Voz do Autor – Entrevista com a Profª. Marinês dos Santos Ribeiro, autora da Editora da UFPR

A autora discute as influências do design Pop no Brasil na década de 1970 e a evolução das artes visuais

Em 18/07/2016 16:33

Entrevista por ABEU

Voz do Autor – Entrevista com a Profª. Marinês dos Santos Ribeiro, autora da Editora da UFPR

Esta semana, a coluna A Voz do Autor conversa com a Profa. Marinês dos Santos Ribeiro, autora com publicações pela Editora da UFPR. Graduada em Desenho Industrial pela Universidade Federal do Paraná, com mestrado em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Marinês possui ainda doutorado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, além de ser professora do Departamento Acadêmico de Desenho Industrial e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia na UTFPR. Na entrevista, a autora comentou sobre temas relacionados ao seu livro “O Design Pop no Brasil nos anos 1970”, comentando as influências da época e a evolução das artes visuais ao longo dos anos.

1. Em seu livro “O Design Pop no Brasil nos anos 1970”, você faz um apanhado da evolução de movimentos da arte até o pop. Como você avalia esse resgate de elementos da arte pop de décadas passadas? É apenas um sentimento de nostalgia ou é resultado de novos artistas explorando influências?

O livro tem como foco o design e a decoração de interiores nos anos 1970. Para abordar a incorporação da linguagem pop no design brasileiro a partir das reportagens publicadas na revista Casa & Jardim, foi preciso discorrer sobre a transição de uma ênfase no funcionalismo – que caracterizou a produção dos anos 1950 e 60 – para a linguagem pop, eleita no periódico como representativa da “modernidade” dos anos 1970. Cabe observar que em termos de produção cultural a perspectiva de um processo evolutivo não me parece muito pertinente. O que tentei argumentar é que as transformações nas linguagens estão sempre articuladas às transformações culturais, econômicas, políticas e tecnológicas em curso nas sociedades. O diálogo da linguagem pop com referências do passado foi uma estratégia de contraposição ao modernismo funcionalista. A austeridade das formas simples e puras e de um suposto vocabulário formal universal é confrontada pela exuberância das propostas pop, onde a desconstrução das tipologias convencionais e a busca por soluções de grande impacto visual estão associadas aos movimentos de contracultura e à revolução comportamental que ganharam força na época. No caso brasileiro, também é preciso levar em conta o contexto de repressão da ditadura militar, onde manifestações de rebeldia juvenil podiam ser interpretadas como afrontas à ordem vigente.

2. Em sua pesquisa você analisa como as tendências artísticas passaram por transformações muito relacionadas aos momentos vividos em cada época. Quais você acha que são as principais influências nos movimentos e mudanças sofridas pelo design?

No que diz respeito especificamente à linguagem pop, é preciso considerar a sua ligação com o cotidiano das grandes cidades, com o consumo de massa e com a cultura industrializada. Ao longo dos anos 1960, o envolvimento do design com a linguagem pop resultou em uma série de artefatos ligados a uma abordagem informal e bem-humorada, marcando uma posição oposta ao previsível, à padronização, às boas maneiras e à moderação. Características como baixo custo e descartabilidade respondiam ao desejo por variedade e permitiam a troca constante de mercadorias. Da opção pelo efêmero decorre a oferta contínua de novidades, sustentada em um amplo espectro de referências. Sendo assim, o design pop precisa ser entendido como uma tipologia formal em constante renovação, apoiada no descompromisso do descartável. A influência das artes plásticas foi significativa e diversificada. No diálogo com a Pop Art, houve o interesse compartilhado pela iconografia da cultura de massa. O recurso da Op Art de promover sensações de volume em superfícies planas por meio da combinação de cores e padrões abstratos foi aplicado em inúmeros tipos de substratos, como tecidos, papéis de embrulho, papéis de parede, laminados plásticos e revestimentos cerâmicos. A disposição para o revivalismo almejava tanto contrariar a orientação progressista do modernismo, quanto restabelecer a valorização dos ornamentos e padrões decorativos presente em estilos suntuosos como o Vitoriano, o Art Nouveau e o Art Deco. Já o apoio na cultura psicodélica e no estilo étnico adotado pela comunidade hippie contestava a crença no racionalismo ocidental. O imaginário mobilizado pela corrida espacial disputada entre as duas superpotências que emergiram da Segunda Guerra, a saber, os EUA e a URSS, firmou-se como outra influência importante. A possibilidade de sonhar com a “era espacial” instigou a criação de um repertório de formas futuristas baseado nas linhas orgânicas, nos materiais sintéticos e na combinação do prateado com o branco. Na produção brasileira, o diálogo o Tropicalismo foi premente. Por meio de estratégias e propostas irreverentes, o design pop estabeleceu seus próprios parâmetros em antagonismo ao ideário modernista. Contudo, isso não significa uma antítese à modernidade. O pop propalava uma outra maneira de ser moderna/o, interessada na expressão pessoal e na satisfação imediata.

3. Por fim, em um momento que o mundo descobre novas inspirações graças às tecnologias digitais, permitindo buscar, com a ajuda da internet, novas referências antes desconhecidas para artistas de todo o mundo, podemos dizer que vivemos uma junção de movimentos simultâneos nas artes plásticas e visuais?

Vale observar que o diálogo entre diferentes sistemas culturais não é um fenômeno exclusivo do contexto contemporâneo. As culturas se conformam por meio de misturas e estão sempre em transformação. Contudo, é inegável que vivemos em um momento em que, para uma parcela da população mundial, o acesso à informação se ampliou significativamente, possibilitando o alcance a uma grande miríade de referências. Mas não acredito que isso possa levar a uma homogeinização das linguagens artísticas. Digo isso levando em conta não apenas as questões relacionadas à desigualdade de acesso. Considero também os diferentes tipos de leituras e apropriações suscitados nesses processos de contato ou troca. Entendo que a produção cultural dialoga com os problemas que a vida em sociedade nos coloca. E as respostas a esses problemas, mesmo que informadas por múltiplas referências, sempre se dão localizadas em situações concretas das realidades cotidianas particulares.


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