A Voz do Autor

Alzira Salete Menegat, autora da Editora UFGD, fala sobre questões de gênero

Em 24/04/2017 15:54
Atualizado em 24/04/2017 16:45

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Com graduação em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, mestrado em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba e doutorado em Sociologia pela Unesp, Alzira Salete Menegat é nossa entrevistada desta semana na coluna A Voz do Autor. Em uma época em que as denúncias sobre machismo violência contra a mulher parecem finalmente vir à tona, ao invés de serem apenas ignoradas, Salete nos traz sua perspectiva justamente a respeito dos progressos dos movimentos femininas e dos estudos de gênero. Autora dos livros "Leituras sobre mulheres" e "Educação, relações de gênero e movimentos sociais", ambos publicados pela Editora UFGD, ela traz nesta conversa uma análise ampla dos esforços realizados na promoção de maior igualdade de gênero, além de apresentar algumas referências bibliográficas para aqueles e aquelas que desejam se aprofundar ainda mais no assunto. Confira a entrevista completa abaixo:

1) Suas pesquisas e estudos, como nos livros Leituras sobre mulheres e Educação, relações de gênero e movimentos sociais, tratam justamente da importância de promover mais espaço para a mulher na sociedade. Em uma época com opiniões cada vez mais extremadas e intransigentes, inclusive com discursos preconceituosos em relação ao movimento feminista, como é possível mostrar que debater questões de gênero é algo benéfico para uma realidade mais igualitária?

No livro "Leituras sobre mulheres" (publicado pela UFGD com apoio da FUNDECT) e também na obra "Educação, relações de gênero e movimentos sociais" (Editora da UFGD), apresentamos situações de mulheres ocupando diferentes espaços sociais, e em ambas as obras, chamamos a atenção para a necessidade do reconhecimento das mulheres em tais espaços, uma vez que elas se fizeram presentes no mundo do trabalho, mas socialmente suas atuações nem sempre foram notadas.

Essa invisibilidade promoveu múltiplas exclusões, que são históricas, porque esconderam não apenas o fazer das mulheres em suas atuações, mas as próprias mulheres como detentoras de suas identidades, e isso promoveu a dominação feminina em contextos produtivos e sociais, encurtando seus pertencimentos para os demais âmbitos da sociedade. Foi um processo combinado que visou dominar para explorar, e não ocorreu ao acaso, mas foi instituído socialmente conforme os referenciais do modelo patriarcal, com poderes circunscritos a diversas esferas – social, produtiva e até mesmo no espaço privado. No entanto, isso se deu de forma contraditória porque ao longo dos tempos as mulheres criaram resistências à dominação, ocuparam o mundo do trabalho, mas a questão era que sequer eram apresentadas produtivamente, o que facilitava a exploração em termos de menores salários, bem como na extensão de suas jornadas e especialmente da negação do espaço público, este reservado aos homens, herança que ainda se faz bem presente em nossos dias.

O fato é que gradativamente mulheres foram assumindo trabalhos fora de suas casas e atualmente elas são a maioria. Nas diversas pesquisas realizadas pela Fundação Carlos Chagas observamos indicadores que mostram elevado número de mulheres na condição de chefes de famílias, responsáveis pela reprodução familiar (função tida como de responsabilidade dos homens, tradicionalmente), atuando intensamente no mundo do trabalho. Contudo, a questão não está resolvida, visto que elas ainda recebem menores salários, mesmo detendo maior escolaridade, se comparadas aos homens. Essa dominação histórica nos leva a compreender a tímida participação das mulheres em postos de maior destaque mesmo nos dias atuais. Cita-se, como exemplo, os pleitos eleitorais para assumir cargos políticos, onde o número delas é extremamente reduzido, e parte daquelas que se candidatam por vezes ascendem guiadas por relações de parentesco com homens, já consolidados politicamente. Vejamos os números das últimas eleições, essas de 2016, em que as mulheres representavam 51,6% da população e entre os 5.509 municípios onde ocorreram pleitos eleitorais apenas 639 ficaram sob a representação delas.

Esse pequeno índice de mulheres em postos de visibilidade se estende a outros espaços. Vejamos: em relação à presença nos Ministérios, no Congresso Nacional, onde estão as mulheres? E porque elas lá estão em pequeno número? O domínio masculino está tão acentuado que parece indicar as mulheres como inimigas, porque elas se especializaram e passaram a questionar as diferenças, tornaram-se novas mulheres, mas em uma sociedade em que a cultura machista foi preservada, mantida até mesmo nas ideias de governantes, que são o espelho da sociedade, respaldando e fomentando ainda mais as diferenças no tecido social, e nessa espécie de rolo compressor vivenciamos momentos em que ora avançamos, ora retrocedemos com as conquistadas sociais.

Por isso acreditamos que precisamos debater sobre a invisibilidade feminina, porque ela é resultado de um processo histórico de poderes diferenciados, instituídos socialmente sob a combinação de formas sutis e violentas, consolidando relações de desigualdade e de subjugo para com as mulheres. Foi com essa demanda que se construiu o movimento feminista, que em seu princípio (década de 1920) defendia a entrada das mulheres no cenário social, mas naquele momento o fazia no sentido da inclusão feminina, e não de um questionamento das bases em que estava assentada a estrutura da sociedade, com poderes desiguais. Já nas décadas de 1960 e 1970 o movimento feminista reuniu maior força social, se consolidando nas décadas de 1980 e 1990, pautando a necessidade de mudanças na estrutura social, e isso ocorreu por meio da publicação de pesquisas sobre o tema, com inúmeros trabalhos acadêmicos, bem como pela organização de Laboratórios e Núcleos de estudos de gênero nas universidades brasileiras, reunindo intelectuais envoltos no debate das diferenças sociais, e também da organização de inúmeros grupos de mulheres da sociedade em geral, com destaque para o movimento das mulheres camponesas, mulheres operárias, do movimento das margaridas e muitos outros grupos de mulheres que foram se organizando e trazendo a discussão para o âmbito da sociedade, seja nos espaços de debates em congressos científicos e/ou nas manifestações de rua, que traziam como pauta as diferenças e a invisibilidade das mulheres.

Na primeira década do século XXI podemos dizer que ocorreu a consolidação de diversas demandas encaminhadas pelo movimento feminista, assumidas pelo Estado por meio da implementação de políticas públicas de enfrentamento à sujeição e violências. Citamos a Lei 11.340, de 7/08/2006, conhecida como Lei “Maria da Penha”, atendendo mulheres em situação de violência. Citamos, ainda, a criação, em 2015, do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que formulou políticas para as mulheres. Mas ocorreu um retrocesso, porque o MMIRDH, em 2016, passou a Ministério da Justiça e Cidadania, e nele uma Secretaria de Políticas para as Mulheres foi criada. Então, a negação da presença das mulheres nos diferentes espaços da sociedade foi sendo inculcada no inconsciente das pessoas, até mesmo das mulheres, o que levou à naturalização de sua invisibilidade, traduzindo a dominação feminina como algo normal, porque sempre foi assim e ponto.

Quando ocorrem questionamentos, pronto, é como se socialmente as mulheres encaminhassem uma luta contra os homens. No entanto, é preciso ressaltar que não se trata de disputa entre homens e mulheres, mas sim de encaminhamentos contra o SISTEMA DE DOMINAÇÃO, que atribui até mesmo aos próprios homens o ônus de serem machistas e dominadores. O que há no movimento feminista é debate, esclarecimentos e indignação, chamando a atenção para a desigualdade social e para o fato de que todos perdem com a condição de dominação e de exploração feminina. Por isso a urgência no debate, explicitando as diferenças de pertencimento, compreendendo assim sua historicidade e pautando a necessidade de políticas públicas que visem diminuí-las e, dessa forma, criar as bases para uma sociedade mais igualitária.

Enfim, nas obras mencionadas reunimos reflexões de diversos autores e autoras, envoltos nos estudos sobre relações de gênero e poderes, analisando mulheres ocupando diferentes cenários sociais, especialmente em Mato Grosso do Sul. Com tais obras visamos contribuir para o entendimento de situações vivenciadas pelas mulheres em suas relações sociais, como também buscamos subsidiar novos debates em torno de situações de mulheres que estão construindo novos caminhos, se fazendo e se refazendo em suas trajetórias, dilemas e possibilidades, fundamentais para os dias atuais, visto que vivemos uma condição de avanços e recuos nas relações de gênero e poderes, que ora acenam para transformações, ora parecem recolher e encolher encaminhamentos e mudanças sociais.

2) Em seus trabalhos você também analisa os movimentos sociais e suas lutas. Com o crescimento do autoritarismo na opinião pública e diante das atuais políticas de austeridade por parte do governo, que estratégia esses movimentos podem usar para assegurar a defesa das pautas das minorias que representam, que são justamente aqueles que mais sofrem com essa mudança de paradigma?

Os movimentos sociais da atualidade trazem metodologias que foram cunhadas pelos movimentos da década de 1970, quando passaram a se constituir com bases aglutinadas. Os estudos de Maria Glória Gonh e Ilse Scherer Warren apresentam essa nova configuração dos movimentos sociais, organizados em rede de demandas e de sujeitos e que transitam por diferentes classes sociais, reunindo múltiplos movimentos, e estendendo diálogos para diversas instâncias sociais e com entidades sociopolíticas. Com isso contabilizam força social na luta por direitos diversos, que nos dias atuais estão para além do campo dos direitos tradicionais, pois expressam coletivos organizados a partir dos direitos sociais modernos, fomentando a igualdade e a liberdade, expressões que constituem um direito amplo, em torno da cidadania.

Os movimentos sociais da atualidade estão intensificando o debate fazendo uso de diversos meios, seja pelas redes sociais, já que a mídia tradicional, com destaque para a televisão, não cede espaço, especialmente com as grandes manifestações que sabiamente os movimentos sociais brasileiros conseguem organizar. Isso consiste em metodologias para o fortalecimento da luta pela seguridade de direitos, o que poderá levar, e, destaca-se, já está levando, a uma força social que tem traduzido suas demandas para o contexto da sociedade, causando constrangimento em âmbito governamental, mesmo que este ainda esteja dando sinais de manutenção da austeridade em relação às minorias.

A via tem sido a luta social, que pode ser geradora de força social transformadora, envolvendo não apenas grupos que encaminham suas necessidades, mas ao questionarem o contexto gerador de exclusão, transformam a demanda que a princípio parecia pertencer apenas a um grupo especifico em demanda da sociedade. É nisso que consiste maior força social, quando a demanda alcança a todos.

Cita-se as pautas do movimento feminista, que defende igualdade de direitos, uma demanda que não é exclusiva das mulheres, mas quando alcançada trará resultados no todo da sociedade, porque criará pertencimentos de sujeitos e trará igualdade de pertencimento social. Então, os movimentos sociais trazem para os dias atuais a urgência de demandas que são estruturais, resultado da maneira como o contexto brasileiro está organizado e que por ser excludente produz grupos sociais em situação de carências. Contudo, é também um tempo de enfrentamentos, que por vezes contam com auxílio institucional, com aval do e pelo Estado, negando conquistas que se acreditavam consolidadas.

Trata-se, então, de luta com interesses de classes distintas. Vejamos os enfrentamentos em relação à estrutura fundiária brasileira, que de um lado há sem terras, comunidades indígenas, comunidades quilombolas e outras categorias que questionam a histórica concentração de terras; e, de outro lado, o latifúndio, mediado pelo capital, com apoio do Estado, ou mesmo sendo o próprio Estado, e por isso acessando desmedidos bônus. Já para as minorias, políticas para acalmar ânimos, mesmo que estas estejam na produção de alimentos básicos, tão necessários. Então, em tempos de austeridade resta a força social traduzida por meio dos movimentos sociais, que se não conseguem garantir a seguridade de todas suas pautas, ao menos questionam socialmente os processos de dominação e de exclusão, assegurando referenciais e também coesão para futuras mudanças.

3) Por fim, quais outras leituras você indicaria para entendermos melhor a questão das relações de gênero, atualmente?

A bibliografia sobre relações de gênero e poderes é imensa. Inicio indicando uma obra clássica, a de Heleieth Saffioti, “A Mulher na sociedade de classe: mito e realidade”, para pensar as amarras da dominação feminina efetivadas pelo capital. Outra obra é de Joan Scott – “Gênero: uma categoria útil para análise histórica”, para refletir sobre a construção social e cultural das diferenças sexuais, bem como as especificidades no campo teórico.

Em relação ao movimento feminista, o livro “Uma história do feminismo no Brasil”, de autoria de Céli Regina Jardim Pinto, contém uma análise cronológica do movimento. Corroborando com esse tema, citamos a obra de Daniela Auad: “Feminismo: que história é essa?”. Para as análises sobre corpo, sexualidades e subjetividades, apontamos a obra de Michel Foucault “História da Sexualidade”, e também a de Judith Butler, “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade”.

No estudo da violência citamos as obras de Miriam Pillar Grossi, “Rimando Amor e Dor: reflexões sobre a violência no vínculo afetivo conjugal”, e de Heleieth Saffioti, “Violência de Gênero: poder e impotência”.

Além dessas obras, contamos com vasta bibliografia sobre o tema, o que nos auxilia a compreender e, especialmente, pautar a necessidade de políticas que visem mudar a condição social feminina, o que resultará em melhoria na vida de todas as pessoas.


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