A Voz do Autor

Moisés Stahl aborda a questão da mão de obra no Brasil pós-abolição da escravidão e seus reflexos históricos

Em 03/07/2017 16:24
Atualizado em 03/07/2017 18:18

Notícia por ABEU

A Voz do Autor

Descobrir a trajetória individual de personagens da nossa história pode ser revelador. É o que nos mostra Moisés Stahl, entrevistado desta semana na coluna A Voz do Autor. Em seu mais recente livro, Louis Couty e o Império do Brasil: o problema da mão de obra e a constituição do povo no final do século XIX, publicado pela Editora UFABC, o historiador estuda a vida do cientista francês Louis Couty, que atuou no Brasil durante os anos finais do Império, para poder mostrar as soluções que se buscavam para a mão de obra após a abolição da escravidão.

Graduado em História pela Unesp e com especialização em Antropologia pela Universidade do Sagrado Coração USC, Stahl também possui mestrado em História pela UNIFESP. Em nossa conversa, ele discute os principais temas tratados em sua pesquisa e mostra como o racismo das elites imperiais prejudicou a incorporação dos negros livres ao trabalho assalariado, dando preferência à mão de obra de imigrantes europeus. Mas talvez o que de mais relevante esta conversa traz é a demonstração das ambivalências dos processos históricos, representados pela figura de Louis Couty: enquanto, por um lado, esta personagem ajudou a desenvolver as ciências no Brasil, por outro, sua visão supremacista reforçou a mentalidade racista no país. Confira mais sobre esse e outros temas na entrevista. 

1) Primeiramente, por que estudar o cientista Louis Couty? O que sua trajetória no Brasil pode nos ensinar sobre a questão da mão de obra no país e o processo de transição que ocorreu com a abolição oficial da escravidão?

O tema da imigração, das relações de trabalho, levou-me ao encontro de Louis Couty. Na minha iniciação científica pesquisei as primeiras experiências de introdução do trabalho livre nas fazendas de café de São Paulo, sobretudo a fazenda Ibicaba, de propriedade do Senador Vergueiro. Foquei a análise no livro do imigrante Thomas Davatz, relato original sobre essa experiência com imigrantes suíços. Nas leituras sobre imigração, o nome de Louis Couty era recorrente entre os pesquisadores que dedicavam atenção às questões da mão de obra no Império. Com isso, decidi estudar o pensamento de Louis Couty e elaborei um projeto para ingresso no mestrado, na Unifesp, com orientação da professora Dra. Wilma Peres Costa. O estudo do pensamento e das ações de Louis Couty tornou-se revelador, isto é, quanto mais eu lia as fontes sobre Couty, mais eu tinha compreensão de quanto é interessante estudar trajetórias individuais. Couty veio para o Brasil para trabalhar como professor e pesquisador no Museu Nacional do Rio de Janeiro e na Escola Politécnica, após isso, fundou o Laboratório de Fisiologia Experimental, primeiro momento da fisiologia no Brasil. É a partir desses lugares que ele desenvolve suas observações sobre o Brasil, entra em debates, como o que teve com o Senador abolicionista francês Victor Schoelcher acerca da Lei do Ventre Livre (1871). Lei que para ele resumia as necessidades de um país, cujas bases se assentaram na mão de obra escrava. Entendia que a Lei do Ventre Livre cumpriria função estratégica na operação de transformar a mão de obra, pois, na medida em que os escravos ganhassem a liberdade, os fazendeiros se mobilizariam em atrair imigrantes. A grande questão para Couty era atrair imigrantes, que viriam dar qualidade à mão de obra. Para Couty, a imigração, é o que eu digo no livro, era um processo civilizatório do Brasil. Só com a vinda de imigrantes o Brasil, segundo Couty, alcançaria o nível civilizacional europeu. Com isso, ele descartava o negro escravizado e o mestiço, que segundo ele não eram produtivos, encontrando-se num estágio civilizacional inferior. Por isso, considero Couty um mediador das ideias novas que chegam ao Brasil na década de 1870, porque ele coloca uma interpretação da realidade brasileira, cheia de preconceitos, num momento de intensos debates e formulação de projetos para o futuro do país. Seu discurso é comprado pela Sociedade Central de Imigração, organização que defendia a transformação das bases produtivas do Brasil pela vinda de imigrantes. Esta sociedade publicou um livro póstumo de Couty, onde ele defende a urgência da vinda de imigrantes, mas não elabora nada para a inclusão do negro ou mestiço na sociedade. Sem dúvidas, Couty foi um dos principais ideólogos do branqueamento da população brasileira.

2) Algumas personalidades acabam esquecidas quando historiadores relatam os grandes processos históricos pelos quais atravessam nações e povos. No caso do Brasil, todos sabem quem é Dom Pedro II ou Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Mas, muitas vezes, personagens como Louis Couty não recebem o destaque merecido. Para você, por que isto ocorre e qual a importância de dar relevância para a atuação desses indivíduos que estiveram presentes "nos bastidores" da História?

R: Esta é uma questão que percorreu minha pesquisa, principalmente quando me deparei com um volumoso material de análise. Couty escreveu muito, entrou em vários debates, foi criticado por um setor da sociedade, mas foi endeusado por outro. Ele teve uma incursão incisiva no debate sobre a substituição do trabalho escravo pelo livre. Formulou uma narrativa decisiva, que, como já disse, foi incorporada pela principal organização de defesa da imigração. Esta espécie de esquecimento de algumas figuras podemos relacionar, também, a uma questão historiográfica. Durante muito tempo o estudo de trajetórias individuais não era bem aceito, privilegiava uma análise estrutural ou conjuntural em oposição a uma reflexão individual. François Dosse, em seu livro O Desafio Biográfico, mostra isso. Contudo, algumas figuras são recorrentes porque estiveram em momentos decisivos da história do Brasil ou foram recuperadas para legitimar outro momento, como o que ocorreu com Tiradentes no início da República. A importância de trazer uma reflexão sobre o pensamento e as ações de Louis Couty se encontra no modo como suas ideias, formuladas no contexto de luta por reformas, entraram no imaginário nacional, reforçando a ausência de um povo, transformando o racismo em bases científicas, a ciência dizia que o negro e o mestiço eram inferiores. Posteriormente, a própria ciência quebra esse argumento. O que cabe destacar em relação à importância do estudo de uma figura como Louis Couty é o modo que ele opera as discussões sobre a inclusão do negro e do mestiço na sociedade. Justificava a necessidade da vinda de imigrantes porque o negro e o mestiço não estavam aptos a formar o país, mas ele dizia não ser racista, nem haver racismo no Brasil, porque via vários mestiços ocupando algumas funções de destaque na sociedade. O argumento até recentemente em voga que dizia não haver racismo no Brasil se apoia muito no que dizia Couty e tantos outros autores que, como ele, construíram o mito de o Brasil ser um paraíso racial. Argumento que subjuga o negro, pois se no Brasil não há racismo, você está ocupando funções secundárias porque não foi capaz de ocupar funções superiores ou de entrar na universidade sem cotas. Era exatamente o que Couty dizia, que o negro tinha total condições de comprar a alforria, só não comprava porque era preguiçoso. Louis Couty é uma peça valiosa para entender o modo de pensar que se instalou no Brasil após a abolição.

3) O seu livro mostra como as elites brasileiras estavam de certa forma encurraladas com a mudança de paradigma na mão de obra no Brasil. Fazendo um paralelo, como você avalia também o atual momento por qual passa o país, onde há uma proposta de reforma das leis trabalhistas que atende mais antigas demandas dos empresários? A história não se repete um pouco quando falamos das tensões entre trabalhadores e patrões?

R: Quando o Louis Couty disse sua celebre frase, “o Brasil não tem povo”, Silvio Romero concordou com Couty e disse que era preciso alterar aquela situação. Havia a sensação de que a sociedade composta por negros e mestiços em sua maioria não representava o ideal de sociedade da elite brasileira. Por isso, a imigração surgia como alternativa civilizatória. E até hoje existe uma relação de aceitação de imigrantes ou turistas de origem europeia e uma aversão àqueles imigrantes de origem africana e mesmo do Haiti ou de países vizinhos, como Bolívia. Em relação à repetição da história, no sentido da tensão entre trabalhadores e patrões, a história se repente, sobretudo no Brasil, que mantém uma exclusão social gritante, que se agrava, infelizmente. É difícil pensar o Brasil ou qualquer país fora dos quadros internacionais. Com isso, essas reformas tem o objetivo de enfraquecer a condição de negociador do trabalhador, deixando-o vulnerável para a ação de grandes empresas. Desse modo, o governo ilegítimo do Temer está elaborando tais reformas para recuperar a economia capitalista brasileira, ou seja, não há uma volta à escravidão, como no calor da hora se diz, mas há sim uma preocupação em criar um projeto, ou pôr em prática, que atenda aos interesses dos grandes empresários, do grande capital. É o que diz aproximadamente o professor Alexandre de Freitas Barbosa, numa disciplina do doutorado que curso atualmente na USP. Ou seja, existe uma reformulação do capitalismo brasileiro pela ação do governo. Agora, esse clima de tensão que se instaurou no Brasil é, também, em decorrência da ideia fragmentada de República que existe entre nós. Quando Aécio Neves perdeu as eleições de 2014, disse que iria sangrar o governo até ele cair, o que foi reafirmado por Aloysio Nunes. Não houve respeito com os eleitores da Dilma, nem uma tentativa de resolver em conjunto a crise que se iniciava. Volto ao Louis Couty para mostrar o quanto é importante reformas profundas, ou seja, a Lava-Jato só se completará com uma reforma política séria. Couty dizia assim: “O Brasil evoluirá sem lutas violentas e sem revoluções, permanecendo o Brasil de sempre”. Esta frase de Couty, que atendia aos interesses das elites do século XIX, pode se aplicar aos interesses das elites do século XXI. É preciso superar esta frase e essa fase com Temer e refundar a República. Uma República Reformada, que atenda, sem distinção, todos os setores da sociedade.


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