A Voz do Autor

Entrevista com Luciana Brito, autora da EDUFBA ganhadora do Prêmio Thomas Skidmore 2018

Em 23/06/2019 13:13
Atualizado em 24/06/2019 19:33

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Esta semana, na coluna A Voz do Autor, trouxemos uma entrevista realizada pela EDUFBA com uma de suas autoras: Luciana Brito, que escreveu “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”. A obra ganhou o Prêmio Thomas Skidmore em 2018, que é promovido pelo Arquivo Nacional e a Brazilian Studies Association (BRASA), e homenageia o brasilianista norte-americano e professor emérito da Brown University. O tema corresponde à obra clássica de Thomas Skidmore, cujo título é “Preto no Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro (1870-1930)”, resultado de um estudo pioneiro realizado nos anos 70.

Luciana Brito é se graduou em História pela Universidade Federal da Bahia, realizou mestrado em História Social pela Unicamp e doutorado na Universidade de São Paulo. Foi ainda bolsista do Programa Cor da Bahia/UFBA, quando estudou por um semestre na Howard University. Em 2011, foi bolsista de doutorado da Fundação Fulbright/Capes-Brasil e, em 2015, realizou seu pós-doutorado na City University of New York. A autora comenta, na entrevista, o que a vitória do Prêmio Thomas Skidmore representa para ela e também explica como as desigualdades raciais se refletem na sociedade brasileira de hoje e o que falta para o Brasil superar o racismo.

Como foi receber a notícia de que havia ganhado o Prêmio Thomas Skidmore 2018? O que essa vitória representa para você?

 

Recebi o prêmio com muita alegria. Minha família, minhas amigas e amigos, minha comunidade acadêmica na UFRB, todos estamos muito felizes e orgulhosxs. Essa vitória representa a celebração de uma intensa dedicação pessoal ao estudo, sobretudo sendo eu uma mulher negra, baiana e das classes populares. Portanto, acima de tudo, essa é uma vitória da educação pública, da universidade pública, gratuita e de qualidade e reafirmo a importância dela para a sociedade brasileira.

 

Como as desigualdades raciais cultivadas ao longo de nossa história refletem na sociedade brasileira de hoje?

 

As desigualdades raciais se refletem na política de terras, que ameaça e desrespeita direitos das populações indígenas e quilombolas, uma vez que as elites agrárias nacionais não reconhecem essas populações como legítimas detentoras de direitos sobre os territórios onde vivem. A concentração de renda, o acúmulo de privilégios e a noção que pessoas brancas, por serem brancas, ainda que pobres, devem, por direito e por costume, ocupar um lugar social privilegiado em relação às populações negras e indígenas, tudo isso tem explicações históricas.

 

A sociedade brasileira tem um etos escravista, na forma como nos relacionamos, nas nossas práticas sociais, no cotidiano em que pessoas negras e brancas interagem reforçando noções do que é feio, do que é bonito, de quem limpa, de quem carrega coisas, de quem é o tal “cidadão de bem”, de quem merece morrer e quem merece acessar a universidade e ter os melhores empregos, tudo isso caminha de mãos dadas com nosso passado escravista, com o racismo científico e as práticas discriminatórias mantidas e elaboradas durante o Brasil republicano. As elites nacionais não querem a igualdade e não entendem (nem querem entender) direitos, pois têm medo disso. As elites nacionais querem privilégios e fazem isso há séculos.

 

O que e quanto falta para o Brasil superar o racismo?

 

Essa é uma questão difícil porque demanda uma mudança estrutural na organização da sociedade brasileira. Estamos falando de cidadania, dignidade e respeito à maioria da população brasileira. Isso perpassa pela educação, políticas de saúde, de segurança pública e inclusive um pacto nacional entre as pessoas negras e brancas desse país, de diferentes classes sociais e gêneros.

 

Por exemplo, é importante que as pessoas brancas, membros da classe dominante ou não, se comprometam da seguinte forma: “eu não aceito que pessoas negras tenham um tratamento e lugar social inferior ao que eu tenho”. Bem, mas as pessoas negras, maioria no país, não podem esperar que isso aconteça, pois pode até mesmo não acontecer. É por isso que políticas públicas de combate ao racismo e às desigualdades são tão importantes.

 

Como descreveria o empoderamento negro e qual sua importância?

 

Essa pergunta se relaciona com a anterior. O empoderamento das pessoas negras, seja financeiro, educacional, psicológico, social, cultural ou político, é o que pressiona a sociedade para as mudanças estruturais necessárias de combate ao racismo. É o outro lado do pacto nacional entre pessoas negras e brancas no Brasil. Quando as pessoas negras assumem a seguinte postura: “Eu não aceito ser tratadx de forma indigna por ser uma pessoa negra, nem tratarei uma pessoa negra como eu dessa forma”, isso é empoderamento.

 

Sem essa consciência a sociedade não sai da sua zona de conforto, que é sustentada no racismo, no machismo, na homofobia. Prova disso é que, quando a população negra começou a assumir uma postura empoderada, fruto de décadas de trabalho dos movimentos negros, sobretudo na última década, a sociedade brasileira respondeu com ressentimento e retrocessos, que se manifestam sobretudo em práticas abertamente racistas.


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