Voz do Autor - Entrevista com a Profª Maria Regina Cotrim Guimarães, autora da Editora Fiocruz

Em 12/09/2016 16:09
Atualizado em 10/10/2016 09:40

Entrevista por ABEU

Voz do Autor - Entrevista com a Profª Maria Regina Cotrim Guimarães, autora da Editora Fiocruz

O mais recente livro da professora Maria Regina Cotrim Guimarães é Civilizando as artes de curar. Lançado pela Editora Fiocruz, o livro, que faz parte da Coleção História e Saúde, trata de um aspecto pouco conhecido da história da Medicina no Brasil: os manuais autoinstrutivos. Publicados durante o Império, os livros eram voltados para a comunidade acadêmica, mas tiveram grande apelo popular por trazer formas práticas de tratar males do cotidiano. A profa. Maria Regina, que é médica infectologista, doutora em História das Ciências e da Saúde e pesquisadora da Fiocruz fala, na entrevista, sobre mais algumas curiosidades presentes em seu livro.

1. Profa. Regina, seu livro "Civilizando as artes de curar" aborda um aspecto da história da medicina no Brasil pouco conhecido do grande público. Como você acredita que estudos como este, voltados para a História da Saúde, podem nos ajudar a compreender o modo como o campo da medicina atua hoje em dia?

Há diversas análises aprofundadas sobre o ensino da medicina, a atuação do médico, as questões de saúde pública, de ética, redigidas por autores dos campos da história, antropologia, sociologia, filosofia, psicanálise e da própria medicina. As editoras ligadas a instituições de ensino e de pesquisa têm publicado obras de excelente qualidade sobre esses assuntos. O que considero mais difícil é que os profissionais da chamada “área da saúde” desenvolvam interesse no debate sobre seu próprio campo de atuação.

O meu livro analisa princípios e práticas médicas no Brasil do Império, e desejei contribuir para que os leitores entendessem o papel do Chernoviz nesse contexto. Mas também desejo que os médicos de hoje compreendam que sua prática não é a grande e definitiva verdade, e sim uma dentre várias possibilidades de se fazer ciência. Os atuais estudos em história da saúde analisam processos de construção de conhecimentos na área da saúde. Essas obras vêm apresentando uma doença ou uma bactéria enquanto produto de conhecimento não apenas da biologia, mas de negociações, conflitos e disputas. Trata-se de arranjos dentro das instituições médicas e dos espaços governamentais em que são tomadas decisões sobre implantação de determinadas políticas de saúde relacionadas a essa doença ou a essa bactéria. Da mesma forma, as publicações em história da saúde ajudam o leitor a entender o processo de construção das imagens de “grandes cientistas” e de “grandes médicos” que teriam ido “além de seu tempo”. A história da saúde utiliza um número imenso de fontes variadas (correspondências, jornais, documentos oficiais e pessoais, fotografias, entre outras) que fornecem indícios sobre os complexos processos de criação dessas trajetórias. Assim, deixa de lado uma história laudatória e procede a uma análise contextualizada nos tempos e nos espaços sociais e políticos.

2. Os manuais autoinstrutivos, analisados no livro, se complementaram à medicina popular durante o Império no Brasil, em uma época em que a organização profissional da medicina acadêmica começava a se estabelecer no país. Aqui, os manuais mais conhecidos foram elaborados pelo médico polonês Chernoviz, integrante da Academia Imperial de Medicina. Os livros vieram a se tornar best-sellers, sendo adotados pela população no dia a dia. A que se deve a apropriação tão disseminada de um conteúdo que era supostamente acadêmico? 

Quem não gostaria de ter à mão receitas para mordeduras de cobras venenosas e cães raivosos? Chernoviz percebeu, como vários autores de manuais de medicina popular, que a ausência de médicos no interior do Brasil poderia contribuir para o sucesso de seu empreendimento editorial. Ele se esforçou bastante para se aproximar de seus leitores, mostrando intimidade com o Brasil ao estudar nossas plantas medicinais e águas minerais, e ao buscar entender nossos hábitos, ao mesmo tempo em que divulgou conceitos estabelecidos pela medicina científica de sua época, em verbetes úteis e acessíveis às pessoas em geral, como “amor”, “banhos”, “cólica”, “botica doméstica” e “asfixia”. 

O teor de sua obra era, de fato, acadêmico. E, mais do que isso, constantemente atualizado. Um exemplo é a questão da combustão espontânea, cujas causas, acreditava-se inicialmente, estariam relacionadas, por exemplo, à ingestão de álcool associada a algum mecanismo intrínseco ao organismo, que gerava fogo. Posteriormente, Chernoviz reviu esse fenômeno e “se corrigiu”, afirmando que, à luz das explicações científicas, um corpo não poderia se incendiar sem fatores externos.   

3. Por fim, você saberia dizer o que herdamos desse "conhecimento médico" que se misturou às crendices e saberes tradicionais e que são usados até hoje em receitas de cura caseiras?

O atual contexto cultural, social e econômico é muito distinto daquele da época de Chernoviz. O conceito de saúde/doença e o acesso aos serviços de saúde sofreram grandes transformações ao longo do século XX. Mas algumas práticas de cura desacreditadas por novas teorias médicas permanecem no dia a dia das pessoas. Recentemente, a Organização Mundial de Saúde e o SUS incorporaram muitas delas ao seu repertório, com a perspectiva de inclusão dos diversos olhares sobre saúde e doença. Isso indica que hoje, no Brasil, convivem a medicina chamada de científica/ocidental e as medicinas dos curandeiros, dos pajés, das tradições africanas, além da homeopatia e de um extenso repertório muito valorizado pela clientela do final do século XX e início do XXI, chamado de alternativo: a medicina tradicional chinesa, a ayurvédica, as práticas de acupuntura, entre outras. 

Mas independentemente de serem aceitos ou desacreditados pelos órgãos médicos oficiais, “herdamos” conceitos e práticas médicas indígenas, anteriores ao período colonial, mesclados à presença dos portugueses e dos africanos escravizados. Depois que concluí a Residência Médica, presenciei um fenômeno comum no interior, durante uma campanha de vacinação contra o sarampo, no início dos anos 1980. Uma moça me explicou (enquanto seu filho era vacinado) que a melhor forma de se tratar essa doença era oferecer a metade de uma laranja para a criança doente e jogar no mato a outra metade. De acordo com essa moça, atirar no mato a metade da laranja fazia parte do tratamento do sarampo, o que representa uma medicina que lida com práticas da cura à distância do corpo doente, muito características de períodos bem anteriores ao da medicina de Chernoviz. Esse é apenas um exemplo que nos explica que todos os conhecimentos sobre as medicinas se organizam a partir de sistemas de crenças e que seus fundamentos nem sempre são importantes para os praticantes daquela cura. Tais práticas persistem enquanto as pessoas lhes dão algum sentido, que nem sempre relaciona ciências a verdades.


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