A Voz do Editor

Rita Virgínia Argollo, diretora da Editus,fala sobre as alternativas para a divulgação de livros e a disseminação da leitura

Em 02/10/2017 14:39
Atualizado em 02/10/2017 18:02

Notícia por ABEU

A Voz do Editor

Na coluna A Voz do Editor, continuamos conversando com profissionais do livro sobre temas de interesse do mercado editorial universitário. Essa semana, nossa entrevista é com Rita Virgínia Argollo, Diretora da Editus que fala sobre as ações realizadas pela Editora da UESC em prol da divulgação dos seus livros e da disseminação da leitura. Rita mostra como sua equipe está sempre em busca de novas alternativas de oferecer os títulos da editora ao público leitor, tentando romper a resistência que muitos ainda têm à leitura, destacando a situação ainda mais desafiadora da região do sul da Bahia, onde a editora está localizada.

1) Quem atua no mercado editorial universitário está ciente que é preciso muita criatividade para fazer a divulgação de suas publicações, uma vez que lidamos com livros que atendem a públicos específicos e não têm tanto apelo comercial. Poderia, então, nos contar um pouco de sua experiência na Editus a respeito das ações de promoção da leitura dentro da universidade e nas cidades onde a UESC atua? Como surgem as ideias para essas ações?

Eu imagino a produção de livros de modo semelhante ao que fazemos em jornalismo, em audiovisual de um modo geral. Provavelmente por conta da minha formação e trajetória. Entendo que é preciso ir às ruas e trabalhar em equipe. Por isso, as nossas ideias são maturadas e executadas coletivamente, de modo colaborativo. Ainda nesta perspectiva, buscamos parcerias - tanto dentro da própria Universidade, quanto com atores externos. Com alguns, firmamos convênios de cooperação técnica, com outros, são ações pontuais. Dentro dos limites de capacidade de realização do nosso quadro de colaboradores, que é bem pequeno, estamos sempre integrados a algum projeto, atividade. Para mim, sempre foi muito clara a necessidade de manter o livro vivo, de entender que a cadeia produtiva não se encerra com a impressão. Quando o livro é publicado, começa uma nova etapa de trabalho e mesmo depois de algum tempo no catálogo, é importante revisitar e repensar a divulgação de um título.   

 

2) A Editus ajuda na realização do Festival Literário de Ilhéus, produz a Feira do Livro da UESC, possibilita o encontro de autores com leitores e incentiva campanhas de doação de livros, como a ação “No caminho tem um livro” e “Um lugar para ler”. Como é a adesão do público nessas diferentes iniciativas? É possível sentir alguma transformação no hábito de leitura das pessoas das comunidades locais e da universidade?

Em um país em que mais de 40% da população não lê e 30% nunca comprou um livro (como mostrou a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil), é difícil estar imersa no meio editorial e não me sentir obrigada a refletir sobre essa questão. E buscar mecanismos que possibilitem olhar para um futuro menos cruel. O peso é ainda maior quando me imagino no Nordeste, e no Sul da Bahia, uma região que busca se reerguer após o empobrecimento causado pela crise da Vassoura de Bruxa (praga que devastou a monocultura cacaueira). Procurar parceiros que nos ajudassem a levar o livro para perto do leitor em potencial foi a saída encontrada. É uma ação muito difícil, delicada. Partimos do princípio de que para manter esses projetos vivos é fundamental acreditar no ser humano. Esperar - e comemorar todas as vezes que isso acontece! - que a pessoa vai entender que aquele livro disponibilizado para leitura no campus universitário ou no ônibus é um bem público, que precisa ser lido, conservado e devolvido para que outras pessoas também tenham acesso. Também temos consciência de que atuamos com mudança de mentalidade e que este é um processo lento - mas que precisa ser iniciado. Os projetos foram muito bem recebidos e elogiados pelo público. No entanto, os resultados talvez só possam ser percebidos daqui a 10, 20 anos.

 

3) Mesmo com essa proatividade da Editus em promover espaços dedicados ao livro e à leitura, qual você acha que ainda é o principal entrave para a disseminação das publicações entre os leitores? E como vocês buscam sempre inovar nas formas de realizar as ações para o público leitor?

O entrave da Editus, eu imagino, deve ser o mesmo de tantas editoras universitárias, principalmente de instituições públicas. Nos faltam recursos, mão de obra, políticas que favoreçam publicações do nosso segmento, menos entraves... Na perspectiva da direção, somos também professores, pesquisadores e já vivenciamos sob este outro ângulo um conjunto de dificuldades. A inovação surge justamente porque estamos todos fazendo o que acreditamos. Sinto isso na equipe da Editus e também com os colegas da ABEU. Nós buscamos não entender o problema como empecilho. É apenas mais um desafio a ser encarado. Em um país em que pouco se lê, quem iria se importar com a produção de livro por universidades?  Nós nos ocupamos disso. Então vamos em frente, porque amanhã será melhor! Se apenas um único livro transformar a visão de mundo de apenas um leitor, já valeu!



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