A Voz do Autor

Ione Valle, autora da Editora UFSC, usa a Sociologia para analisar o Brasil atual

Em 23/09/2019 01:39

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

A coluna A Voz do Autor traz dessa vez uma conversa sobre Sociologia com Ione Ribeiro Valle. Com doutorado pela Université de Paris V – Sorbonne, pós-doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Ione é professora do Centro de Ciências da Educação da UFSC e coordenadora do Laboratório de Pesquisas Sociológicas Pierre Bourdieu. Por meio do seu conhecimento das obras de sociólogos como Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, a autora nos mostra como esse campo de estudos pode ajudar a compreender a perpetuação de desigualdades no sistema de ensino ou as lógicas de dominação que se propagam em nossa sociedade. Ao longo da entrevista, Ione Valle se apoia nas observações da Sociologia para também analisar o Brasil de hoje, em seus flertes com o controle do pensamento político de professores no Ensino Superior e com a desvalorização da ciência.

Em sua carreira acadêmica, você sempre teve proximidade com a obra de autores como Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, atuando inclusive como organizadora de alguns de seus livros no Brasil. Como esses pensadores nos ajudam a entender a perpetuação de desigualdades no sistema de ensino brasileiro? Como podemos aplicar as ideias de tais autores para olhar criticamente para nossa educação?

Meu contato com obras de sociólogos franceses, particularmente aqueles vinculados à sociologia da educação, se intensificou desde o meu doutorado, realizado na Universidade de Paris V – Sorbonne entre 1997 e 2001. As questões relacionadas à democratização da educação e à formação de professores, em tempos de expansão das oportunidades de acesso, figuram desde então como foco principal dos meus estudos. O interesse pelos trabalhos de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron está, portanto, ligado à minha trajetória acadêmica e à preocupação com a persistência das desigualdades escolares, entrelaçadas com as desigualdades sociais, dada a centralidade que essa temática ocupa na sociologia desses autores. Esse fenômeno continua a ser observado na dinâmica dos nossos sistemas de ensino, apesar dos avanços proporcionados pelas políticas educacionais postas em prática nas últimas décadas. As obras desses autores, mas sobretudo os estudos de Pierre Bourdieu sobre o campo educacional, apresentam dimensões de ordem teórico-metodológica de grande amplitude e profundidade, que ajudam a desvelar as lógicas de dominação e reprodução social, presentes nas estratégias mobilizadas pelos grupos sociais mais privilegiados. Essas dimensões podem ser utilizadas como importantes lentes interpretativas, pois permitem compreender criticamente nossos sistemas de ensino, assim como as reais finalidades das nossas políticas educacionais.

Em “Os herdeiros: os estudantes e a cultura”, publicado na França em 1964 e no Brasil em 2014 pela Editora UFSC, Bourdieu e Passeron propõem uma nova “pedagogia da pesquisa”, introduzindo uma ruptura profunda na prática do métier de sociólogo. Isso nos leva a assinalar que uma das contribuições dessa obra para a pesquisa sociológica brasileira está no modus operandi (no sentido de modo de construção) proposto ao pesquisador, em oposição ao opus operatum (no sentido de obra realizada), que geralmente predominava nas ciências sociais. “Os herdeiros”, assim como algumas obras que a sucederam (“A profissão de sociólogo: Preliminares epistemológicas” [1968] e “A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino” [1970], por exemplo) podem ser lidas como ferramentas epistemológicas, que podem auxiliar na elaboração de protocolos de pesquisa, graças ao rigor científico que adotam e à orientação teórico-metodológica que propõem. Elas também podem contribuir para elucidar mecanismos pedagógicos que fazem da instituição escolar o lugar de transmissão de uma “lógica secreta”, efetivada pela violência simbólica, o que a autoriza (de modo legitimado) a classificar crianças, adolescentes e jovens segundo suas origens sociais, econômicas e culturais.

O que movimentos de estudantes do passado, como os ocorridos em maio de 1968, foco, inclusive, da obra "Os herdeiros", que conta com sua organização, podem nos ensinar sobre mobilizações atuais contra os cortes orçamentários para instituições de ensino? Ainda que com focos de protesto diferentes e de naturezas diferentes, você consegue enxergar paralelos nessas mobilizações lideradas por estudantes?

A obra “Os herdeiros” (1964) antecede as “agitações de maio de 68”. Sua repercussão durante as contestações resultou da temática abordada, mas também do seu formato e de sua linguagem acessível ao leitor pouco familiarizado com a terminologia sociológica; ela foi mobilizada como se se tratasse de um manifesto sociológico. Ao explicitar aspectos do sistema de ensino francês que contrariavam o tão proclamado projeto democrático, por meio de uma forte coerência conceitual e argumentativa, “Os herdeiros” favorece a sincronização de tensões latentes em diferentes cenários do espaço social.

Os movimentos estudantis do passado sempre podem ser utilizados como laboratórios sociológicos para a compreensão de crises recentes, inclusive esta que afeta a sociedade brasileira neste início de milênio. As grandes crises geralmente são produzidas na convergência de perplexidades nas mais distintas esferas: econômicas, culturais, religiosas, científicas, institucionais, educacionais. Bourdieu nos ensina que toda crise, na proporção da de maio de 68, precisa ser analisada como ponto de intersecção de vários acontecimentos, originários de diferentes campos habitados por necessidades peculiares a cada um deles. Somente a análise dessas intersecções ajuda a perceber distâncias, continuidades e rupturas em relação a contextos anteriores. Em síntese, toda crise apresenta um caráter eminentemente político porque se dá num quadro de disputas de poder, seja para mantê-lo, seja para conquistá-lo, por isso sua leitura exige a mobilização do que ele chama de “modo de pensar relacional”.

Certamente, a análise bourdieusiana nos ajuda a interpretar as diversas mobilizações que se sucedem no Brasil, sobretudo desde 2013, assim como suas dimensões contraditórias, suas fragilidades no plano da organização política, seu potencial revolucionário. Perceber essas mobilizações como “momentos críticos”, à luz dos estudos de Bourdieu, permite reconhecer que, ao mesmo tempo em que nos confrontamos com uma vontade (mítica) de controle, ou mesmo de supressão, das múltiplas formas de liberação – e de libertação – de grupos sociais deixados à margem dos processos civilizatórios, nos vemos diante da luta crescente pelo direito de ter direitos, pelo direito de lutar por direitos, pelo direito de manter conquistas históricas (como no caso das nossas instituições de ensino superior e de pesquisa); permite perceber que, ao mesmo tempo em que nos desconcertamos frente a retrocessos (reais) em relação aos costumes ou a direitos ainda não plenamente assegurados, nos surpreendemos com manifestações que desnudam as motivações de grupos sociais dominantes, resistentes à ameaça de perda de privilégios herdados, fortemente cristalizados.

O exercício da “vigilância epistemológica” se mostra essencial quando se deseja estabelecer paralelos entre movimentos sociais e momentos históricos tão distintos. Bourdieu, em “Homo academicus” (publicado na França em 1984 e no Brasil em 2011 pela Editora UFSC), alerta para os perigos da transformação do discurso científico em discurso de ficção, uma vez que este produz a crença na verdade, produz um discurso consagrado. Ele alerta para a necessidade de construção rigorosa e cautelosa do protocolo científico, uma vez que o sociólogo “só pode chegar depois da festa, quando os lampiões foram apagados e os cavaletes retirados, e com um produto que não tem mais nenhum dos charmes do impromptu.”

O desafio que se impõe ao pesquisador consiste, portanto, em evitar as armadilhas da comparação apressada, o que não significa deixar de reconhecer que há dimensões do maio de 68, mas também de outros movimentos, que podem ser mobilizadas para ler a realidade brasileira, inclusive na contemporaneidade. Assim como ocorreu na França dos anos 1960, ocorre nos tempos atuais: o caráter reformista e inclusivo de algumas políticas públicas vem instigando uma reação fortemente conservadora, capitaneada por “guardiões” de uma determinada ordem social e moral. Estes estão reagindo, mesmo tendo que recorrer a meios violentos, ao que consideram como risco de subversão de certos dogmas. Ou seja, as políticas públicas, principalmente aquelas voltadas à ampliação de direitos constitucionais, assim como ao acesso à formação profissional de nível superior, ameaçam o status quo de certos grupos dominantes.

Não é por acaso que os sistemas públicos de ensino, principalmente os meios universitários e científicos – num país em que o advento da ciência ainda é para muitos uma incógnita, em que o acesso à arte e à cultura permanece um privilégio –, tenham sido os primeiros visados, em nome da preservação da ordem, da manutenção da obediência e da subserviência, cristalizadas na maioria dos espaços sociais, e da persistência das formas de distribuição de poder e de riqueza, que são próprias desses espaços.

 

Enquanto pedagoga, coordenadora do Grupo de Pesquisa Ensino e Formação de Educadores em Santa Catarina e do Laboratório de Pesquisas Sociológicas Pierre Bourdieu, como você avalia a preocupação conjunta do atual governo e Ministério da Educação com a orientação política dos professores, principalmente no Ensino Superior? Isso fere a autonomia dos docentes ou de fato os professores não devem deixar suas convicções políticas interferirem nas suas metodologias em sala de aula? 

Certamente não é fácil encontrar bons argumentos para responder a uma questão tão ampla que envolve a complexa relação entre teoria e prática, mas também entre educação e política. Para levar a efeito a dimensão mais desafiadora do trabalho universitário (a articulação entre ensino, pesquisa e extensão), busco inspiração nas palavras de Pierre Bourdieu, que via a sociologia como “o seu esporte de combate”. Segundo ele, o seu trabalho político, caso tivesse um, seria oferecer às pessoas instrumentos para pensar por si mesmas aquilo que elas encarregam homens políticos de pensar em seu lugar.

Neste mesmo sentido, ao adotar a sociologia (da educação) como o “meu esporte de combate”, a considero como uma arma poderosa contra o senso comum, uma vez que é capaz de promover o senso crítico e a consciência filosófica. Aqui também Bourdieu nos ajuda a pensar e a nos prepararmos para reagir contra o que ele chamou de “douta ignorância”, referindo-se à argumentação produzida com ares de erudição, mas que nada mais é que a construção de “enigmas mais do que problemas”, pautados em “posicionamentos totais e definitivos”, portanto em crenças, mais do que em análises necessariamente parciais e revisáveis.

Recentemente, Charles Soulié e eu trabalhamos na organização de uma obra lançada pela Editora UFSC intitulada: “Pierre Bourdieu: uma sociologia ambiciosa da educação” (2019). Reunimos, nessa obra, textos inéditos do autor com o objetivo de mostrar o quanto a relação entre educação e política esteve no centro das suas análises. Era interesse de Bourdieu, com o qual me identifico, sublinhar a contribuição das instituições de ensino na legitimação das lógicas de dominação. Ao colocar em prática estratégias (dissimuladas) de reprodução das desigualdades sociais, a escola e a universidade promovem a consagração social dos eleitos, legitimando-a por meio de mecanismos de provação escolar.

Apesar de não economizar críticas às instituições de ensino, Bourdieu reconhece o papel ambíguo que a educação escolar e a formação universitária exercem, como se pode ver nos dois relatórios elaborados a pedido do governo francês, ambos publicados na obra referenciada acima: “Proposições para o ensino do futuro” (1985) e “Princípios para uma reflexão sobre os conteúdos do ensino” (1989). Evidentemente, ele estava ciente de que o acesso à escola pode se constituir, principalmente para os grupos mais desfavorecidos, como única chance de romper com trajetórias familiares marcadas pelo sofrimento, pela precariedade, pela discriminação, pela condição de despossuído. Seu próprio percurso escolar, favorecido pelas políticas meritocráticas do pós-guerra, foi inúmeras vezes citado como exemplo.

É a energia que se encontra nos estudos de Bourdieu, mas também a força dos seus argumentos – refiro-me apenas a ele por ter permanecido interessado pela educação ao longo da sua vida acadêmica – que torna seu pensamento tão intenso e suas contribuições sociológicas tão pertinentes para compreender a situação brasileira atual. Suas abordagens, dado o tom crítico e radical das suas ideias, permitem perceber que, apesar de atuar como o “demônio de Maxwell”, a educação escolar desinstala, corrói poderes cristalizados, leva a duvidar do “destino como vocação”, põe em xeque a “adesão voluntária”, destrói cumplicidades, põe em risco a estabilidade dos grupos dominantes, assegurada por inúmeras estratégias.

Ao eleger como laboratório movimentos históricos que procuram explicar as relações de poder próprias de um determinado espaço social, Bourdieu não teve medo de se submeter ao fervor da crítica e não hesitou em introduzir no campo científico uma sociologia da denúncia, que certamente só pode ser levada a efeito em instituições autônomas, que contam com professores devidamente preparados para o exercício do magistério. Está na base desse preparo o domínio do saber disciplinar, cientificamente acumulado, que não pode ser confundido com valores, dogmas ou interesses políticos, religiosos ou culturais. Não há dúvidas de que todo saber é engajado, todo saber pode, portanto, ser mobilizado para o enfrentamento das formas sutis de dominação e de adesão à doxa dominante.

 


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