Voz do Autor – Entrevista com o autor da Editus, André Mitidieri

O autor comenta a situação atual das políticas contra a homofobia no Brasil e sobre formas de romper com a discriminação e o preconceito.

Em 23/05/2016 15:57

Entrevista por ABEU

Voz do Autor – Entrevista com o autor da Editus, André Mitidieri

No último dia 17 de maio, celebrou-se o Dia Internacional Contra a Homofobia. Por isso, trouxemos para a coluna A Voz do Autor desta semana uma conversa com André Mitidieri, que recentemente organizou o livro Literatura, homoerotismo e expressões homoculturais, lançado pela Editus – Editora da UESC. Ao lado do seu colega Flávio Pereira Camargo, os autores trazem uma obra que discute o universo homoerótico ambientado na literatura, na música e nas discussões teóricas mostrando que, nos tempos de hoje, essas manifestações recebem outro olhar. Na conversa com a ABEU, Mitidieri fala sobre o atual estado das políticas contra a homofobia no Brasil e sobre formas de romper com a discriminação e o preconceito.

1. O reconhecimento do espaço dos homossexuais na sociedade é uma das grandes lutas dos direitos humanos no século XXI. Isso se reflete cada vez mais no debate público sobre questões homoafetivas e nas conquistas da população LGBT ao redor do mundo nos últimos anos. Ainda assim, a homofobia persiste. Como o senhor acredita que o diálogo pode ser feito com a parcela da sociedade que ainda está arraigada em velhos preconceitos e práticas discriminatórias?

Acredito que o diálogo pode ser buscado via movimentos sociais combativos, através de coletivos, organizações etc., como efetivamente tem sido feito no Brasil desde os anos de 1970, pelo menos, com a atuação de grupos como o Lampião de Esquina, em atuação que se avoluma com a redemocratização, a partir do final dos anos 1980. Outra forma vincula-se  à educação, constituindo exemplos significativos desse agenciamento a organização da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, de grupos de pesquisa relacionados à homoafetividade, como o Cultura e Sexualidade, de Salvador (BA), assim como seminários interdisciplinares, como Enlaçando Sexualidades e Desfazendo Gêneros. Uma outra forma ainda liga-se à participação na política nacional e, nesse caso, destacamos a combatividade do deputado Jean Willys nos tempos atuais. Uma forma não é autossuficiente, de maneira que a ação política empreendeu variadas tentativas de incluir a discussão sobre identidade de gênero nos parâmetros curriculares nacionais, ao lado das questões relacionadas às culturas indígenas, negras e afrobrasileiras. Diversos canais de discussão e atuação LGBTS somam-se a movimentos indígenas e negros, já que são esses os setores mais atingidos pela onda neoconservadora no país, sendo alvo de perseguição constante, de violência física e simbólica.

2. Em seu mais recente livro, "Literatura, homoerotismo e expressões homoculturais", o senhor discute como a literatura e outras formas de expressão tratam do tema do universo homoerótico. Como o senhor acredita que as artes podem contribuir para o debate acerca deste tema?

O livro Literatura, homoerotismo e expressões homoculturais é organizado pelo prof. Flávio Camargo e por mim, contemplando ensaios de pesquisadores brasileiros do campo literário e de outras artes, constituindo-se em mais um esforço no sentido de oferecer visibilidade a expressões culturais que não encontram espaço adequado nem na educação formal nem nas mídias hegemônicas. Nesse sentido, pode auxiliar a reverter quadros de medo, preconceito e desinteresse numa sociedade ainda excessivamente masculinista e homofóbica, como a brasileira.

3. Por fim, o que o senhor acredita que ainda falta, no Brasil, em termos de políticas voltadas para os direitos dos homossexuais, tema que ainda é um ponto de resistência no poder Legislativo, com a presença de parlamentares totalmente avessos a esta discussão?

Vivemos à estaca zero, vivemos tempos sombrios, na total contramão do que ocorre no restante do mundo democrático. Falta-nos tudo, mas, principalmente, o respeito. Isso pôde ser comprovado quando, no processo de golpe contra a presidenta Dilma Roussef, pudemos ver de perto a constituição moralmente precária e intelectualmente débil do Congresso Nacional. A situação agrava-se mais quando, na formação do governo provisório, não nos vemos contemplados, muito antes pelo contrário, quando desativado o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e dos Direitos Humanos e quando o ministério golpista se compõe exclusivamente de homens velhos, ricos, brancos e heterossexuais. Apesar de todo esse cenário sombrio, resistiremos por meio da arte, da educação e da efetiva luta política.


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