A Voz do Profissional

Guilherme Gontijo Flores detalha seu processo de tradução e destaca o papel das editoras universitárias na adaptação de obras de maior complexidade

Em 05/02/2018 14:26
Atualizado em 06/02/2018 10:03

Notícia por ABEU

A Voz do Profissional

Hoje é simples saber o que significa uma palavra estrangeira: basta jogar o termo no Google Tradutor para ter a resposta na hora. Mas o ofício da tradução não se resume a um “copia e cola”. É o que nos mostra o entrevistado dessa semana na coluna A Voz do Profissional, Guilherme Gontijo Flores. Com a tradução dos 4 volumes do livro “Anatomia da Melancolia”, da Editora UFPR, Flores conquistou, em 2014, o 1º lugar do Prêmio Jabuti na categoria “Tradução” e venceu também o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, reconhecimento que tornou a ganhar ano passado pela adaptação dos “Fragmentos completos”, de Safo, publicado pela Editora 34.

Em nossa conversa, Guilherme Flores reforça que, para uma adaptação exitosa, é preciso ir muito além da tradução termo a termo, sendo necessário entender a intenção do autor, a essência do livro e o contexto. “Anatomia da Melancolia”, por exemplo, é uma obra renascentista escrita pelo historiador Robert Burton no século XVII, que mescla duas línguas: o inglês e o latim, exigindo mais de 3 anos de dedicação por parte do tradutor. Na entrevista abaixo, Flores detalha seu processo de tradução e destaca o papel das editoras universitárias de levar ao público obras que requerem maiores esforços para serem adaptadas.

1) Você acredita que o leitor brasileiro de algum modo valoriza o trabalho de tradução, ou ao menos tem noção do esforço desprendido para adaptar uma obra para uma outra língua? Best-sellers, por exemplo, muitas vezes trazem prazos cruéis para os tradutores, diante da urgência que as editoras têm de lançar um livro muito aguardado pelo público. Você acredita que o público final chega a pensar que foi necessário um minucioso trabalho para que aquela obra fosse entregue, na qual o tradutor é praticamente um "segundo autor" do livro? 

Creio que o público, em geral, tem uma visão ingênua do trabalho tradutório. Sim, ele reconhece que é difícil, que é cansativo, que toma tempo; mas o senso comum repete o chavão de que bastaria conhecer bem duas ou mais línguas para ser tradutor, o que não é o caso. Esse chavão acaba por mostrar que muita gente pensa a tradução literária como um ato mecânico, uma troca de palavras objetiva e dicionaresca. Acho que uma das missões dos estudos de tradução, nas universidades brasileiras, é o de alterar esse senso comum, ampliar a discussão da tradução para outras áreas, porque todos lemos traduções, todos vivemos dilemas éticos e linguísticos muito próximos dos da tradução. 

2) Em 2014, você ganhou o Prêmio Jabuti e o Troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte pela tradução dos 4 volumes de "A Anatomia da Melancolia", da Editora UFPR. Gostaria que falasse um pouco sobre o processo de tradução de uma obra tão extensa: quais os principais desafios de adaptar uma série completa de livros?

Fora o tamanho, o grande desafio, no caso de Burton, era triplo. Por um lado, o texto está escrito em inglês e latim, então eu precisava traduzir de duas línguas para uma só, mas preservar a noção de que ele muda de língua, fazer com que o leitor percebesse isso; então optei por manter o latim sempre e traduzi-lo entre colchetes, mesmo que fosse uma passagem longa. O segundo, são as intermináveis referências bibliográficas de Burton, porque ele cita Deus e o mundo, mas Deus e o mundo do Renascimento, com muitas obras que hoje são desconhecidas até dos eruditos; com isso, tive um longo trabalho para decodificar todas as referências e traduzi-las, então decidi escrever uma Biobibliografia com o nome de todos os autores e obras citados, que ficou tão grande que poderia ser um livrinho à parte; ela está no fim do quarto volume. Por fim, e talvez o mais importante, Burton foi um grande escritor, um estilista único da língua inglesa; mesmo que a Anatomia seja um tratado, eu não poderia deixar de levar em conta o aspecto literário da obra; então, eu inventei um pseudoportuguês seiscentista, para criar uma atmosfera barroca de tradução, por isso acabei chamando a minha tradução de poética, porque ela estava preocupada com a materialidade mesma do texto de Burton; o grande problema era que eu tinha que, ao mesmo tempo, ter liberdade poética para recriar o ritmo e manter um rigor filológico, principalmente na trama dos conceitos, afinal são palavras muito específicas de anatomia, religião e filosofia que estavam em jogo.

3) Você acredita que as editoras universitárias, que aumentaram a aquisição de direitos de publicação de livros estrangeiros nos últimos anos, têm ajudado a contribuir para dar mais visibilidade e prestígio ao ofício do tradutor, por trazerem títulos, muitas vezes, mais desafiadores em termos de adaptação?

Com certeza, penso que as editoras universitárias cumprem um papel fundamental para a cultura do livro no Brasil. Elas podem publicar obras que, até segunda ordem, não teriam apelo comercial, porque estão debruçadas sobre autores ainda pouco ou nada conhecidos. Por serem quase sempre tocadas por pesquisadores, as editoras universitárias também compreendem que a pesquisa e a tradução podem tomar muito tempo, se quisermos atingir um determinado nível num autor especificamente difícil. Mais que isso, elas compreendem que a tradução pode estar absolutamente entrelaçada com a pesquisa. Eu mesmo levei mais de três anos traduzindo a Anatomia, o que é um prazo que me permitiu não só traduzir, como pesquisar sobre Burton, entender melhor como o livro foi escrito para traduzir de acordo com esses problemas.


Tags da postagem

ABEU entrevista Nível de Informação Nível de Comunicação a voz do profissional