A Voz do Autor

Entrevista com Maria Helena de Moura Neves, ganhadora na categoria Linguística, Letras e Artes do 5º Prêmio ABEU

Em 02/03/2020 00:07

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

A língua é viva e a melhor forma de entender suas regras e nuances é extraindo exemplos de gramática diretamente de textos, artigos e livros. Essa é a proposta de “A Gramática do Português Revelada em Textos”, da Editora Unesp, obra que ficou com o 1º lugar na categoria Linguística, Letras e Artes do 5º Prêmio ABEU. A autora deste completo exemplar de estudo da nossa gramática é Maria Helena de Moura Neves, uma das maiores linguistas do Brasil e nossa entrevistada esta semana na coluna A Voz do Autor. Professora emérita pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, é licenciada em Letras (em Português-Grego e em Alemão) pela Unesp, doutora em Letras Clássicas (Grego) pela USP e livre-docente (Língua Portuguesa) também pela Unesp.

Ao longo da entrevista, Maria Helena conta como foram escolhidos e criados os textos presentes na obra que servem de base para falar dos mais diversos temas da gramática. A autora explica ainda como entende os “desvios” à norma culta e como estes passam a fazer parte da nossa língua corrente.

O que se levou em consideração na escolha dos textos presentes no livro, que servem justamente como estudos de caso para analisar as normas da gramática do português? Como se deu esse processo de seleção?

 

A primeira observação refere-se ao fato de que, em todas as minhas obras, tanto teóricas quanto práticas, sempre considerei que a explicitação da gramática da língua só faz sentido se apreciada na língua em função. Isso remete diretamente ao trato direto com produções discursivo-textuais, tanto escritas quanto faladas, embora já ficando assentado que só para as escritas está disponível uma ampla e variada possibilidade de acesso, já que nossas coletas de córpus orais é extremamente setorial. A essa decisão acresce a conduta de, nas minhas duas gramáticas de referência (NEVES, 2011 [2000] e 2018, que é a que aqui está em questão), eu tratar gramaticalmente as classes e as funções da linguagem a partir de seu envolvimento nos processos básicos de constituição do enunciado, ou seja, eu não partir de nenhuma fixação inicial em classificações estanques, com dispensa de verificação no uso real.

Na parte centralmente descritiva (a Parte II) desta segunda Gramática, cada capítulo se abre com um texto autoral, cuja escolha não foi feita com a atenção dirigida a um determinado “registro”, já que, por princípio, o mesmo sistema gramatical de uma língua – a mesma “gramática” – rege todas as produções que nela se façam, siga-se ou não a norma socialmente bem apreciada. O que interessou, no caso, foi a possibilidade de acionar-se a reflexão sobre o tema gramatical de que trata cada capítulo. Assim, o que busquei, com cada um desses textos iniciais de capítulo, foi anunciar e introduzir a lição central pretendida, orientando uma atenção sobre os usos que facilitasse a apreensão dos mecanismos gramaticais mais diretamente acionados em cada determinada função, e, a partir daí, configurados em cada determinada classe de palavras.

Quanto ao fato de constarem muitos textos literários, o que proponho, firmemente, é oferecer aos estudantes / aos estudiosos da língua a oportunidade de, muito particularmente, penetrar na composição de significados e efeitos em textos cuja elaboração partiu justamente de um criador de mundos. A intenção não é trazer uma “norma”, prescritivamente, mas é oferecer textos elaborados justamente por aqueles usuários da língua que mais livremente exploram todas as possibilidades da sua “gramática”. Ora, a literatura se singulariza exatamente no sentido de que, na “criação” artística não há outras pressões que não a plenitude da expressão pela linguagem: daí por que o poeta dá lições soberbas de gramática da língua, sem se entender com isso que ela esteja sendo oferecida como parâmetro ou como modelo.

 

Como o livro ajuda a mostrar que os desvios à norma não são necessariamente erros?

 

Em parte, o último parágrafo da questão anterior já entrou no tema. Tendo ido aos usos encontrados em milhões de ocorrências reais, não filtradas por nenhum critério de escolha parametrizada normativamente, deixei evidente a proposta de fazer ver a gramática da língua simplesmente como a responsável pelo entrelaçamento discursivo-textual das relações que se estabelecem na sociocomunicação, sustentadas pela cognição. Desse modo, é naturalmente que se observam zonas de confronto entre usos efetivos das formas da língua e normas prescritivamente formuladas para esse uso (o que o livro comenta).

O fato é que nem tudo é bom em linguagem, nem, por outro lado, existem sobre o falante regras que ele não pode romper sem ser condenado. É premente a necessidade de ilustrar e tratar cientificamente essa tensão que naturalmente se estabelece entre a linguagem natural do falante (que tem de ser eficiente quanto aos seus propósitos de uso) e as pressões de atuação vindas das normas socioculturais do uso linguístico (que também podem pesar na eficiência do uso). Pôr o olhar sobre essa tensão é crucial nas decisões sobre a condução dos estudos de língua materna, e a questão merece ser explicitada nas obras gramaticais, para evitar tantas conduções distorcidas existentes.

 

Como esses desvios vão ganhando legitimidade na língua falada e escrita?

 

Não são necessários muitos argumentos para legitimar a existência de mudanças em uma língua natural no decorrer do tempo, expressamente considerada a carga de pressões que a vida sociocultural de um país está sujeita. Não é possível não entender que determinados modos de expressão que hoje ouvimos prazerosamente na nossa língua não se conformariam, por exemplo, com o que conhecemos historicamente do modo de vida e de interação de cem anos atrás.

Para começar, esse termo “desvios” teria de ser colocado entre aspas, porque, no caso das mudanças de uma língua na sua história, não há nada negativo a ser determinantemente resgatado nesse termo. Pelo contrário, deve-se entender que cada língua natural está posta a serviço de seus falantes para que, a cada ponto da sua existência como meio de comunicação, ela seja plenamente “atual”, isto é, ela cumpra seu papel, que é o de servir à expressão dos falantes da maneira exata como tem de ser, a cada momento, o que exclui imutabilidade.

Para isso a ciência nos ensina que a multiplicidade da linguagem se sustenta exatamente na fluidez que a caracteriza: as relações linguísticas não são invariavelmente questões de sim ou não, ou de tudo ou nada, e muito na língua é matéria de grau; ora, a imprecisão de limites é uma inevitável característica dos conceitos que a língua expressa; e, afinal, as categorias linguísticas não são sempre definidas rigidamente, ou seja, seus limites podem ser difusos. Só não se altera uma língua que já não é usada (a popularmente chamada “língua morta”)!

 

Gostaria que discorresse um pouco sobre a importância de ser reconhecido pelo Prêmio ABEU, que valoriza especificamente livros de editoras universitárias. 

 

É uma grande honra ter recebido esse prêmio, especialmente tendo em conta o fato de as editoras universitárias terem atingido um patamar de excelência e de respeitabilidade incontestável, algumas delas já constituindo, mesmo, “sonho de consumo” de muitos autores consagrados.

 

 

 


Tags da postagem

A voz do autor 5º prêmio abeu