A Voz do Autor

Entrevista com Fernanda Marquetti, ganhadora na categoria Ciências Humanas do 5º Prêmio ABEU pelo livro "Suicídio: escutas do silêncio"

Em 27/01/2020 17:47

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Continuamos esta semana entrevistando os ganhadores do 5º Prêmio ABEU para a coluna A Voz do Autor. Desta vez, falamos com Fernanda Marquetti, organizadora de "Suicídio: escutas do silêncio", publicado pela Editora Unifesp. Com pós-doutorado, doutorado e mestrado em Saúde Pública pela Universidade de Sao Paulo (USP), Fernanda Marquetti ainda atuou por 20 anos como terapeuta ocupacional e assessora em saúde mental em diferentes equipamentos públicos das Secretarias de Saúde do Estado e do Município de São Paulo. Na entrevista, ela fala sobre como o seu livro busca trazer um olhar multidisciplinar sobre o suicídio, se distanciando de uma visão médico-sanitária, que associa o suicídio como consequência exclusiva de doenças mentais. Por conta disso, a obra acaba por enfrentar "feudos poderosos no mundo acadêmico".

Que critérios foram usados para escolher os artigos que integrariam a versão final do livro? Por que convidar outros especialistas, para além da Psicologia e da Psicanálise, para compor o debate da obra sobre suicídio?

Os autores dos capítulos foram convidados a compor o livro a partir de um critério central: pesquisadores que abordavam o evento suicida a partir de referenciais teóricos distintos do discurso médico-psiquiátrico. Ou seja, buscamos pesquisadores que estudavam o evento suicida imerso na vida e assim submetido às intrincadas redes relacionais do trabalho, das relações de gênero, das relações institucionais na saúde, da sociabilidade no mundo contemporâneo, entre outras. Nosso objetivo principal foi abordar o suicídio inserido no contexto que o produz e não apartado do mundo. Desta forma, pudemos alcançar a complexidade deste evento e, assim, não reduzir o suicídio a um simplificado caso de morbidade categorizado em classificações diagnósticas.  
Sintetizando, na abordagem plural do livro que concebe distintas perspectivas deste evento, nos afastamos radicalmente de uma perspectiva reducionista que concebe apenas uma explicação para este fenômeno.    


Qual o problema de encarar o suicídio sob um viés meramente médico-sanitário? 

O primeiro problema se refere ao fato de que tal discurso sobre o suicídio se considera único e total. Embora muito se diga sobre a multicausalidade do suicídio, observa-se no campo da pesquisa e da clínica do suicídio o discurso médico-sanitário como prevalente. Sendo que isso se reflete nos financiamentos de pesquisa e no subsídio às práticas de assistência. Ou seja, as outras formas de compreensão do suicídio são consideradas secundárias, fatores coadjuvantes ou simplesmente ignoradas. E como qualquer discurso que se pretende único na explicação de um evento, torna-se limitado e reduz a complexidade à simplificação. Desta postura decorrem perspectivas reducionistas e sem conexão com a realidade intrincada do evento suicida. 
Na medida que este evento em interação com o mundo é apartado deste e submetido às classificações diagnósticas, ele deteriora seu sentido relacional e as possibilidades de compreensão do fenômeno. Disto decorre outro problema deste discurso hegemônico, que se refere à própria substância teórica do discurso médico sobre o suicídio, ou seja, ele transforma um evento humano que sempre esteve presente na vida em um sintoma de transtorno mental, exclusivamente. Desta forma, o suicídio convertido em sintoma de transtorno mental do sujeito isolado do contexto sociocultural coloca este sujeito como objeto de estudo isolado. E, consequentemente, estes sujeitos com eventos suicidas na vida se inserem na “carreira do doente mental”, como diria Goffman. Há uma perversidade permeada neste processo clínico e metodológico do discurso médico-sanitário, pois o resultado de uma complexa interação sociocultural que incide num sujeito termina por transformá-lo no objeto problema.


Como a obra busca sair desse suposto reducionismo para falar francamente sobre um assunto que é considerado tabu?

O tabu em relação ao suicídio reitera a força do discurso médico-sanitário, pois na medida em que o tema não é abordado em sociedade, o poder deste discurso hegemônico cresce, exponencialmente. Os capítulos do livro, ao trazerem outras formas de compreensão do evento suicida, lançam o tema a indagações, exames, explorações do próprio leitor e, assim, questionam a compreensão usual do tema.
O leitor atento poderá observar nos capítulos do livro que não propomos uma perspectiva teórica única na compreensão do suicídio, sendo que algumas destas perspectivas da obra são incompatíveis entre si. Este foi um outro objetivo da obra: não lançar outro discurso único e sim mostrar a pluralidade na compreensão do fenômeno. 


De que outras formas podemos levar a um público mais amplo a discussão sobre o suicídio? Como mostrar, por exemplo, aos leigos que o ato do suicídio não é apenas um último estágio de um processo de depressão, mas que pode, sim, ter múltiplas outras raízes?

A principal forma é um debate amplo e público sobre o suicídio, mas para isso precisamos enfrentar dois problemas de grande potência: o tabu do suicídio e a hegemonia do discurso médico. Estas duas forças operam juntas e blindam o suicídio dentro de uma “caixa preta” que permanece apartada da sociedade. Sendo que apenas os especialistas médicos podem falar sobre ela, e esta é a força de caráter lesivo de um discurso total. Quando nos aproximamos dos envolvidos no evento suicida (familiares, amigos, observadores e os próprios sujeitos com tentativas), eles têm muito a dizer, mas geralmente são silenciados. Daí decorre o título do nosso livro, “Suicídio: escutas do silêncio”, pois em cada capítulo outras escutas diversas da hegemônica foram permitidas.
Estas múltiplas raízes do suicídio que você citou estão presentes nos discursos produzidos pelos leigos no mundo; elas só precisam ser escutadas, permitidas, autorizadas, referendadas... A população em geral sabe que o suicídio é um evento produzido pelo sofrimento humano e não uma categoria médica, mas não há lugar para a circulação destas ideias. Da nossa parte, estamos dispostos a dialogar em qualquer espaço para trazer ideias diferentes sobre este tema, aparentemente enigmático.



Por fim, gostaria que discorresse um pouco sobre a importância de ser reconhecido pelo Prêmio ABEU, que valoriza especificamente livros de editoras universitárias

Depois do que foi dito acima, torna-se evidente a importância do Prêmio ABEU, pois este é o reconhecimento não apenas de um livro, mas de uma concepção sobre o suicídio que enfrenta feudos poderosos no mundo acadêmico e na assistência. Assumir uma postura teórica contraria ao discurso médico-sanitário não foi tarefa simples nesses 25 anos de pesquisa e trabalho na assistência. O Prêmio ABEU nos colocou num lugar de reconhecimento e distinção. Sabemos que nosso livro somente poderia ser produzido por uma editora universitária, que privilegia a produção de conhecimento. Nossos agradecimentos a todos da Editora Unifesp e à equipe do Prêmio ABEU.

  


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