A Voz do Autor

Attico Chassot fala de sua vida dedicada à Educação e ao Ensino, destacando temas de um de seus livros publicados pela Editora Unijuí

Em 18/06/2018 00:12

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Poucos são aqueles profissionais que podem dizer que dedicam a vida a uma causa nobre. Attico Chassot, nosso entrevistado esta semana na coluna A Voz do Autor é um desses profissionais. Em seu caso, boa parte de sua trajetória foi voltada ao Ensino e à Educação. Já com 79 anos e professor desde março de 1961, Chassot atuou na Educação Básica em diversas escolas, em cursos pré-vestibulares e no Ensino Superior, sendo professor de universidades como a PUC-RS, FAPA, UFRGS (onde foi coordenador do curso de Química e diretor do Instituto de Química), além da Ulbra, Unisinos, onde foi coordenador do mestrado e doutorado em Educação. Foi ainda professor visitante na Aalborg Universitete, na Dinamarca, e atua também como professor-pesquisador e orientador de doutorado na REAMEC – Rede Amazônica Ensino de Ciência.

Na entrevista, Chassot falou sobre suas publicações, entre as quais o clássico livro “Para que(m) é o útil o ensino”, da Editora Unijuí, e ainda a respeito da crônica negligência do brasileiro com a educação, além de ter contado um pouco sobre o que o motiva a continuar ensinando.  

O seu livro publicado pela Editora Unijuí busca apresentar alternativas de ensino que sejam estimulantes para alunos e proveitosas para professores, de modo a criar um ambiente educacional mais produtivo para todos. Mas no título sua obra traz uma espécie de provocação: "Para que(m) é útil o ensino?". Poderia comentar sobre a escolha dessa pergunta diante dos temas abordados?

Por primeiro parece oportuno referir que “Para que(m) é útil o ensino?” (1995, 1ª ed.) é um dos meus seis livros ora em circulação. Honro-me em destacar que, destes, quatro são de editoras universitárias. Este livro foi tecido com excertos de minha tese de doutorado na UFRGS, em 1994, “Para que(m) é útil o ensino de Química?” Esta é uma quarta edição ampliada. Quase um quarto de século pode parecer muito tempo, especialmente se nos dermos conta que entre nós a gênese dos estudos no ensino das Ciências é da última década do século XX. Os livros envelhecem (ou, talvez, maturam) com velocidades muito diferenciadas. Mesmo podendo ser colocado em suspeição, ouso afirmar que este livro é ainda atual.  
Está bem-posta a afirmação de que o título traz uma espécie de provocação. Não foi confortável constatar, depois de já ter sido professor há mais de três décadas, que a maioria do que se ensinava acerca da Química na Educação Básica era inútil ou não tinha serventia. Este livro traz alternativas para um ensino mais útil na busca da cidadania.

Hoje, se perguntarmos a qualquer cidadão ou representante político estes dirão que a educação é certamente uma área de suma importância para a formação de uma sociedade mais igualitária, desenvolvida e digna. Este discurso é um típico lugar-comum dito pelas pessoas: a educação é algo positivo para o crescimento de um país e ninguém nega este fato. No entanto, por que continuamos a ter problemas crônicos na educação brasileira, na infraestrutura de escolas e na condução de pesquisas mesmo no Ensino Superior? Há uma hipocrisia na forma com que tratamos a educação?


É quase um senso comum que a Educação é muito importante para a construção digna de uma sociedade mais justa. Provavelmente há consenso nisso. Mas, lamentavelmente, isso é uma utopia. Hoje, com a Educação transformada em mercadoria – e uma mercadoria muito bem valorizada e muito apetecível ao mercado –, ela promove exatamente o contrário: um mundo mais injusto. Se Educação de qualidade é apenas para alguns, teremos cada vez mais injustiças sociais. Hoje parece mais atual a afirmação que coloquei na portada do sexto capítulo: “A (re)produção do conhecimento químico” – Se a educação que os ricos inventaram ajudasse o povo de verdade, os ricos não dariam dessa educação pra gente (frase que recolhi afixada em um cartaz, na Fundep/DER, em Braga/RS).

Por fim, gostaríamos de saber o que ainda o impele a ser um professor tão atuante até hoje, mesmo com mais de 50 anos lecionando e com presença em diversas instituições de ensino.

Vou tentar trazer respostas a esta pergunta –- que tem sido muito recorrente ao professor que no próximo ano (2019) se fará octogenário –- em duas dimensões. Numa sou o receptor das ações e em outra sou o doador.

Tenho dito (e ainda escrevi recentemente em <mestrechassot.blogspot.com>) que há ações – como estar a quase cada semana em estado diferente do Brasil dando palestras – que tonificam ou revitalizam meu ser professor. Metaforicamente, é a dopamina que preciso para potencializar necessidades a um pleno funcionamento de meu cérebro. Envolvo-me há mais de cinco anos na REAMEC (Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática) em um (ex)(in)tenso voluntariado que inclui ministração de seminários nos estados amazônicos, presença em atividades docentes e orientação de teses doutorais. As semanas que não tenho viagem sinto uma abstinência dessa “dopamina”.

A segunda dimensão à resposta desta pergunta está referida ao contexto onde está inserta esta entrevista: Associação Brasileira das Editoras Universitárias. Tenho brincado que se um dos critérios para um bom lugar no paraíso (que, parafraseando Gaston Bachelard, deve ser uma imensa biblioteca) for o número de livros transportados, eu só perco para livreiros. Tenho orgulho de eu já ter disseminado livros em cada uma das 28 unidades da federação. Sinto-me um mascate levando sempre uma mala de livros. Posso dizer que para centenas de jovens brasileiros eu oportunizei terem um primeiro livro autografado. Não é sem a minha contribuição física que “A Ciência é masculina? É, sim senhora!” (Editora Unisinos) chegou à 8ª edição em 2017, ou que “Alfabetização científica: questões e desafios para a educação” (Editora Unijuí) terá seu relançamento em Belém em junho de 2018. Devo dizer que de todos os livros que escrevi, este é o meu preferido. Talvez porque desde a primeira edição, em 2000, os direitos autorais de todas as edições são destinados ao Departamento de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Estas são as duas dimensões: numa, sou o receptor porque o meu ser professor é revitalizado pelas minhas ações; e na outra, sou o doador, pois com o semear de livros ensejo que meus leitores se envolvam na construção de um mundo mais justo.

 


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