Voz do Autor – Entrevista com a autora da Edufba, Fabiana Paixão Viana

Autora discorre sobre os desafios de produção do livro e os principais resultados a que chegou

Em 20/06/2016 16:23

Entrevista por ABEU

Voz do Autor – Entrevista com a autora da Edufba, Fabiana Paixão Viana

Na coluna A Voz do Autor desta semana, trazemos uma entrevista realizada pela Editora da UFBA com uma de suas autoras, Fabiana Paixão Viana. Seu livro “Menus dos trabalhadores: estudo do Calabar da Ezequiel Pondé em Salvador” foi lançado pela Editora em maio deste ano, durante o VII Festival de Livros e Autores da UFBA, onde a própria autora discursou sobre sua obra. Fabiana é licenciada em Ciências Sociais (2007) e bacharelada em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia (2009) pela Universidade Federal da Bahia. Além disso, possui mestrado em Estudos Étnicos e Africanos (2012) e doutorado pelo programa de pós-graduação em Antropologia na UFBA (2016). Seu livro, resultado de sua pesquisa de mestrado, trata dos hábitos alimentares da comunidade recém pacificada do Calabar, na capital baiana. Na entrevista a autora fala sobre os desafios que enfrentou durante a produção da sua tese.

1. O que te levou a estudar a relação entre a comida (alimentação/ gastronomia) e as questões de classe, religião e gênero? Como você chegou neste cruzamento de ideias? Por que a escolha do Calabar da Ezequiel Pondé? Qual a sua relação com essa rua?

Fui me apaixonando pela Antropologia da Alimentação aos poucos, meu primeiro contato com o tema relacionado a comida se deu através do livro Fisiologia do Gosto, de Brillat-Savarin; a primeira vez que o li estava no processo de finalização da monografia e busca de um tema para o mestrado, encontrava-me muito fragilizada devido a alguns percalços da pesquisa do bacharelado e encontrei na Antropologia da Alimentação um novo fôlego para recomeçar uma pesquisa acadêmica. Inicialmente imaginei estudar distintas famílias do Calabar, no entanto, em 2010, este bairro ainda era palco de disputas de traficantes rivais e, por esta razão, seria impossível escolher aleatoriamente grupos domésticos sem eleger uma determinada região pertencente a apenas uma das facções, isto sem considerar questões de minha segurança pessoal na vivência cotidiana da pesquisa e a confiança dos pesquisados em me cederem as informações que eu necessitava no momento. Cheguei ao Calabar da Ezequiel Pondé por acaso e percebi que ele era o lócus perfeito para a realização de meu estudo. Antes eu não a conhecia e esta denominação se deu devido a sua localização limítrofe entre a rua Desembargador Ezequiel Pondé, pertencente ao Jardim Apipema, e ao Calabar, compartilhando características de ambos. As questões de classe, religião e gênero foram surgindo aos poucos, a medida em que conversava e observava a rotina de seus moradores, pois como diz um jargão da universidade: o campo tem vida própria.

2. No livro, você diz que, dentre os lares pesquisados, “90% dos ensinamentos culinários se deram pelas mães”. Qual o papel das mulheres nos grupos domésticos analisados?

A mulher é a principal responsável pela compra e preparo dos alimentos no Calabar da Ezequiel Pondé, entretanto suas preferências e repulsas alimentares não são prioritárias, preponderando os gostos dos maridos, dos filhos ou outros parentes residentes no grupo doméstico, principalmente quando há a presença de doentes ou anciãos. Apesar de a transmissão culinária ocorrer, em grande parte, das mães para as filhas, a mídia e as relações profissionais, nos casos das empregadas domésticas, também são importantes neste cenário, porém, as novas gerações não se sentem à vontade para receber os ensinamentos passados por suas mães, uma vez que o ato de cozinhar, no âmbito doméstico, é carregado de obrigações e falta de reconhecimento dos demais familiares, exceto nos casos em que a comida sai com algum defeito – nestas situações o julgamento é cruel e moroso. Algumas mães, inclusive, associam o ato de cozinhar a demonstração de afeto por seus filhos, mais uma vez, sem o reconhecimento dos mesmos, que consideram uma atividade natural, devido ao papel familiar ocupado. Assim, a mulher ocupa, ao mesmo tempo, um papel de destaque e invisibilidade dentro do grupo doméstico.

3. Como se deu o relacionamento com as dezoito famílias entrevistadas?

Meu relacionamento com as dezoito famílias entrevistadas, assim como o restante dos moradores desta rua, foi bastante amigável. Estabelecemos uma relação de amizade e respeito desde o início da pesquisa. Acredito que alguns fatores foram importantes para que assim o fosse, como as aulas de apoio escolar – ou banca, como chamamos por aqui – para as crianças de diferentes idades e grupos domésticos, a disponibilidade de ouvir e auxiliar os adolescentes e jovens, que comumente também acompanhavam estas “aulas”, levando inclusive trabalhos e tarefas de suas escolas, e a disponibilidade das mulheres que me receberem nos mais diferentes dias da semana e horários para me auxiliarem neste estudo. Toda a pesquisa é uma surpresa, nunca sabemos ao certo o que vamos encontrar em campo, mas eu acredito que a sinceridade em relação aos objetivos do estudo e o respeito pelo outro garantem uma estadia harmônica e proveitosa para todos.


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