A Voz do Autor

Entrevista com José Eduardo Lohner, ganhador na categoria Tradução do 5º Prêmio ABEU

Em 19/01/2020 23:09

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Estamos de volta em 2020 com a coluna A Voz do Autor! E optamos por começar o ano em grande estilo, trazendo uma série de entrevistas com os ganhadores do 5º Prêmio ABEU, entregue no final de novembro de 2019. Diante disso, iniciamos esta nova etapa da coluna com uma conversa com José Eduardo Lohner, ganhador na categoria Tradução, que estreou na última edição da premiação. Lohner foi responsável pela tradução da tragédia de Sêneca “Tiestes”, publicada pela Editora UFPR.

Com graduação em Letras (Português e Latim) pela Universidade de São Paulo e doutorado em Letras Clássicas pela mesma instituição, José Eduardo Lohner atualmente é Professor Doutor da USP. Com experiência na área de Letras, com ênfase em Letras Clássicas, o tradutor atua principalmente com poesia dramática latina, tragédias de Sêneca, tragédia latina da época republicana e epistolografia Latina. Na entrevista, Lohner explica como foi o processo de tradução desta obra, publicada originalmente há mais de 2 mil anos, e sobre a relevância de ter a tradução de um texto clássico reconhecida por premiações com o Prêmio ABEU e o Jabuti.

Primeiramente, quais os principais desafios da tradução de um texto da Antiguidade como "Tiestes"? Partiu-se do texto original em latim para adaptação dos versos?

A tradução de uma obra da Antiguidade é feita a partir da seleção das edições mais recentes e autorizadas do texto original, preferencialmente acompanhadas de comentário filológico. Como se sabe, a transmissão de toda obra antiga gerou ao longo dos séculos um acúmulo de variantes textuais que exigem um permanente esforço de reconstituição da possível formulação original. Para a tradução do “Tiestes”, adotei o texto latino da edição de R. J. Tarrant (1985) e, para algumas passagens, o da edição de J. G. Fitch (2002; 2004).

A opção por uma tradução versificada visa a manter analogia formal com o texto de partida. O poema dramático antigo era polimétrico, com variações rítmicas que caracterizavam seções dialogadas e cantadas, por uma só voz ou por um coro. Na tradução, essa complexidade formal do texto latino exige um trabalho de seleção de metros e ritmos. Tanto no “Tiestes” quanto, anteriormente, na tragédia “Agamêmnon” (ed. Globo, 2009), optei pelo emprego de formas métricas tradicionais da versificação portuguesa para representar a variedade rítmica do original. Esse é um primeiro aspecto que envolve um estudo prévio e aprofundado.

No mais, houve um esforço por produzir uma versão fluente e estimulante para o leitor contemporâneo, mas que ao mesmo tempo não se afastasse das características de estilo próprias da tragédia antiga, e também dos traços particulares da poesia de Sêneca, relativos à elocução.

Além de ter ganhado o Prêmio ABEU, o livro também foi finalista no Prêmio Jabuti. A que você atribui tamanho reconhecimento da tradução?

Provavelmente isso deve ter ocorrido por uma conjunção de fatores. Primeiramente, talvez o caráter inédito dessa versão poética em português: conheço apenas a versão de uma cena do quinto ato, realizada no século XIX por José Feliciano de Castilho, e que inseri no fim do volume desta edição, e a versão integral em prosa de José António Segurado e Campos, publicada em 1996. Certamente também aspectos formais e estilísticos da tradução foram bem acolhidos, especialmente pelo público especializado, o que para mim é bastante gratificante. Os estudos que acompanham a tradução oferecem ao leitor um conjunto amplo de informações não apenas sobre a obra traduzida, mas também sobre a poesia trágica em Roma, e refletem a pesquisa sobre a obra dramática e filosófica de Sêneca que venho realizando há vários anos. Por fim, creio que foi sem dúvida determinante a qualidade da edição produzida pela Editora da Universidade Federal do Paraná, e especialmente o empenho do editor na divulgação desse trabalho.

Esta edição traz ainda 4 estudos sobre esta tragédia de Sêneca. Qual foi o objetivo de incluir estes textos? De que forma eles complementam a experiência do leitor em relação à obra do filósofo romano?

Em linhas gerais, esses estudos abordam uma seleção de tópicos debatidos com frequência pela crítica a respeito da produção dramática de Sêneca. Eles visam a oferecer informações relevantes para uma adequada compreensão tanto da obra traduzida quanto, de modo mais amplo, da poesia dramática senequiana e de sua relação com o contexto literário, sociocultural e histórico em que foi produzida. Sendo um trabalho acadêmico, naturalmente procurou-se atender antes de tudo aos interesses de leitores especializados, ou seja, os estudiosos da literatura greco-latina. No entanto, com exceção de alguns aspectos mais estritamente técnicos, neles também o público “leigo” pode encontrar informações essenciais para a recepção adequada, relativa ao campo formal e do conteúdo, dessa obra escrita há dois mil anos, no principado de Nero.

Por fim, gostaria que discorresse um pouco sobre a importância de ser reconhecido pelo Prêmio ABEU, que valoriza especificamente livros de editoras universitárias.

Como se disse por ocasião da cerimônia de premiação, o Prêmio ABEU visa a ser, e entendo que já é, no âmbito acadêmico o equivalente ao Jabuti. Já me senti muito honrado por meu trabalho ter sido indicado entre os finalistas deste prêmio, e a obtenção do 1º lugar, bem além de mera satisfação pessoal, tem muita importância para os estudos clássicos por chamar a atenção para a produção dessa área que, no Brasil, é em geral pouco conhecida e valorizada, mesmo no meio universitário.


Tags da postagem

A voz do autor Editora UFPR