A Voz do Autor

Entrevista com Pedro Muñoz, ganhador na categoria Ciências Sociais do 5º Prêmio ABEU

Em 10/02/2020 12:46

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Mais uma vez, a coluna A Voz do Autor apresenta uma entrevista com um dos ganhadores do 5º Prêmio ABEU. Pedro Felipe Muñoz ficou com o 1º lugar na categoria Ciências Sociais com o livro “Clínica, Laboratório e Eugenia: uma história transnacional das relações Brasil-Alemanha”, coeditado pela Editora Fiocruz e Editora PUC-Rio. Bacharel em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pedro Muñoz tem mestrado e doutorado em História das Ciências pela Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz. Entre dezembro de 2013 e janeiro de 2015, foi bolsista CAPES/DAAD na Alemanha, quando realizou um doutorado sanduíche na Freie Universität Berlin (FU Berlin). Em 2016, recebeu uma Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese 2016, na área de História, pela tese: “À Luz do Biológico: psiquiatria, neurologia e eugenia nas relações Brasil-Alemanha (1900-1942).”

Na entrevista para o site da ABEU, Muñoz falou sobre a adaptação da sua tese de doutorado para o livro, comentando ainda sobre o intercâmbio científico entre Brasil e Alemanha no início do século passado, ressaltando como as práticas eugenistas, patrocinadas pelo Estado nazista, eram encaradas por psiquiatras brasileiros.

 

O livro "Clínica, laboratório e eugenia" é derivado da sua tese de doutorado. Por que escolher como foco os intercâmbios e trocas de experiências entre Brasil e Alemanha para falar da história da psiquiatria em nosso país?

De fato, o livro é derivado de minha tese de doutorado. Porém, gostaria de destacar que ele não é apenas uma adaptação do texto da tese para o formato de livro. Em primeiro lugar, no livro, as bases teóricas da pesquisa foram aclaradas. Em “Arqueologia do Saber”, Michel Foucault faz críticas à história das ideias e ao uso de grandes unidades explicativas como “autor”, “obra”, “livro”, pois todas elas estão fundadas em um princípio de coerência interna. Como alternativa, Foucault propõe um método arqueológico para o estudo das formações discursivas. Seguindo o filósofo francês, optei por deixar de lado o conceito de “organicismo”, como um guarda-chuva definidor da psiquiatria alemã, para olhar o que há por detrás dele e nas profundezas da formação discursiva. Empreendi, então, uma escavação arqueológica e me afastei, assim, da recorrente divisão entre uma psiquiatria moral e uma psiquiatria organicista, usada, muitas vezes, para caracterizar, respectivamente, a psiquiatria francesa e a psiquiatria alemã. Ao invés disso, busco observar três discursos biológicos, isto é, o da clínica, o do laboratório e o da eugenia na psiquiatria do Brasil e da Alemanha, sobretudo nas relações científicas entre esses dois países, no período estudado. Com apoio da história intelectual, analiso uma geração de médicos e trajetórias cambiantes que se cruzam. Daí, busco extrair como cada um dos personagens operou o discurso da clínica, do laboratório e da eugenia, de acordo com o itinerário político. Em segundo lugar, algumas coisas da tese foram excluídas e outras foram acrescentadas. O livro possui um capítulo e um item novos. Por fim, o texto é resultado de uma série de leituras que fazem parte das minhas aulas na PUC-Rio, em meus cursos de História das Cidades, História do Brasil e História do Mundo Contemporâneo.

A escolha pelas relações Brasil-Alemanha foi tomada por três razões. Em minha dissertação de mestrado, “Degeneração atípica: uma incursão ao arquivo de Elza”, analiso a história de uma mulher alemã, imigrante de classe média, que foi internada no Hospício Nacional de Alienados, em 1925, após abandonar seu marido que também era alemão, para requerer o divórcio. Sabemos que, no Brasil, a lei do divórcio é dos anos 1970. Porém, na Alemanha do Kaiser já havia previsão legal para isso. No hospício, Elza teve uma passagem atípica. Saiu em apenas 7 dias, com um habeas corpus, algo incomum na história asilar de mulheres internadas como loucas. Porém, a atipicidade do caso também se revela pelo diagnóstico: estado atípico de degeneração. Investigando a história desse diagnóstico, acabei observando uma querela entre os médicos francófilos e germanófilos. Estes últimos seguiam a classificação de Kraepelin, médico catedrático de psiquiatria na Universidade de Munique. Um desses médicos germanófilos se chama Juliano Moreira, um intelectual negro que conheceu Kraepelin na Alemanha e buscou reformar a psiquiatria brasileira com base nas observações que fez em suas visitas à Europa, especialmente, à Alemanha. Em segundo lugar, a psiquiatria atual é muitas vezes denominada de neokraepeliana. Isso me levou a investigar o que era, então, a psiquiatria dita kraepeliana. Em terceiro lugar, o estudo das relações Brasil-Alemanha dá início aos meus estudos acerca da história transnacional e ao meu diálogo com o professor Stefan Rinke, da Universidade Livre de Berlim, meu coorientador no doutorado. Através da história diplomática, observei que os psiquiatras brasileiros germanófilos foram objeto da política cultural exterior alemã para a América Latina.

 

A obra abarca um período que vai de 1900 a 1942, adentrando por uma parte da Segunda Guerra Mundial. Nesse momento, a Alemanha vivia sob o regime nazista, que praticava a eugenia como política de Estado. Nossa medicina e psiquiatria chegaram a ser influenciadas por esse tipo de olhar racialista? Acha que vemos consequências desse pensamento até hoje?

Em 1900, Juliano Moreira iniciou uma agenda de trabalho voltada para a psiquiatria, após duas viagens à Alemanha e a outros países da Europa, em 1898-1899 e 1899-1900. Em 1942, o Brasil rompeu relações com a Alemanha nazista. Durante o Terceiro Reich, diversos psiquiatras e neurologistas alemães, de fato, colaboraram com as políticas raciais nazistas. Realmente, a eugenia (higiene racial é o termo forte do período) fez parte dessas políticas de Estado. Porém, é importante destacar outras formas de colaboração científica. Muitos médicos receberam amostras provenientes dos crimes nazistas. Cito no livro uma coleção de peças cerebrais que foram queimadas e enterradas em um cemitério de Munique ao final da guerra. Em maio de 1990, a Sociedade Max Planck realizou uma cerimônia no local, em homenagens às vítimas. Esse tipo de colaboração científica, seja pela via direta da eugenia ou não, impôs um grande debate sobre a ética na medicina, após a Segunda Guerra Mundial. Desse movimento foram criados inúmeros institutos de história e ética da medicina nas universidades do país.

Quando investiguei as relações entre a higiene racial alemã e a psiquiatria brasileira, cheguei ao caso do médico mineiro Ignácio da Cunha Lopes. Esse médico esteve na Alemanha em 1930 e estudou os métodos da psiquiatria genética com Ernst Rüdin, que, pouco tempo depois, assumiu a direção do Instituto Alemão de Pesquisas Psiquiátricas de Munique e se tornou um dos nomes fortes da história científica e política da higiene racial, durante o Terceiro Reich. Após retornar da Alemanha, Cunha Lopes passou a se dedicar a uma agenda política e científica muito similar àquela de Rüdin. Ele se afastou do grupo de médicos ligados a Juliano Moreira e se aproximou de Henrique Roxo e Renato Kehl, ambos adeptos de um olhar racista na ciência. Kehl foi o principal propagandista do movimento eugênico brasileiro. Tanto Cunha Lopes quanto Kehl defendiam, nos anos 1930, a chamada eugenia negativa, com políticas radicais de segregação, controle do matrimônio e esterilização de populações consideradas degeneradas e disgênicas. Porém, na Era Vargas, mesmo no Estado Novo, eles não conseguiram o apoio que desejam para colocar tais políticas em prática.

Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, Kehl e Cunha Lopes seguiam com tais ideias. Embora não haja hoje mais propaganda eugênica, acredito que estamos cedendo novamente a tentações do passado. Nosso hipernarcisismo, nosso desejo de onipotência, uma espécie de complexo de Deus, associados às novas técnicas médicas (como a reprodução in vitro, clonagem, epigenética, etc.) e novas tecnologias exigem uma grande reflexão ética, ou aquilo que Hans Jonas chamou de um princípio responsabilidade, uma nova ética que inclui nossos deveres com o futuro e  com os direitos das geração que ainda não nasceram. Será que temos o direito de escolher a cor dos olhos de nossos filhos? Eu creio que não.

 

Supõe-se que a Europa, nesse momento, estava na vanguarda da psiquiatria. Ainda assim, de que formas o Brasil influenciou esta ciência na Alemanha?

No meu trabalho, evito o chamado difusionismo e a divisão clássica entre centro e periferia, a partir da qual os cientistas brasileiros seriam passivos e meros difusores de teses, ideias e conceitos criados na Europa e nos Estados Unidos. Ao invés disso, prefiro observar a autoria e a agência dos médicos brasileiros como intelectuais ativos que faziam parte de redes científicas transnacionais e que encontravam soluções próprias para os problemas científicos que investigavam, em diálogo com a comunidade nacional e internacional. No entanto, reconheço, em diálogo com a historiografia, que existem assimetrias quando analisamos a história das relações científicas entre América Latina e Europa. Dito isso, creio que os trabalhos de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Juliano Moreira – esses são apenas alguns exemplos, pois outros nomes da ciência latino-americana também poderiam ser citados – tiveram grande impacto na Europa. Em sua viagem ao Rio de Janeiro, o neurologista de Hamburgo, Max Nonne, considerou Oswaldo Cruz um grande nome da ciência de sua época. Carlos Chagas e Juliano Moreira foram homenageados na Alemanha e ganharam a medalha de ouro da Universidade de Hamburgo. Tanto a descoberta da Doença de Chagas quanto os estudos de Moreira, desde sua tese acerca do botão endêmico à crítica ao racismo científico na psiquiatria, tiveram muita ressonância na Europa. Moreira, inclusive, escreveu um dos capítulos da edição de 1926 do Manual de Doenças Tropicais, de Carl Mense, intitulado “As doenças nervosas e mentais nos trópicos” (Die Nerven- und Geisteskrankheiten in den Tropen).[1] Juliano Moreira costumava dizer que nem o clima, nem a raça causam degeneração, e sim as péssimas condições de vida, como a falta de saneamento e de educação.

 

Gostaria que discorresse um pouco sobre a importância de ser reconhecido pelo Prêmio ABEU, que valoriza especificamente livros de editoras universitárias.

Eu vejo o Prêmio ABEU como uma inciativa excelente. Digo isso por vários motivos. Por um lado, ele incentiva o trabalho das editoras universitárias, por outro, incentiva os autores a buscarem tais editoras. O Prêmio ABEU é um projeto que fortalece a universidade brasileira, bem como a cultura, a ciência e a inovação no país, bases de uma sociedade melhor, menos desigual, mais diversa e mais inclusiva. Por essa razão, é uma honra muito grande ter meu trabalho reconhecido pelo Prêmio ABEU. Essa distinção irá certamente contribuir com a divulgação do livro dentro e fora do país. Meu próximo passo é tentar uma tradução do livro para outro idioma. Sou um grande entusiasta do processo de internacionalização da ciência brasileira, mas essa internacionalização não deve se resumir apenas ao trabalho de professores e pesquisadores. Espero que, em um futuro não muito distante, as universidades brasileiras consigam atrair muitos alunos estrangeiros. Trazer novos talentos provenientes dos quatro cantos do mundo, fazer com que diversos idiomas possam ser ouvidos nos corredores, tudo isso ajudará nossos alunos brasileiros a desenvolverem novas potencialidades linguísticas, culturais, artísticas e tecnológicas.


[1] MOREIRA, Juliano. Die Nerven- und Geisteskrankheiten in den Tropen. In: MENSE. Carl (Hrsg.). Handbuch der Tropenkrankheiten. 3. Auflage, Band 4. Leipzig: Verlag von Johann Ambrosius Barth, 1926. p. 295-354

 


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