Mensagem de fim de ano de Marcelo Di Renzo, presidente da ABEU

Em 26/12/2016 12:29

Opinião por ABEU

Mensagem de fim de ano de Marcelo Di Renzo, presidente da ABEU

TRAJETÓRIA DE ARROMBA*

Marcelo Luciano Martins Di Renzo**

Comemorar três décadas de atuação associativa em defesa da produção editorial universitária brasileira equivale também a festejar ruidosamente a contribuição efetiva deste segmento laboral à Educação e à Cultura, por meio da difusão do conhecimento científico  que atesta a maturidade acadêmica das instituições de ensino, públicas e privadas, permanentemente evoluindo em contextos de mudanças severas  locais e globais decorrentes de questões políticas, agruras econômicas,  avanços tecnológicos  e revoluções sociais.

A Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU) tem consciência de seu papel social e atuação ao longo destes 30 anos de existência. Criada em 1987, conquistou visibilidade ao trabalho das editoras universitárias. Atraiu o público aos seus eventos, cativou leitores. E constituiu-se em um fórum de discussão permanente sobre todas as necessidades demandadas pelo setor. Os esforços resultaram na evolução da qualidade da produção e na quantidade produzida; no contínuo enfrentamento às dificuldades comuns como a distribuição e comercialização da produção; no estímulo à profissionalização do setor; na internacionalização por meio do relacionamento com as coirmãs latino-americanas, mexicanas, caribenhas e portuguesas.

No momento em que escrevo, somos 120 associadas distribuídas nas cinco regiões do Brasil, responsáveis por uma produção estimada em 2.000 títulos novos por ano, em especial na área técnico-científica. Há indícios de que ”nossa família” irá aumentar.

Essa loa, distante de exagerada, é necessária e justa. Ao saudar os trinta anos da ABEU, a completarem-se em 2017, saúda todos e todas que investiram tempo e esforço na construção e ordenação deste segmento produtivo, dando-lhe forma, respeito e inestimável valor.

Na trajetória desta construção, dezenas de acadêmicos viram-se diante do desafio de editarem livros da noite para o dia. Tiveram de aliar seus conhecimentos técnicos e literários ao operacional da prática editorial e aprender os novos ofícios derivados do mercado profissional.

O cenário ainda guarda essas peculiaridades, mas é diverso hoje. A constante discussão sobre esses processos, sobre os prós e contras de cada etapa produtiva, sustentada e oferecida pela Associação, possibilita um aprendizado mais rápido e consistente, num diálogo enriquecedor.

Ao mesmo tempo, permite avaliar o presente. Em uma mistura de cenários em que se busca a internacionalização da Educação, por um lado, e, por outro, convive-se com a acelerada e urgente adaptação a uma sociedade que se reinventa diante das possibilidades avassaladoras das tecnologias da comunicação, do poder das redes sociais e das novas formas de leitura, as editoras apresentam-se ao desafio: manter um papel protagonista nas mudanças.

Ser protagonista corresponde a verdadeiras batalhas à frente. Internacionalizar por meio de parceiras e da flexibilização alfandegária que estimule a livre circulação da produção acadêmica, facilitando as negociações dos títulos. Internamente, superar a insegurança fiscal. Investir tanto nas bases digitais para circulação de sua produção, quanto ainda mais na compreensão e estimulo às novas formas de leituras, no entendimento das novas formas pedagógicas. Devem as editoras das universidades acolher este mundo novo e contraditório, propondo às suas casas novas linhas de pesquisas e debates, buscando novas formas de relacionamento com seus públicos.

De certa forma, esse conjunto de batalhas não é de todo desconhecido. Há uma relação secular entre livros e universidades. Também se desenhou um mundo de descobertas tecnológicas e de impulso às rupturas com as práticas existentes, buscando-se algo mais adequado à modernidade de então. Se a produção livresca beirava as técnicas de uma obra de arte, igualmente demorada em sua conclusão e de custo elevado, reservando-se, portanto, à elite real e às bibliotecas das poucas instituições de ensino e das casas religiosas, hoje os desafios invertem-se, mas não são menores em seu grau de dificuldade.

 A celeridade proporcionada pelas novas formas de impressão foi, em poucos anos, transformando o livro em um dos ícones da cultura de massas e, agora, em mercadoria do universo do entretenimento, comercializado inteiro ou em fragmentos. Barateou-se, tornando-se acessível e em determinados países tem no Estado seu grande comprador. Em contrapartida, multiplicou-se em quantidade impossível de ser apreciada por uma pessoa ao logo de sua vida. A tecnologia ampliou o abismo entre os volumes de títulos à disposição e a capacidade de aproveitamento e, de quebra, contribui para o surgimento de novos tipos de leitores, que abandonaram a fruição delicada da leitura pela velocidade avassaladora das imagens e signos de hoje.

O livro universitário, assim, consegue ainda sobreviver em seus nichos de excelência, formado por acadêmicos de toda ordem. No entanto, a sua missão – e de suas casas editoras – não é limitada ao usufruto exclusivo de seus próprios pares. Deve almejar dirigir-se a um mundo que necessita de formação contínua para enfrentar seus próprios desafios de evolução e sobrevivência. Promover o conhecimento científico, desse modo, exige dispor-se ao enfrentamento da nova ordem do consumo cultural. Se, de um lado, a quantidade de títulos aumenta, decai a tiragem de cada edição, buscando-se o equilíbrio financeiro. Se a qualidade de conteúdos ainda é uma exigência fundamental, as técnicas comerciais e de promoção passaram a compartilhar espaço nas mesas de decisões, exigindo reformulações das equipes editoriais.

A vivência associativa possibilita buscarem-se respostas aos desafios propostos e fazer do questionamento constante uma ferramenta de superação. Em fóruns periódicos, discutem-se esses temas e constroem-se vínculos. A dinâmica já vai além da nossa América, acontece na Europa e na América do Norte. Os encontros internacionais de editores universitários se constituem em uma agenda sólida, que tende a crescer. E as pautas, se bem observadas, assemelham-se, convergem, evidenciando que o local está cada vez mais global.

Ao olharmos a trajetória da ABEU, os conflitos que enfrentou, os passos que deu, a sua consolidação como uma instituição capaz de dialogar com seus pares e de ser digno e ativo representante de seus associados em todos os fóruns de discussão e instâncias de poder, entendemos que há muito o que comemorar, mesmo existindo ainda uma extensa agenda a executar. Cumpre, assim, sua missão: “Atuar no desenvolvimento da cultura editorial universitária, de modo corporativo e ético, fornecendo soluções, produtos e serviços adequados às necessidades dos associados, das instituições parceiras e dos leitores, contribuindo para as políticas do livro e da leitura no país”.

Essa realidade permite à Associação rejuvenescer em seus propósitos, em sua missão. Os sonhos não são abandonados apesar da dificuldade em realizá-los, por vezes. Ainda é preciso garantir, na forma da lei, a segurança constitucional das editoras, de modo a superarem-se os problemas ora enfrentados, de sustentabilidade, de comercialização, de gestão, de estabilidade e de formação profissional. É preciso atentar aos direitos do autor e, na mesma medida, encontrar mecanismos ao livre trânsito das ideias acadêmicas, frutos que são da pesquisa e do estudo em favor da evolução humanidade, sem estabelecer dificuldades derivadas de entraves comerciais.

Festejaremos ruidosamente os nossos 30 anos brindando com todos aqueles que compartilham conosco este pensar, esta caminhada. Uma trajetória “de arromba”, como cantava a juventude nos idos de 1960.

Esta trajetória, de algum modo e de muitas maneiras, é a história de todos as editoras filiadas à ABEU, de todas as associações e redes, de todos nós, editores universitários do Brasil.

Faço, então, o convite. Juntos, celebrarmos com energia e alegria as nossas pegadas neste chão.

Um brinde, para começar! 

*Texto elaborado a partir do artigo “ABEU 30 ANOS.UMA JORNADA DE TODOS NÓS”, do autor. In: Tendencia Editorial, n.10; Bogota, Colômbia: Editorial Universidad del Rosario, 2016,p.28-31.

**Jornalista e mestre em Educação, é presidente da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU), gestão 2015-2017,  e coordenador da Editora Universitária Leopoldianum (EDUL), da Universidade Católica de Santos. 


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