A Voz da Nossa História

Entrevista com Carlos Alberto Gianotti

Em 14/05/2017 19:12
Atualizado em 15/05/2017 16:42

Entrevista por ABEU

A Voz da Nossa História

O livro universitário consegue sair da bolha do academicismo? Qual a verdadeira função do associativismo? O que a ABEU pode oferecer a tantas editoras universitárias? Essas são algumas reflexões trazidas pelo entrevistado desta semana na coluna A Voz da Nossa História. Carlos Alberto Gianotti tem uma longa experiência no mercado editorial, estando à frente da Editora Unisinos há 24 anos, além de ter composto a diretoria da ABEU em pelo menos 4 momentos distintos. Em nossa conversa, ele relembra os percalços enfrentados pela Associação e reflete sobre novas formas de divulgar e distribuir a produção acadêmica das universidades.

1) Professor Gianotti, sua trajetória profissional no mercado editorial universitário se mistura à própria história da ABEU, já que integrou diferentes diretorias da Associação em variados momentos: como Tesoureiro, durante o biênio 1993- 1995; como representante do Programa Interuniversitário de Distribuição do Livro na Região Sul, na diretoria de 1995-1997; como Diretor Financeiro durante 2011-2013; e, por fim, como Vice-Presidente na gestão de João Carlos Canossa, em 2013-2015. Ao passar por tantas fases da ABEU, assistindo de dentro sua evolução, que desafios cada um desses momentos trouxe? Que particularidades você se recorda sobre os diferentes períodos que viveu na ABEU?

Sim, foi no Encontro das Editoras Universitárias em Salvador/BA, em 1993, que, ainda iniciando as atividades como diretor da Editora Unisinos, compus na chapa eleita para o biênio 1993-95, como Tesoureiro. Vale notar que nessa época a estrutura diretiva da Associação era diferente da atual. Encabeçava essa chapa o colega, da EdUFSC, Alcides Buss. A ABEU, fundada alguns anos antes, encontrava-se nessa fase inicial um tanto desarticulada, praticamente inexpressiva na sua precípua função associativa. Alcides, aos poucos, conseguiu encetar algumas ações visando ao seu revigoramento. Lembro que foi nessa gestão que conseguimos estruturar um catálogo das editoras universitárias brasileiras visando a servir de elemento de apoio ao nosso representante na Feira de Frankfurt de 1994. As dificuldades de comunicação eram maiores do que hoje, pois nesses anos apenas começávamos a operar por meio de e-mail. Como tesoureiro, veja que falo de mais de vinte anos atrás, passei por maus momentos para conseguir organizar minimamente a cobrança das anuidades das associadas. Enfim, havia dificuldades naturais de um associativismo que começava os seus primeiros passos. Avançamos pouco a pouco e, estabelecendo parcerias, creio que na gestão do Valter Kuchenbecker, chegamos à nossa sede própria em São Paulo com atendimento de um Secretário Executivo, o nosso proficiente Rubens. Iniciamos a participação nas bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo, desenvolvemos canais de comunicação com associadas, estabelecemos vínculos com coirmãs latino-americanas com as quais foram implementados alguns projetos. Enfim, chegamos aonde estamos e formamos um background que nos auxilia a seguir adiante.

2) Agora, pessoalmente, como editor à frente da Editora Unisinos, como você avalia a importância da ABEU para a promoção do livro universitário?

A promoção do livro universitário é um problema para o qual vejo poucas possibilidades de solução. E tal pessimismo se estabelece, paradoxalmente, diante do fato de ser o livro acadêmico essencial como elemento transitivo do conhecimento gerado nas IES (Insituições de Ensino Sueprior) e nas de pesquisa. Falo no sentido da distribuição, de fazer o livro chegar ao leitor, assunto sempre recorrente em nossos Encontros anuais. Em geral, não só para as universitárias, mas para as demais editoras esse é um ponto crucial. Há 24 anos à frente da Editora Unisinos, sinto a ferroada da frustração quando penso no processo de comercialização algo precária dos títulos que compõem nosso catálogo. Creio que raras são as editoras acadêmicas que superaram essa dificuldade, como a EdUnesp. Penso que a promoção do livro universitário – que pela sua natureza intrínseca não é de fácil circulação – deve ser feita pela própria editora, cada uma achando o difícil percurso da comercialização com criatividade. A ABEU, nesse sentido, poderá fazer o que tem feito com muito interesse, isto é, vislumbrar caminhos para colocar, institucionalmente, o livro universitário em eventos de monta, como feiras e bienais do livro, congressos, simpósios. Importante também me parece estar presente junto a organizações símiles, como CBL (Câmara Brasileira do Livro), SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) e ANL (Associação Nacional de Livrarias). Porém, estar junto com essas instituições, de forma atuante e com voz, requer recursos, e isso me parece um embaraço de sempre: a ABEU luta contra a escassez de recursos. Então, por exemplo, se as instituições que citei resolvem desenvolver uma pesquisa sobre leitura no Brasil e convidam a ABEU a coparticipar, essa participação custará dinheiro, de que talvez não possamos dispor.

3) Foram inúmeras contribuições suas dentro da Associação. E, talvez, um dos seus maiores legados tenha sido a concepção do Prêmio ABEU, que em 2016 chegou à sua 2ª edição e que certamente continuará este ano. Poderia nos contar como surgiu a ideia de criar uma premiação que prestigiasse exclusivamente o livro universitário e quais foram os principais desafios até a sua implementação, que só veio a ocorrer em 2015?

Precisamente, não sei como me ocorreu essa ideia, mas creio que foi com o olho no Jabuti: por que a ABEU não poderia criar e manter um concurso semelhante ao desenvolvido anualmente pela CBL? Essa deve ter sido a inspiração. Devo dizer que muito me orgulho de ter sugerido essa premiação de incentivo e reconhecimento ao livro universitário e a seus editores. Coordenei a primeira edição do Prêmio; estávamos iniciando, contamos com comissões julgadoras colaborativas e foi um período de aprendizado. Este ano acontecerá a terceira edição e tenho certeza que estará muito aprimorada no seu desenvolvimento. Parece-me natural que com o tempo o Prêmio ABEU será merecedor de um maior destaque pelas mídias em função do seu significado.

4) Por fim, o que você espera para o futuro da ABEU?

Quando fui Diretor Financeiro, na última gestão do Castilho, e Vice-Presidente, na do Canossa, em nossas reuniões de diretoria sempre batia na mesma tecla: uma associação, qualquer que seja, tem de oferecer o máximo possível aos associados, e nós devemos procurar pelo que possamos oferecer. Temos oportunizado a participação das associadas em feiras e bienais, inclusive internacionais. Há outras ações pontuais: temos uma bela revista, a Verbo, desenvolvemos o Prêmio ABEU. Mas cumpre à ABEU buscar mais para oferecer às interessadas no oferecimento. Então, volta o problema dos recursos. Também em muitas ocasiões me manifestei sobre a necessidade da profissionalização das atividades nas nossas editoras: parece-me indispensável a continuidade das equipes diretivas das editoras para que se estruturem projetos editoriais de longo prazo e de fôlego. E isso não se faz com a mudança do diretor da editora a cada mudança de reitor da universidade, o que é algo recorrente; cada diretor de editora recém-nomeado inicia um “trabalho novo”, desconsiderando, por via de regra, o passado e reinventando a roda Esse seria um trabalho que me parece essencial a ser pensado para o futuro da ABEU: atuar junto à alta administração das universitárias com vistas a propor a prática da manutenção dos editores e da valorização da ação editorial na academia. Talvez seja ingenuidade de minha parte pensar algo assim. Tenho comigo as melhores crenças num futuro cada vez mais promissor para a Associação com o reconhecimento das autoridades públicas do ensino superior e da pesquisa do seu incontestável valor. Parabéns, ABEU, pelos 30 anos!


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