A Voz do Autor

Carla Paiva, autora da Eduneb, fala sobre movimento feminista e cinema no Brasil

Em 26/08/2019 17:47

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Estamos testemunhando uma nova onda do movimento feminista, cujas pautas se veem mais presentes nas mídias de massa. Até atrizes e demais personalidades públicas passaram a se posicionar sobre reivindicações históricas das mulheres, publicizando a luta por igualdade de direitos. Mas, logicamente, as tentativas de questionar os papéis de gênero não são atuais. É o que mostra Carla Conceição da Silva Paiva no livro “Feminismo no cinema brasileiro da década de 1980”, publicado pela Eduneb. A pesquisadora, ao longo da entrevista, neste retorno da coluna A Voz do Autor, fala sobre a representação das mulheres no cinema tomando como referência 4 filmes nacionais icônicos.

Graduada em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia, com mestrado em Educação e Contemporaneidade também pela Uneb e doutorado em Multimeios pela Unicamp, Carla Paiva oferece sua perspectiva sobre sexualização da mulher na mídia, formas de representar o feminino e relações entre o movimento feminista atual e de 30 anos atrás.

Seu livro, "Feminismo no cinema brasileiro da década de 1980", trata da representação de mulheres nesse período, focando mais especificamente em 4 obras: Gabriela (de 1983), Parahyba, mulher-macho (de 1983), A hora da estrela (de 1985) e Luzia-Homem (de 1987). Qual foi a importância dessas representações para o movimento feminista na época, levando em conta que o cinema nacional vinha de um histórico de exploração da imagem da mulher nos filmes da pornochanchada? Como esses filmes ajudaram a representar figuras femininas para além da visão sexualizada da época?

A análise da construção do protagonismo das mulheres nordestinas nos filmes GabrielaParahyba, mulher-machoA hora da estrela Luzia-Homem, pelas modificações presentes em seus roteiros em comparação com as obras literárias em que essas narrativas audiovisuais são “inspiradas”; pelo teor latente no conjunto de suas imagens; e pela representação explícita e implícita de diversas personagens, para além de suas protagonistas e emprego de diferentes meios e métodos que compõem o discurso cinematográfico, permitiram concluir que o cinema brasileiro da década de 1980 dialogou com o movimento feminista. Nos quatros filmes, é possível perceber linhas de fuga de alguns padrões machistas e patriarcais da época, bem como contestações sobre a posição das mulheres na sociedade. Por exemplo, em A hora da estrela, há um diálogo explícito sobre o aborto. As protagonistas dos filmes não são totalmente alienadas e suas ações não são inócuas em termos de rompimento com as regras sociais. Todas, quando examinadas por uma “lupa” de relações de gênero, expõem estratégias diferenciadas de deslocamento com a sociedade fictícia de seu tempo, na maior parte dos casos; sua grande diferença era a negação e fuga do casamento como solução para os problemas e da maternidade como algo inato às mulheres. Temas ainda hoje bastante “caros” para os movimentos das mulheres.

Por essas e outras observações, podemos afirmar que, nesses filmes, há um rompimento com algumas características do cinema brasileiro da década de 1980, fortemente marcado pela pornochanchada, e uma aproximação estética e temática, em maior ou menor grau, com o cinema realizado por mulheres nos anos 1970 e 1980, em diversos países, a partir da seleção de acontecimentos e características cinematográficas, como o uso de símbolos feministas na trama, como a flor de hibisco, espelhos e alguns animais. Em linhas gerais, o que defendemos no livro é que, em patamares distintos, as quatro protagonistas – Gabriela, Anayde, Luzia e Macabéa – se insurgem contra a sua vida ordinária, imposta pelo padrão social patriarcal e limitada ao ambiente familiar. Elas são emancipadas desses limites. Essas mulheres parecem negar o “feminino” aceito, normalmente, no ambiente social ficcional, e reivindicam outras formas distintas de “ser mulher”. Elas buscam sua independência no espaço público, todavia retornam ao sítio da intimidade para se relacionar com o “outro”, buscando preservar sua identidade, e, caso seja necessário, abandonam o registro do amor. Elas exprimem as tensões, possibilidades, ambiguidades, contradições, conflitos, dúvidas e anseios das mulheres brasileiras na década de oitenta e, certamente, configuram modalidades refinadas e complexas acionadas pelos diretores e diretoras para, em meio às mutações profundas individuais e sociais, captar, representar e expressar um feminino em transição na sociedade brasileira.

O fato das protagonistas dos filmes abordados no livro serem nordestinas é ainda mais representativo por lançar um novo olhar sobre as mulheres da região? Nesse aspecto, você considera que os filmes reproduzem estereótipos regionais, considerando que as próprias atrizes que interpretam as personagens não são elas mesmas nordestinas, como Sônia Braga, em Gabriela, e Cláudia Ohana, em Luzia-Homem?

Sim. O Nordeste permeia toda a cinematografia brasileira, robustecendo a ideia de um espaço genuinamente brasileiro, símbolo representativo da experiência nacional, servindo como referência de regionalidade para o povo brasileiro. Essa representação acabou consolidando alguns estereótipos, signos de nordestinidade, como gostamos de falar, que remetem essa região à ideia de atraso, conservada por dicotomias, como rural versus urbano, tradição e modernidade etc, que aparecem nessas quatro narrativas. No entanto, destacamos que em algumas tramas cinematográficas da década de 1960, durante o movimento do Cinema Novo, e nos próprios anos 1980, o Nordeste aparece como o “lugar” em que a exacerbação das várias formas de opressão poderia produzir a ruptura revolucionária que libertaria não apenas a região, mas toda a nação.

Aqui reside, para nós, o principal interesse dos diretores e diretoras estudados terem escolhido mulheres nordestinas para protagonizar ações que indicariam a degradação e a decadência do patriarcado, anunciando assim possíveis mudanças na forma de representar o feminino no cinema hegemônico. Devemos lembrar também que há um pioneirismo das mulheres nordestinas na luta feminista. Dois bons modelos são a lendária Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, e a presença forte, nos anos 1980, tanto das deputadas baianas quanto de grupos de mulheres nordestinas na Assembleia Constituinte, colaborando com propostas de emendas advindas de associações de bairros periféricos. Por fim, o lugar de destaque nesses quatro filmes por si só assegura às mulheres um lugar privilegiado nas representações de identidade de gênero, indicando uma crise do simbólico da dominação masculina.

Por fim, quais paralelos você enxerga entre as tentativas de dar maior representatividade à mulher no cinema na década de 1980 e atualmente, em que uma nova onda do feminismo reivindica maior diversidade para personagens femininas fora dos papéis de gênero nos produtos audiovisuais como um todo?

Para nós, não existe separação entre experiência estética e perspectiva política na concepção cinematográfica, por isso no contexto dos quatros filmes é forte a presença de conteúdos históricos e sociais que remetem às lutas políticas a favor da democracia, mas, principalmente, à igualdade de direitos entre homens e mulheres. Historicamente, há uma intensificação nas discussões sobre gênero e direitos das mulheres na década de 1980, e as feministas, que se encantaram com as facilidades do vídeo como meio de comunicação e arte, passaram a considerar esse tipo de produção cultural relevante para abordar suas questões, dirigindo-se a outros movimentos populares. Assim, a produção dos vídeos feministas se consolidou no país a partir de 1983, abordando temáticas femininas que passaram a ser exibidas em salas de aula, nas tevês de sindicatos e programações nos centros culturais. Foi possível conquistar espaço, inclusive na TV, através de programas, como o “Feminino Plural”, exibido em 17 cidades do país. A penetração do movimento feminista nas mídias seguiu estimulando mulheres a criarem seus próprios meios de comunicação, como jornais, revistas, vídeos etc. e o cinema seguiu essa onda, produzindo novas formas de representação sobre as mulheres.

Contemporaneamente, infelizmente, as bandeiras de luta feministas ainda permanecem quase as mesmas, porque avançamos muito pouco em relação à igualdade entre os gêneros e o respeito à diversidade sexual na nossa sociedade. Assim, essa “nova” onda de protestos feministas reivindicando maior diversidade de personagens femininas, na verdade, é uma luta contínua que se iniciou no começo da década 1970, com as primeiras abordagens feministas relacionadas ao cinema. A maioria desses estudos nasce com uma proposta de pensamento sobre a forma de representação do lugar próprio do universo feminino, normalmente circunscrito ao espaço familiar e ao ambiente doméstico; avança pela reflexão sobre o estilo, as hierarquias e os processos de produção industriais cinematográficos, que até então limitavam a atuação profissional das mulheres a atrizes e poucas atividades técnicas, como na montagem de figurinos e cenários; reconfigura as teorias da espectatorialidade, questionando as formas de exibição e a exploração sexual do corpo das atrizes; e, hoje, luta pela consolidação total de todas essas bandeiras, porque de lá para cá pouca coisa mudou. Ainda não há igualdade de direitos entre homens e mulheres tanto nas telas como em seus bastidores, porque o campo da cultura funciona como um espaço de dominação masculina muito grande. Uma estratégia feminista interessante tem sido os coletivos de mulheres cineastas e a forma como elas estão utilizando as redes sociais e a internet, mas esse é assunto para um outro livro (risos).

 


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