A Voz do autor

O historiador Claudefranklin Monteiro fala sobre como acontecimentos locais nos levam a entender o universal

Em 29/01/2018 15:38
Atualizado em 30/01/2018 00:35

Entrevista por ABEU

A Voz do autor

Em nossa entrevista com o historiador Claudefranklin Monteiro para a primeira coluna “A Voz do Autor” de 2018, ele faz uma reflexão sobre sua trajetória como pesquisador: inspirado em uma frase do escritor russo Leon Tolstói, ele partiu da sua aldeia para compreender o universal. E a aldeia de Claudefranklin é o município de Lagarto, em Sergipe, onde ele estudou as manifestações culturais da tradicional Festa de São Benedito para escrever “Contradições da Romanização da Igreja no Brasil”, publicado pela Edise.

 

Graduado em História e com mestrado em Educação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), o autor é uma grande referência para o estudo da história de sua cidade natal, tendo sido um dos fundadores da Faculdade José Augusto Vieira, onde criou o curso de História. Além disso, ingressou no Departamento de História da UFS e lá finalizou o doutorado em 2013, sendo também sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Na entrevista, Claudefranklin mostra como Lagarto o ajudou a compreender fenômenos maiores da história do país, no caso, a romanização da Igreja Católica, e como sua constante pesquisa sempre revelou novas descobertas.

 

1) Quais foram as motivações para pesquisar de forma aprofundada a Festão de São Benedito que ocorre em Lagarto? E por que partir de uma manifestação cultural e religiosa local para falar justamente da romanização da Igreja Católica no Brasil como um todo?

 

Durante toda a minha formação acadêmica, até me decidir por fazer o doutorado em História, nunca havia tido como objeto de pesquisa algo que dissesse respeito à História de Lagarto, minha cidade natal. Estava em dívida com as minhas origens e resolvi atender a essa demanda pessoal e coletiva da melhor forma possível. O Prof. Dr. Cândido da Costa Silva (UFBA/UCSAL) chamou minha atenção para o potencial histórico da religiosidade lagartense, sobretudo a de caráter popular, como a Festa de São Benedito, realizada entre os séculos XVIII e XX, com muito entusiasmo e fervor. A festa sofreu os efeitos de um processo, verificado no seio da Igreja Católica, que se convencionou chamar de Romanização. À luz da máxima de Leon Tostói, parti da minha aldeia para compreender o universal.

 

2) O trabalho de pesquisa que envolveu a elaboração do livro "Contradições da romanização da Igreja no Brasil" durou aproximadamente 20 anos, certo? Gostaria que falasse um pouco sobre esse processo que demandou uma aprofundada coleta de dados. O que mais o fascinou nas descobertas que ia fazendo ao longo da pesquisa?

 

Sim, digo dessa forma porque desde o ano de 1996 que assumi o compromisso de aprender sobre a História do meu lugar. O fiz, durante anos, como exercício de escrita e reflexão, com a publicação de livros e de mais de trezentos textos, entre artigos para jornais, revistas, magazines e meios de divulgação científica. Ao longo desses anos, fui coletando fontes e procurando revisar equívocos, ao mesmo tempo em que acrescentava algo mais aos que me antecederam. Tive a felicidade de formar toda uma nova geração de historiadores lagartenses que, como eu, procuraram dar continuidade ao legado do historiador Adalberto Fonseca, com a criação de um curso de História pela Faculdade José Augusto Vieira, em 2004, onde estimulei estudos de história, memória e cultura local. Essa troca de ideias e a possibilidade de contribuir para a história de Lagarto me fascinou e ainda me fascina. Embora minhas investidas atuais estejam para além de Sergipe, mas sempre com o olhar voltado para as questões locais.

 

3) Por fim, o que o estudo da Igreja Católica pode nos mostrar sobre nosso país? O que podemos aprender sobre a relação do brasileiro com as religiões?

O estudo da Igreja Católica é complexo, mas traz grandes contribuições para a compreensão da formação histórica e cultural do Brasil. A história do país está impregnada de elementos religiosos cristãos, multifacetados, e a reflexão em torno das práticas culturais presentes nelas abre inúmeras possibilidades de pesquisa no campo das ciências humanas e sociais.

 


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