A Voz do Autor

Marcelo Ferraz, autor da Edunila, fala sobre a criação do ideal de América Latina na poesia de Thiago de Mello e Ferreira Gullar

Em 03/07/2018 01:31

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

É possível encontrar sua identidade cultural na escrita? Mais ainda, através do lirismo? De certo modo, é o que Marcelo Ferraz de Paula, o nosso entrevistado da coluna A Voz do Autor, buscou entender. Escritor do livro “Poesia e diálogos numa ilha chamada Brasil”, publicado pela Edunila, ele parte principalmente da produção de Thiago de Mello e de Ferreira Gullar para analisar como criou-se um ideal de América Latina a partir de seus textos poéticos. Doutor em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo e professor efetivo da área de Teoria Literária e Ensino de Literatura da Universidade Federal de Goiás, Ferraz traz ainda em sua obra análises de outros autores, principalmente músicos, na tentativa de compreender como estes artistas moldaram a identidade latino-americana.
Confira a conversa completa: 

Seu mais recente livro, "Poesia e diálogos numa ilha chamada Brasil", trata principalmente da poesia de Ferreira Gullar e de Thiago de Mello. Por que focar o estudo nos escritos desses dois poetas? O que a obra de ambos traz de relevante que mereça ser exaltado? 

A proposta do livro era, desde o início, refletir sobre os diálogos que a poesia brasileira estabeleceu com certo ideal de América Latina unida, muito intenso ao longo da segunda metade do século XX. É fácil perceber que vários artistas brasileiros daquele período investiram no tema da latinidade, incorporando em suas obras um horizonte comunitário. Em alguns autores essas referências são isoladas e voluntariosas, em outros são mais numerosas. Mas tenho a convicção de que em Ferreira Gullar e Thiago de Mello a figuração de um diálogo latino-americano é de fato definidora dessas duas poéticas, um ponto central de suas trajetórias. Foi essa convicção que me levou aos poetas, mas a partir dela fui encontrando uma série de convergências entre os dois autores, o que confirmou a pertinência da escolha. Por exemplo, o exílio no Chile durante a queda de Allende, a passagem rápida pela poesia popular-revolucionária, o diálogo muito íntimo com poetas hispano-americanos, dentre outros pontos explorados no decorrer da análise. De fato, o espaço que os dois autores ocupam no panorama da poesia brasileira contemporânea é bem distinto, sendo Gullar um poeta canonizado e prestigiado, e Thiago de Mello um autor, se não desconhecido, muito mal visto nos meios acadêmicos brasileiros. Isso se mostrou um desafio em alguns momentos da pesquisa, mas também uma potencialidade analítica que procurei explorar ao longo do livro.


Em "Poesia e diálogos numa ilha chamada Brasil", você também monta paralelos entre a poesia dos dois autores e a história da América Latina. Em que sentido a literatura pode servir de janela para entender o contexto vivido pelos autores no momento da criação de suas obras e vice-versa?

A identidade latino-americana que encontramos nestes dois poetas não é um conceito abstrato e irrecusável, como alguns podem supor à primeira vista. A América Latina é, ali, uma figura-ideia acionada em um contexto de intensa luta política, por isso marcada por contradições, apropriações e tensões. A formulação estética é constantemente atravessada pelos eventos políticos daquele período: as ditaduras que assolaram vários países do continente, a Revolução Cubana, o golpe no Chile, o exílio imposto a diversos intelectuais de esquerda. As pontes entre a história e a literatura não são simples; é preciso evitar determinismos, desconfiar muito das relações mais automáticas entre texto e contexto. Por outro lado, ignorar tais articulações levaria ao esvaziamento do que há de mais poderoso nestas obras e impediria inclusive a compreensão de seus limites. Uma questão que me parece central ao longo do livro é entender o que esses poemas ainda continuam significando para nós, leitores de outro tempo, deste tempo de globalização neoliberal que ignora laços culturais em privilégio das negociações comerciais. Portanto é importante pensar o que estas produções dizem sobre um determinado período da história do nosso país, mas também o que insistem em gritar para nós, leitores de hoje.

O livro também traz em destaque canções americanistas de diversos autores latino-americanos, como Pablo Neruda, Salvador Allende e Belchior. Em que ponto a produção literária desses escritores se relaciona com o foco principal do livro e com a obra de Gullar e Thiago de Mello? 

Embora eu tenha insistido anteriormente na razão da escolha por Gullar e Thiago de Mello, me pareceu necessário demonstrar que o interesse pela América Latina foi robusto na cultura brasileira e nos círculos hispano-americanos. Neruda tem uma posição de destaque neste cenário, pelo prestígio de sua obra e sua relevância política. A proximidade dele com o Brasil sem dúvida impulsionou vários diálogos importantes entre intelectuais do continente. Foi, inclusive, amigo muito próximo de Thiago de Mello. No discurso político, a questão da latinidade também era marcante. Salvador Allende era um exemplo – e Gullar tem três poemas, de momentos muito diferentes de sua trajetória, que dialogam diretamente com ele –, Che Guevara outro, muito importante, até pela aura mítica criada em torno dele após sua morte. Os diálogos na música popular também merecem destaque. Belchior, no Brasil, a meu ver, é o que configura uma poética mais pessoal que aborda o anseio de se reconhecer latino-americano, mas passo por outros nomes importantes de nosso cancioneiro, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Milton Nascimento.

   


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