Letras Vivas – 'Instantâneo' por Mário Sérgio Baggio

Em 26/09/2016 14:45
Atualizado em 28/09/2016 15:01

Notícia por ABEU

Letras Vivas – 'Instantâneo' por Mário Sérgio Baggio

A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um cobertor sujo de poeira e nas mãos duas colheres de pau — o que sobrou depois do bombardeio, depois da casa no chão. Ela fala sozinha enquanto rodeia os escombros, provavelmente dialogando com seus fantasmas. Ali ao lado repousam dois cachorros mortos e do ventre de cada um sai um fio de sangue que chega até perto da casa. “Mas o que é isso? Não basta não existir mais casa, agora também o chão será encharcado de sangue?”, pragueja. O fotógrafo pediu permissão para tirar uma foto, mas ela não deu atenção. Estava ausente. Só buscava alguma coisa, talvez buscasse nada. De vez em quando se abaixava para recolher algo do chão e em seguida continuava a rodear a casa e a dialogar com o silêncio.

Ela e sua família já estavam com as malas prontas, mas não era para sair de férias. Iam para outro lugar, fugindo da guerra interminável. Partiriam como refugiados, gente de nenhuma parte, sem raiz, sem chão próprio, sem nação. Gente de segunda classe, ralé, estorvo para os países ricos. Na noite anterior os aviões que voavam baixo sinalizavam o terror, e ela tinha ido até outro bairro buscar comida para a viagem. Na volta, encontrou os escombros. Estes, que agora ela e seus fantasmas circundam. Não sobrou nada, nem casa, nem família, nem malas, nem viagem. Só ela.

Plasmar a alma daquela anciã com sua máquina de eternizar momentos — era isso que o fotógrafo pretendia, mas a incredulidade diante do inexplicável lhe fechava a garganta e o impedia de pensar. Estava mergulhado naquela guerra que nem era sua, mas era como se fosse, porque era contra a humanidade. Posicionou o equipamento diante do rosto e tentou de novo. Captou um instante daquela miséria, apesar dos olhos marejados.

Mário Baggio é jornalista e atua como Redator freelancer. Publicou em 2016 o livro de contos “A (extra)ordinária vida real”, pela Editora Autografia. Mantém desde 2014 o blog Homem de Palavra, em que publica seus textos de ficção.


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