudar os outros. Teríamos, nessa fase, uma maior capacidade, com os conhecimentos e valores adquiridos, de criar melhores condições de educação, trabalho, saúde e lazer para as novas gerações. Mostraríamos a importância de ter propósitos ao longo do curso de vida que afetem não somente o nosso eu individual, mas o outro que está ao meu lado e aos que nos sucederão.

Este transcender do eu individual e pensar no outro é um processo de aprendizagem que extrapola o que aprendemos nas escolas, é algo que devemos aprender vivendo. A vida é cheia de possibilidades e, durante o nosso envelhecimento, essas possibilidades transformam-se em realidades, legados. Mas as possibilidades não morrem à medida que envelhecemos. Elas devem ser depuradas neste processo, onde deixam de ter um foco maior na individualidade e passam a mirar a coletividade.

Egídio Dórea

Doutor em Nefrologia pela Universidade de São Paulo

Coordenador do programa Universidade Aberta à Terceira Idade

 

 


Tags da postagem

abeu reflete ageísmo terceira idade