Letras Vivas – ‘Interpretação’ por Eduardo Rosa

Em 29/08/2016 14:55

Notícia por ABEU

Letras Vivas – ‘Interpretação’ por Eduardo Rosa

Meu pai é pedreiro e não gosta de prédios altos. Já minha mãe é cozinheira e não gosta de comer. Meu irmão, por outro lado, é marinheiro e não gosta do mar. Até meu cachorro não gosta de latir. E eu, bem, eu queria ser jornalista e não gostava de notícias. 

Terapia parecia a solução. O doutor foi categórico: acrófobo, anoréxica, hidrófobo e alienado. Assim, respectivamente. Ah, e o veterinário mandou deixar o Rex em paz. Passamos a viver desse modo, com os rótulos impressos na testa. Então começou aquela coisa de aceitação, de encarar os medos, de enfrentar as adversidades e mais um punhado dessas frases criadas no pirilâmpico mundo da autoajuda. O famoso método dos cinco passos para o sucesso, ou algo parecido. A ideia era ir aos poucos, por baixo. No caso de papai, literalmente. Ele passou a se especializar em cimentar rodapés. Mas também não passava disso. Só um ano depois poderia partir para levantar paredes em casas com apenas um andar. 

Com minha mãe foi um pouco mais complicado. Ressocializá-la com a comida era uma tarefa que poderia deixá-la...faminta. Precisou adquirir uma técnica toda especial para cozinhar de olhos vendados e com um pregador no nariz. Coitada, chegou a perder dois dedos nessa brincadeira, mas com o tempo foi se aperfeiçoando e só de vez em quando os clientes do restaurante recebiam uma macarronada ao alho, sem óleo, com uma cobertura de sorvete de chocolate.

Meu irmão sofreu um certo revés na carreira. De almirante, foi obrigado a se rebaixar e ficar recluso na casa das máquinas, o mais longe possível das vistas do mar. O que na minha cabeça não fazia muito sentido. Ele seria o primeiro a morrer pelas forças da água caso o navio viesse a afundar. Mesmo com esse detalhe, a embarcação seria o seu jogo de videogame da vida real: a cada trauma superado, ele subiria um nível até chegar ao deck. Pelas projeções, isso aconteceria mais ou menos em 2018. 

Então restava eu. A psicanálise dizia que me faltava foco. Eu falava que não queria ser fotógrafo. Em vez disso, acabei virando um “herói das mil faces” da família: minha jornada era vencer onde eles não tinham conseguido e me sagrar o mito da nossa prole. Os métodos utilizados em mim foram os mais severos. De sessões de orientação vocacional a terapias de grupo, tudo para determinar o meu destino. Como se fosse motivador, rolava esse papo de conhecer o “eu”, partilhar experiências. E insistiam: o diálogo é importante. Foi exatamente o que fiz.

Resolvi exercitar minha aspiração e bancar o investigador. Onde todas as conjecturas freudianas falharam, simplesmente perguntei ao meu pai: “por que não gosta de ser pedreiro? Por que o medo dos prédios altos”? Mas, ora, ele adorava ser pedreiro. Nada lhe gratificava mais do que edificar uma casa. Só não pedissem que tomasse parte na construção de um arranha-céu. Veja só, meu pai tinha umas concepções urbanísticas bem particulares. Falava com fervor contra a... Como dizia... “verticalização das cidades”! Arquitetura? Preferia belos sobrados vitorianos. Não era temor, apenas opiniões estéticas bem embasadas.

Eduardo Rosa é jornalista e Assessor de Imprensa da ABEU.


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