Voz do Autor – Entrevista com Bruno Ramos Gomes, autor da Edufba

Autor trata da sua pesquisa sobre a ayahuasca e sobre o atendimento a moradores de rua

Em 01/08/2016 14:48

Notícia por ABEU

Voz do Autor – Entrevista com Bruno Ramos Gomes, autor da Edufba

“Fui estudar psicologia para tentar entender e cuidar do ser humano”. Esta é a principal motivação de Bruno Ramos Gomes, o entrevistado de hoje da coluna A Voz do Autor. Graduado em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, seu livro mais recente é “O uso ritual da ayahuasca na atenção às populações de rua”, publicado em maio pela Edufba. Na entrevista, Bruno Ramos, que também é coordenador de ensino e pesquisa do Centro de Convivência É de Lei, falou sobre sua pesquisa e o amparo a moradores de rua.

1. Por qual motivo decidiu estudar a ayahuasca especificamente? Quais as principais características do chá alucinógeno que podem contribuir para o tratamento de depressão e a dependência de drogas?

Eu já havia conhecido o chá, pois o tinha estudado durante meu trabalho de conclusão de curso em psicologia. Ao mesmo tempo, já trabalhava com pessoas em situação de rua e usuários de drogas. Nos contextos de uso do chá são constantes os relatos de cura para dependência através da ayahuasca. Em 2005 conheci a Unidade de Resgate Flor das Águas Padrinho Sebastião, estudada no livro, que fazia um trabalho de recuperação com pessoas usuárias de drogas em situação de rua. Ao conhecer o trabalho e acompanhar os tratamentos, fui vendo que o chá era um elemento em meio a outros, que eram diversas práticas terapêuticas de tradição mestiça indígena amazônica. Enquanto isso, os estudos acadêmicos sobre o chá partiam já diretamente de uma compreensão de “cura” advinda da medicina ocidental. Vi então a necessidade de se explorar e entender com mais rigor o que era este terapêutico que já vinha acontecendo, numa lógica tão diferente da nossa. Como resultado do estudo, vi que o chá estimula uma nova forma de autopercepção, em que os efeitos do chá fazem a pessoa olhar para a própria vida e começam a construir novos planos de vida para si, em que estejam mais felizes e com mais bem estar. Este uso acontece dentro de um ritual, onde o contexto de uso e as relações tem grande importância também, diferente do uso que se faz dos medicamentos, por exemplo, onde o lugar em que se toma o remédio pouco importa.

2. Há ainda algum preconceito ou tabu que cerca a interpretação das pessoas em relação ao uso do chá no tratamento destes “males ocidentais”?

De forma geral, ainda se vê o chá como uma substância perigosa por ser considerada alucinógena. Este termo, antigo da psiquiatria, pouco explica o efeito do chá, pois não são exatamente alucinações que as pessoas têm. De forma mais fidedigna com a experiência, se pode dizer que o chá leva a um estado de “sonhar acordado”, em que a experiência vivida pode trazer sentidos importantes sobre a vida da pessoa da mesma forma que a interpretação de sonhos. Além disso, a ciência busca compreender este efeito terapêutico a partir da sua própria compreensão de “terapêutico”, o que não ajuda a entender os casos de cura dentro da lógica mais “nativa”.

3. Por sua origem e representação na mídia, a Cracolândia costuma ser um ambiente muito estigmatizado pelas pessoas, gerando noções pejorativas e mal-estar acerca do lugar. Como foram as suas primeiras experiências convivendo nesta região? Como é o seu relacionamento com os frequentadores? O que te levou a trabalhar na Cracolândia?

Tanto o estudo sobre o chá quanto meu trabalho na cracolândia foram coisas que busquei por serem bem desafiantes e por serem situações sociais que precisam ser melhor compreendidas. Apesar do medo inicial, sempre fui muito bem recebido pelos usuários de drogas lá. Quando os usuários percebem que você os considera “gente”, que não quer o mal deles e quer ajudá-los a se cuidar, são super receptivos e amigáveis. O convívio com os usuários sempre me ensinou muito sobre dependência, uso de drogas, situação de rua e sobre a sociedade como um todo, pondo em cheque diversas teorias sobre estes assuntos, que na verdade não batem com a realidade. A relação com os usuários na verdade não é a parte mais difícil do trabalho lá. Lidar com a corrupção e a violência policial, as ingerências politico-eleitoreiras e a precariedade da rede de atenção sempre foram desafios muito maiores do que o diálogo com os usuários em si.



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