A Voz do Autor

Alexandre Rodrigues da Costa, autor da Editora UEMG, fala sobre as influências de outras expressões artísticas na escrita literária

Em 04/11/2019 21:14
Atualizado em 05/11/2019 14:26

Entrevista por ABEU

A Voz do Autor

Graduado em Letras pela UFMG, com mestrado e doutorado também em Letras pela mesma instituição, Alexandre Rodrigues da Costa é o nosso entrevistado da semana na coluna A Voz do Autor. Seu amor pela literatura e pelas artes é notório, tendo desenvolvido uma pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. Além disso, atua também como poeta, sendo autor de “Objetos Difíceis” (7Letras/Funalfa), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; “Fora de Quadro” (7Letras), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; “Peso morto”, “Corpos cegos”, “Bela Lugosi no ateliê de Kandinski” (todos da 7Letras), entre outros. Seu trabalho como ensaísta também é bastante reconhecido e durante nossa entrevista falamos mais especificamente do seu título publicado pela Editora UEMG, “A transfiguração do olhar”.

Ao longo da conversa, Alexandre fala sobre as influências de outras expressões artísticas na escrita, comenta seu trabalho como tradutor e rememora sua trajetória como poeta.

Em seu livro "A transfiguração do olhar", há uma busca por compreender como o olhar sobre outras obras de arte influencia o próprio fazer artístico de poetas e romancistas, mais especificamente na obra de Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector. De que formas podemos perceber a atuação dessas referências de outros campos artísticos na escrita? Para nossos leitores mais leigos, como é possível apurar o olhar para essas relações?

A meu ver, a relação entre as artes abre a possibilidade de se compartilhar aquilo que cada uma tem de melhor, assim como de perceber e testar os limites que as diferenciam. Ao estudar os textos de Rilke e Clarice sobre as artes visuais, o que mais me fascinou foi a forma como eles se “alimentaram” desse contato com outras artes, trazendo para a literatura preocupações e perspectivas que não eram muito exploradas nesse meio. Uma forma de apurar o olhar sobre essas relações passa pelo constante retorno à obra da qual se gosta ou até mesmo da qual não se gosta, pois se algo me incomoda em uma obra, seja ela visual ou literária, é importante eu descobrir o que e o porquê. Mas também não basta encontrar os motivos que me fazem voltar a ela, é necessário respeitar a existência da obra, saber que, embora ela exista em meu mundo, aquilo que ela descreve ou representa não é um mundo real, mesmo que tenha elementos que se assemelhem a ele. Se não houver esse respeito, como é possível ler Lolita, de Nabokov, assistir a Laranja Mecânica, de Kubrick, ou contemplar um desenho de Bellmer? É necessário sempre lembrar que uma obra é um produto ficcional e por mais politicamente incorreto que ele possa parecer ser, deve-se evitar julgá-lo por parâmetros morais, uma vez que tal julgamento pode resultar em nada mais do que censura. E sou totalmente contra qualquer forma de censura, pois, no final das contas, qual é o limite para ela, a não ser o total silêncio, a conformidade com as opiniões e o ego daqueles que estão no poder ou se sentem ameaçados, porque acham que todos que pensam diferente deles devem ser violentamente calados.

O sr. atua também como tradutor, tendo adaptado poemas de Georges Bataille e textos de Hans Bellmer. Muitas vezes o ofício do tradutor é desvalorizado no meio literário. Você acha que tem mudado essa relação do mercado editorial com o tradutor, que passou a ter mais prestígio? Quais os principais desafios em uma tradução?

Ainda vejo o trabalho do tradutor muito desvalorizado não só no meio literário, mas na sociedade como um todo. Pensa-se na tradução ainda como um trabalho de segunda ordem, no sentido de afastamento do original. Evidentemente que sempre haverá o primeiro texto, e essa é a grande dificuldade em lidar com a tradução, pois se abrem duas opções: a de se realizar uma tradução literal ou a de se fazer uma tradução criativa. Independente dessas escolhas, a tradução oferece a possibilidade de se ler criticamente um texto, de descobrir novos sentidos que, talvez, passem despercebidos em uma leitura apressada do texto original. Para mim, os principais desafios em uma tradução estão em capturar esses elementos despercebidos, aquilo que escapa à leitura do texto original. Quando traduzi os poemas de Bataille com a professora Vera Casa Nova, me deparei com essa expressão: “elle rit aux anges”. Diante da força dessa imagem, há uma tendência em se traduzir literalmente parte do verso para: “ela ri para os anjos”. Mas é necessário libertar-se da inércia e fazer o trabalho de casa, pesquisar. E foi o que fiz. Pesquisei e descobri que “rire aux anges” é uma expressão que significa “gargalhar”. A tradução do trecho é: “ela gargalha”. Perde-se a beleza do significante, mas se ganha em significado. Além de o tradutor precisar ficar atento a essas nuances, precisa também fazer sacrifícios.  

Por fim, gostaria que falasse um pouco sobre sua própria trajetória como poeta. A prática da escrita de poesia veio antes de sua formação e estudos na área de Letras, ou foi desenvolvida a partir das reflexões propiciadas pelas pesquisas em literatura? Fazendo uma relação com seu próprio livro, "A transfiguração do olhar", como academia influenciou seu olhar para escrever poesia?

Comecei a escrever poemas no Ensino Médio, quando era adolescente. Eram péssimos. Quando me preparei para o vestibular de Letras, para treinar meu inglês, traduzia textos de T. S. Eliot e Ezra Pound, ao mesmo tempo que lia Drummond e Dante. Escrevia alguns poemas, mas ainda eram péssimos. Foi só depois de concluir a graduação em Letras, já no final do mestrado, que eu encontrei minha dicção. Meus poemas só se tornaram possíveis quando percebi que teoria e prática não eram coisas opostas, mas eram indissociáveis uma da outra. O grande erro de qualquer artista está em separar a teoria da prática. A meu ver, elas são indissociáveis e a história da arte e a história da literatura têm demonstrado isso. Um poeta que não conhece sua tradição e acredita que um poema é simplesmente a transposição de suas emoções é muito ingênuo e tem grandes chances de escrever textos superficiais. Com meu estudo sobre Rilke e Clarice, em "A transfiguração do olhar", aprendi a treinar meu olhar, a controlar meus sentimentos, a manipular as palavras, a encontrar aquilo que Eliot chama de “correlato objetivo”. Como ele escreve em seu texto “Tradição e talento individual”: “a evolução de um artista é um contínuo autossacrifício, uma contínua extinção da personalidade”. Sempre que me esqueço sobre o significado do que vem a ser escrever um poema, volto a esse texto de Eliot. Para mim, escrever é exatamente um contínuo processo de despersonalização, pois só é possível projetar a emoção que se quer no papel, se há controle sobre aquelas que temos. Nesse processo de escrita, há também bastante leitura, pois é necessário estudar e analisar como os grandes poetas conseguem manipular as palavras, criar imagens e emoções específicas por meio delas. Mas não basta ler só literatura, é importante ter contato com o máximo de expressões artísticas diferentes, para encontrar e usufruir de perspectivas e experiências diferentes sobre o mundo. Para mim, a arte é sempre a possibilidade de descobrir coisas novas, de criar realidades que eu jamais viverei. Ela é sempre esse encontro com o outro.

 


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