Voz do Autor — Entrevista com as organizadoras do livro "Impactos socioambientais da implantação da hidrelétrica Foz do Chapecó"

As autoras falaram sobre o modelo energético adotado no Brasil, suas razões e consequências

Em 07/06/2016 13:29

Entrevista por ABEU

Esta semana, a coluna A Voz do Autor trouxe uma conversa em conjuntos. Entrevistamos as 3 organizadores do livro "Impactos socioambientais da implantação da hidrelétrica Foz do Chapecó", publicado pela Argos Editora da Unochapecó. Márcia Luíza Pit Dal Magro, Arlene Renk e Gilza Maria de Souza Franco comentaram sobre a seleção de artigos para a obra, além de falarem sobre o modelo energético adotado no Brasil, que prioriza grandes obras de impacto ambiental, em detrimento de alternativas mais baratas e sustentáveis. Para as pesquisadoras, parece que não aprendemos nada com as crises energéticas passadas e o país também continua a insistir em estratégias que ignoram o bem-estar da população atingida diretamente pelas construções de hidrelétricas. Confira abaixo a entrevista completa:

1) Como se deu a seleção das pesquisas a serem incluídas na versão final do livro? Quais foram os principais critérios? Todas se originaram nos programas de Pós-Graduação Stricto Sensu em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais, em Ciências Ambientais e em Ciências da Saúde da Unochapecó?

Em primeiro lugar, os textos referem-se à temática do livro, ou seja, dos impactos sociais e ambientais da implantação de grandes hidrelétricas. De posse dos materiais, houve a seleção daqueles considerados mais representativos. Um critério foi o da qualidade. Outro o da representatividade de área de conhecimento, evitando monotemáticas. O livro abriga, principalmente, estudos do grupo de pesquisa “Estudos Ambientais da Bacia Hidrográfica do rio Uruguai”, o qual vem pesquisando o tema há quase uma década, grupo que integra professores vinculados aos Programas de Pós-graduação em Ciências Ambientais e em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais da Unochapecó. Há de se reconhecer que o volume abriga também textos de autores de outros programas de pós-graduação e de outras instituições, convidados e cujos materiais foram submetidos à seleção para integrar o volume.
 
2) Para você(s), o que de mais revelador se descobriu a respeito da implantação da usina hidrelétrica? Em uma época em que questionamos os impactos da implantação da usina de Belo Monte, você(s) avaliam que as mesmas preocupações se refletem no caso de Chapecó?

As hidrelétricas sempre terão impactos. Estes serão sempre problemas. Mas o mais grave dos problemas é a qualidade dos estudos como EIA RIMA realizados, nem sempre passíveis de confiabilidade. Acresce-se a isso a desconsideração em relação à população atingida, especialmente aqueles que se tornam “invisíveis” durante o processo de estudo, implantação e no pós-construção como pescadores artesanais, agricultores familiares e indígenas. A audiência pública, no singular, em cada margem do rio, é peça de ficção. Caberia uma série de audiências, nas diversas comunidades, de forma didática, e que houvesse interação entre empreendedores, autoridades e população, discutindo os procedimentos mais adequados para todo o processo da construção da obra, bem como o acompanhamento do processo pós-enchimento. Também é importante destacar que a cada ano resta menos a ser conservado quando se trata da biodiversidade, o que potencializa os impactos ambientais destas obras. Reitera-se, energia limpa torna-se peça de ficção. A desconsideração pela população envolvida deve ser melhor avaliada e revista, assim como os impactos sobre a biodiversidade. Somente com forte organização da sociedade local e com negociações coletivas é possível amenizar os impactos sociais e ambientais do empreendimento.

3) Por fim, você(s) acreditam que a matriz energética do Brasil é, de algum modo, arcaica, tendo em vista que ainda nos sustentamos em grandes obras de impacto ambiental, como é o caso das usinas hidrelétricas? Que alternativas poderiam ser utilizadas no fornecimento de energia no país?

Como descrito no capítulo 1, de autoria de Brack, Ruppenthal e Brack, as grandes hidrelétricas brasileiras são originárias de planos elaborados na década de 1970 pelo governo militar, retomadas em sua maioria pelo Programa de Aceleração do Crescimento. Desde que foram planejadas, o marco legal de proteção à sociobiodiversidade foi alterado e avançou, no entanto, isso não modificou os projetos de hidroeletricidade, que são comandados por grandes grupos econômicos, nacionais e internacionais, formando o que Bermann (2012) chama de “indústria das barragens”. Ignora-se, assim, os inúmeros impactos destes empreendimentos como o desaparecimento de milhares de hectares de florestas, modos de vida e de terras produtivas, bem como desprezam-se alternativas menos impactantes e com grande potencial energético, como a energia eólica, solar e bioenergética. Assim, precisamos avançar para a construção de um modelo energético diverso, não privatizado e sob controle da sociedade.


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