Letras vivas – 'Decrescimento da satisfação marginal' por Carlos Alberto Gianotti

Em 04/07/2016 15:21

Notícia por ABEU

Letras vivas – 'Decrescimento da satisfação marginal' por Carlos Alberto Gianotti

Sentado na primeira classe, junto à parede, pude notar a entrada do professor doutor na nossa sala de aula do Programa de Pós-graduação: com os passos certeiros das verdadeiras autoridades intelectuais, vinha proferir uma palestra para a turma convidado pelo professor da disciplina, este um notório matão de aulas. Ontem já nos haviam informado sobre a ilustre visita de docente de nomeada no campo da microeconomia, que palestraria para os acadêmicos.

Agora posso ver a figura do conferencista à minha frente: depois de ter deixado sobre a mesa a pasta de couro e sobre esta o i-Pad, por detrás de anacrônicas lentes bifocais fotocromáticas – que, renitentes, não perdem o sombreamento mesmo no ambiente sombrio, para não dizer obscuro, da sala de aula –, ele corre o olhar de indisfarçável superioridade pelo grupo de alunos que começa a se aquietar. Constatei ainda que mesmo as lentes fotocromáticas mostravam-se incapazes de esconder as olheiras empapuçadas de quem, pensei eu, costuma tomar os seus aperitivos. Ao lado do palestrante, o professor da disciplina, não sem excessos nos encômios, começou a proceder à apresentação do convidado daquela tarde. Bocejei e preparei-me para encetar esforço descomunal para prestar atenção.

As palavras de abertura proferidas pelo palestrante foram:

– Faz anos, parei com a cerveja. Melhor: só tomo um longo gole, numa ou noutra rara ocasião. Realmente, as cervejas brasileiras, mesmo as artesanais, deixam muito a desejar por inconsistência no amargor e pelo reduzido teor alcoólico. E isso é imperdoável!

Conjeturei com meus botões que esses eram, realmente, termos inusitados para principiar uma palestra acadêmica em microeconomia e que, com efeito, o conferencista parecia confirmar minha hipótese inicial, fundada apenas no tato fisionômico, de que se estava diante de um respeitável bebedor. Quem sabe, poderia haver surpresa e pudéssemos ali nos encontrar diante de um genial microeconomista bebum. De modo que, por alguns instantes, acreditei que poderia ser uma palestra invulgar, daquelas que dão prazer de escutar. Seguiu ele:

– No lugar da cerveja, passei a bebericar apenas uísque. O velho White Horse é o meu preferido, aliás, é o meu cavalo-de-batalha: todas as noites, tomo uma boa dose antes de ir deitar. Inclusive porque os médicos andam dizendo que pesquisas recentes apontam o apreciar com moderação bebidas alcoólicas como benéfico para as coronárias. E nisso de zelar pelas coronárias não podemos relaxar!

(Nessa altura, dei uma espiada com o rabo do olho e pude notar a perplexidade dos demais pós-graduandos ouvintes daquela fala tão em desacordo com a ambiência universitária).

Seguiu o doutor:

– Mas não foi apenas pela falta de consistência no amargor que deixei de lado a cerveja; deveu-se também ao fato de passar a ver-me assolado pela sensação que, em linguagem técnica em Economia, apresenta-se como a LEI DO DECRESCIMENTO DA SATISFAÇÃO MARGINAL, tema sobre o qual estarei falando de agora em diante para este tão bonito, distinto e educado plenário.

Pigarreou, ajustou os óculos e com uma ademane prosseguiu:

– Pois, procurem evocar comigo; quando se toma cerveja, o primeiro gole é sempre o melhor, especialmente se você estiver sedento. Na verdade, consegui concluir que apenas se continua, às vezes por horas a fio, a tomar repetidos goles – os copos e as garrafas que se seguem à primeira magnífica sorvedura – pela circunstância de estarmos ali bebendo, quase sempre, numa conversa fiada com amigos. Ora, à medida que se vai ingerindo mais cerveja, se vai ficando mais enfarado, o estômago estufado, a bexiga a encher e a ter de ser esvaziada em recorrentes idas às privadas, enfim, só se segue a beber por força da própria alcoolização sobrevinda. Esta, a princípio produz uma sensação espiritual agradável; mas à medida que se vai enchendo mais a cara, a embriaguez também se torna um fardo: isso é o que nós economistas chamamos SATISFAÇÃO MARGINAL DECRESCENTE, este é o conceito microeconômico que emerge, por dois lados, desse magnífico exemplo mundano que acabo de relatar. Vejam bem, o primeiro copo, tomado em um só trago, é o melhor, o que, além de matar a sede, causará a ideal melhora no bem-estar intrapsíquico da criatura. O primeiro copo, enfim, é-nos agradável. Porém, quanto mais tomarmos, após o primeiro, mais a barriga fica estufada, mais alcoolizados nos tornamos, maior o desconforto estomacal-geniturinário: aí a satisfação marginal decrescente! Por isso, só esporadicamente tomo cerveja: um copo, bem gelada, uma só sorvedura, jogando a cabeça para trás.

Qual um colegial, levantei o dedo e questionei:

– Professor, essa lei ou princípio do decrescimento da satisfação marginal não me parece um princípio da economia, mas, sim, da psicologia humana.

– Você não entendeu nada, meu caro, vou apresentar outro exemplo para ver se clareio suas ideias.

Continuou desse ponto. Encostei a cabeça na parede e desliguei: não dava mais para prestar atenção, talvez devido ao decrescimento da minha satisfação marginal com aquela palestra.

Carlos Alberto Gianotti vive em Porto Alegre, é professor de Física, Editor-Executivo na Editora Unisinos e autor do livro "Um rio circunferencial".


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