A Voz do Autor

Entrevista com Marcos Rodrigues, ganhador na categoria Ciências da Vida do 5º Prêmio ABEU

Em 16/02/2020 20:07

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Esta semana, a coluna A Voz do Autor conversa com Marcos Rodrigues, autor de “O Equinócio dos Sabiás”, da Editora UFPR¸ livro vencedor da categoria Ciências da Vida no 5º Prêmio ABEU. Rodrigues é professor titular do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Graduado em Ciências Biológicas na Unicamp e mestre em Ecologia pela mesma universidade, entre 1992 e 1996 concluiu o doutorado em Zoologia na Universidade de Oxford, onde trabalhou no Edward Grey Institute of Field Ornithology sob a orientação do professor Christopher Perrins. Depois, fez seu pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina.

 

Na entrevista, Marcos Rodrigues conta como criou um blog onde publicava crônicas para tornar mais palatáveis os temas abordados em suas aulas de graduação. O próprio livro surge desse projeto, que se inspira na tradição de um gênero literário mais comum no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, que usa uma linguagem literária para abordar temas científicos mais densos.

 

Poderia contar um pouco sobre o processo de criação de "O equinócio dos sabiás"? Ele não segue o padrão rígido dos livros acadêmicos típicos de editoras universitárias, optando por trazer crônicas que expandem nossa percepção sobre a natureza. Por que optou por essa abordagem?

 

A história do livro se inicia a partir da necessidade de ter textos de divulgação científica menos densos, menos técnicos, aos meus alunos de graduação em Ciências Biológicas. Textos que fossem na língua portuguesa. Mas não textos de jornalismo científico, que geralmente são muito herméticos e sem vida. Eu já era um leitor assíduo de escritores de divulgação de língua inglesa, como o falecido Stephen Jay Gould. Essas leituras me levaram a conhecer outros autores que não eram necessariamente cientistas e por isso empregavam nos seus livros uma linguagem muito mais interessante, com narrativas até pessoais. Eu cito três livros dos quais me inspirei muito: "The beak of the finch", de Jonatham Weiner, que aliás foi vencedor do famoso Prêmio Pulitzer; "O canto do dodô", de David Quamenn; "Bird senses", do biólogo Tim Birkhead. Os dois primeiros autores são jornalistas norte-americanos e o terceiro autor é um importante biólogo inglês. Estes três livros têm uma narrativa pessoal sobre um tema das Ciências Biológicas. Acho-os fascinantes, porque é como ler literatura, um romance, e não ler sobre ciência. Mas os três livros são fundamentalmente científicos. Eles prendem o leitor em uma aventura. Esse tipo de narrativa quase não existe no meio literário brasileiro. Eu procurei muito por textos em português, mas não encontrava nada parecido que pudesse prender a atenção de um estudante. Por incrível que pareça, não é fácil fazer com que os estudantes leiam por prazer. Geralmente os livros destinados aos estudantes são muito técnicos e sem vida, chatos. Imagine o jovem que tem cinco ou seis disciplinas pesadas num único semestre e um sem-número de atividades sociais ter que parar para ler por prazer... eles acabam lendo por obrigação e perdem o fio da meada durante sua formação acadêmica. Pois bem, foi pensando nisso que eu iniciei a escrever meus textos em um blog, onde pudesse ter uma interatividade com os estudantes a partir dos comentários de cada um deles. Isso foi um sucesso. Os estudantes não só gostavam dos textos, mas pediam mais e diziam entender melhor alguns tópicos já abordados em sala de aula. O blog saiu da bolha da sala de aula e atingiu pessoas sem ligação direta com a ciência. Comecei a receber elogios e pedidos para que eu escrevesse um livro, que nunca foi minha intenção. Esse foi o ponto inicial para a escrita das várias crônicas.  

 

Por que a escolha de um jardim tropical para servir de ponto de partida para falar do ciclo da vida e fazer paralelos com outros biomas?

 

Eu moro numa pequena casa rodeada por um grande jardim em um bairro de chácaras e sítios. Tudo o que eu vejo acontecendo neste meu jardim já foi descrito na literatura técnica de biologia. Por que as aves cantam no lusco-fusco da manhã? Como as sementes das plantas viajam pela floresta ou pelo cerrado até encontrar um local adequado para germinar? Como os sabiás encontram minhocas debaixo da terra? E todos os temas que eu abordo no livro partem de uma observação feita no meu jardim. Essas coisas acontecem em qualquer jardim, independentemente do tamanho do jardim. Eu sempre faço anotações sobre que plantas estão florescendo em cada mês, que animais visitam o jardim e o que eles fazem ali, quando nascem os cupins, para que ponto cardeal voam os papagaios no alvorecer... sempre fiz isso desde muito tempo... Qualquer jardim é um mundo... Mas essas anotações eram sempre espontâneas e feitas de forma quase aleatórias. Eu decidi juntar várias delas e percebi que cada observação poderia se transformar numa crônica. Claro que eu sou um leitor de crônicas, de Cecília Meireles, Fernando Sabino, Rubem Braga e alguns cronistas da atualidade. Mas minha principal fonte foram os almanaques escritos pelos naturalistas, geralmente britânicos. Na Inglaterra e nos EUA, há uma forte tradição desse tipo de literatura, ou seja, o autor descreve acontecimentos periódicos de uma região, ou de uma pequena cidade, ou de um lago... bem, isso é antigo mesmo. "Walden, a vida nos bosques", do Henry Thoreau, é um clássico desse tipo de almanaque. Leio muito desse estilo, mas, mais uma vez, tudo em inglês. A ideia central de muitos desses almanaques é ligar os fenômenos que observamos no dia a dia com a arte, a poesia, a literatura... foi isso que tentei fazer no meu livro. Quase todas as minhas crônicas estão ligadas a uma poesia ou até mesmo a uma frase de algum autor importante.

 

De que outras formas você acredita que cientistas e pesquisadores podem oferecer, a leigos e curiosos, um conteúdo mais palatável? O que pode ajudar a despertar no público em geral um interesse pelo estudo das ciências da natureza?

 

Eu acho que, para um cientista, a divulgação científica é a coisa mais importante nos dias de hoje. Estamos vivendo na era da informação e, paradoxalmente, é, na realidade, a era da má informação. A qualidade das nossas escolas é ruim e isso não é de hoje. Temos mais de 40 anos de escolas ruins, públicas e privadas. O que estamos vendo hoje, em termos de ignorância, mal caratismo, intolerância, arrogância e violência é o resultado de 40 anos de escolas ruins para todos os níveis sociais. As pessoas são enganadas facilmente porque não desenvolveram espírito crítico e, principalmente, não desenvolveram a curiosidade e a vontade. O cientista, o intelectual, o médico, precisa, mais do que nunca, conversar com o leigo. Mas não pode ser aquela conversa chata, às vezes arrogante ou hermética. Tem que haver um link que desperte a curiosidade. O jornalismo científico, por exemplo, não faz isso. A divulgação científica não deve ter uma estante na livraria só para ela, mas ela tem que estar misturada à poesia, ao romance, à aventura, à fantasia, à autoajuda. Um livro de divulgação científica não pode ser um livro de informação apenas, senão vira uma coisa chata. Há muita poesia escrita por grandes poetas que nos levam a observar algo ou um fenômeno natural do nosso cotidiano. Acho que temos que começar por aí... pela poesia mesmo. Por incrível que pareça, a divulgação científica não pode ser um manifesto, tem que ser uma poesia.

 

 

Gostaria que discorresse um pouco sobre a importância de ser reconhecido pelo Prêmio ABEU, que valoriza especificamente livros de editoras universitárias.

 

Eu acho que o Prêmio da ABEU tem tudo para se tornar um dos grandes prêmios da nossa literatura e, por que não, um prêmio científico, para a comunidade acadêmica. Ele une esses dois universos, a literatura e a ciência. O prêmio ainda está na sua infância e tem um enorme potencial pela frente. O prêmio também tem uma responsabilidade que é a de divulgar livros acadêmicos. Um prêmio dá visibilidade ao livro e, portanto, dá um valor àquilo que está escrito ali. As editoras universitárias só têm a ganhar com isso, já que sabemos que são editoras geralmente com poucos recursos financeiros para bancar as obras. Ser reconhecido pelos pares é muito gratificante, principalmente num mundo tão competitivo como é o da academia. Claro que o prêmio me deixa com vontade de escrever mais um livro.


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